Do amor, renascido
Fomos nau em mar revolto,
madeira à deriva no tempo,
palavra suspensa no sopro,
ecoando em abismos do vento.
Fomos ruína antes do templo,
pétala ao chão antes da flor.
Mas mesmo no luto dos dias,
havia um sussurro de amor.
Oh, quantas vezes a alma calou,
quantas vezes o orgulho bradou —
mas entre os cacos, o lume,
brando, insistente, ficou.
Não foi milagre nem sorte,
mas pacto tecido em silêncio,
um voto lançado à alvorada
quando tudo em nós parecia extinto.
E então, mãos antes trêmulas, firmaram,
olhares antes fugidios, pousaram.
E onde era inverno sem fim,
brotou um jardim.
Hoje, o que pulsa entre nós
não é o mesmo — é mais vasto.
É vinho que o tempo apurou,
é harpa que o tempo afinou.
Já não amamos com urgência,
mas com a eternidade dos rios.
E cada beijo, agora, é lume
que dissipa antigos frios.
Sim, reerguemo-nos das cinzas,
como ave de antiga lenda.
E nosso amor, já não ferida —
é chama serena, que não se renda.












