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Do amor, renascido
Fomos nau em mar revolto,
madeira à deriva no tempo,
palavra suspensa no sopro,
ecoando em abismos do vento.
Fomos ruína antes do templo,
pétala ao chão antes da flor.
Mas mesmo no luto dos dias,
havia um sussurro de amor.
Oh, quantas vezes a alma calou,
quantas vezes o orgulho bradou —
mas entre os cacos, o lume,
brando, insistente, ficou.
Não foi milagre nem sorte,
mas pacto tecido em silêncio,
um voto lançado à alvorada
quando tudo em nós parecia extinto.
E então, mãos antes trêmulas, firmaram,
olhares antes fugidios, pousaram.
E onde era inverno sem fim,
brotou um jardim.
Hoje, o que pulsa entre nós
não é o mesmo — é mais vasto.
É vinho que o tempo apurou,
é harpa que o tempo afinou.
Já não amamos com urgência,
mas com a eternidade dos rios.
E cada beijo, agora, é lume
que dissipa antigos frios.
Sim, reerguemo-nos das cinzas,
como ave de antiga lenda.
E nosso amor, já não ferida —
é chama serena, que não se renda.
RECOMEÇO
Já fomos sombra um do outro,
na dança muda do desencontro.
Choveram silêncios, ventos frios,
e cada mágoa abriu seus rios.
Fomos tropeço, fardo e luta,
voz embargada, dor oculta.
Mas mesmo em meio à confusão,
teimosamente, demos as mãos.
Não foi o tempo, nem o acaso,
foi escolha — passo após passo.
Foi o querer mais forte que o orgulho,
foi plantar no caos um novo julho.
Decidimos ficar, refazer,
aceitar, ouvir, crescer.
E entre as cinzas do que fomos,
erguemos algo mais que sonhos.
Hoje, cada gesto é poesia,
construída a cada dia.
Somos novos, mesmo sendo os mesmos,
mais leves, mais verdadeiros.
Nosso amor, antes tempestade,
hoje é casa, é liberdade.
E o que um dia quase se perdeu,
floresce inteiro — renasceu.