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@bibliobulic0
Me enche de ternura o som da tua respiração amena enquanto cai na inconsciência. O reconhecimento da familiaridade em suspiros e afagos inocentes me faz pensar que, mais do que amar, é bonito se reconhecer no outro. Compartilhar silêncios sempre me foi mais significativo.
É demasiado fácil e impessoal preencher o ar com detalhes frívolos da rotina - o tempo instável, problemas burocráticos, o pandemônio nacional -; entretanto o silêncio, quando compartilhado, para ser verdadeiramente prazeroso, exige afeto e familiaridade; daqueles em que meu peito aquieta ao te ver existir.
O dia se espreguiça sem pressa no horizonte. Escuto ao longe o despertar da gente. Você solta resmungos inaudíveis, o rosto sereno, os lábios em meus ombros, o quente de um corpo que perpassa o outro. Cenas tão cotidianas quanto banais que teimam em me aquecer o peito.
Gestos inconscientes me fazem te afagar com a ponta dos dedos. Penso que talvez tenhamos evoluído para o próximo ponto. Aquele em que a certeza do afeto transforma o amor em doce calmaria. Como um transeunte que, cansado, finalmente retorna ao lar.
Minha definição de casa há muito deixou de ser física. Resido nos espaços e detalhes do seu peito.
Então, enfim, me permito cair no esquecimento.
G.
This is so cute 😍
©albumreceipts (Instagram)
Vulnerabilidade
Por muito tempo entendi vulnerabilidade como algo negativo: que te expõe como frágil, pequena e fraca perante outras pessoas. Estar em situações que me faziam sentir vulnerável sempre foram difíceis, me faziam perder a confiança, ficar ansiosa, incomodada comigo mesma e até me tirar a voz e impedir de lutar contra o que estivesse acontecendo. Não entendia muito bem o porquê, até perceber que os momentos em que me senti assim foram de abusos psicológicos e coisas ruins ditas sobre/para mim em relacionamentos e situações passadas, e decidi que definitivamente a vulnerabilidade era minha pior inimiga. Até que uma vez você disse que vulnerabilidade pode ser uma forma de amar, e ao fazê-lo, senti que era hora de ressignificar essa palavra dentro de mim, só não sabia como. Já tinha deixado esse assunto meio de lado e esquecido quando certo dia tive falta de ar e você insistiu que eu fizesse inalação e se preocupou comigo, o que me fez sentir cuidada, mas também um pouco incomodada por não ser eu a pessoa que estava cuidando de alguém. Lembrei da reflexão sobre aquele sentimento que para mim era tão ruim, mas nesse momento específico não tinha sido tão ruim assim, talvez até bom. Sorri. Da última vez que nos vimos não pudemos nos tocar, mas pude sentir seu carinho por mim cintilando nos seus olhos. Antes de ir embora você disse que me amava e nem acreditei ter dito o mesmo, pois essas três palavras, para mim, são incrivelmente difíceis de serem ditas, as que mais me fazem sentir como se estivessem enxergando por dentro de mim, mas eu disse. E foi muito bom. Essa semana meus amigos e eu nos encontramos, estávamos conversando e rindo juntos quando de repente senti um vazio, uma sensação de que havia algo faltando ali... e lembrei de você. Pensei em como você se encaixaria perfeitamente naquele cenário, em como eu ficaria tão feliz e orgulhosa de te ter ao meu lado. Dessa vez não me senti fraca ou exposta demais, não me culpei por estar me permitindo sentir. A vulnerabilidade não era mais o bicho de sete cabeças que por tanto tempo temi. Agora entendo a parte positiva de se sentir vulnerável: é te marcar em cantadas cafonas pra te fazer rir sem me sentir ridícula por fazê-lo, ver vídeos de receitas e pensar no dia em que as faremos juntas, me orgulhar em te ver fazendo coisas que te alegram e sendo incrível no seu trabalho, ficar com vergonha quando você me elogia ou diz coisas maliciosas e só conseguir dar risada. É querer que você saiba que te acho a pessoa mais maravilhosa do mundo e tudo em você é perfeito para mim, desejar estar perto a todo momento e te ter como a primeira pessoa em quem penso quando tenho uma novidade pra contar. Ser vulnerável é poder ser quem eu sou sem me preocupar em ser julgada, dizer coisas que não diria para mais ninguém, te amar e me entregar completamente. É ter medo de ter meu coração partido, mas confiar quando você diz que isso não vai acontecer.
(bibliobúlico)
Nós
Eu gostei de você desde a primeira vez em que te vi, na entrada daquela festa, cantando. Foi ali que nossas linhas se cruzaram pela primeira vez. Mas eu estava tão perdida e focada em me sentir menosprezada por quem não sentia nada por mim que não me deixei perceber esse sentimento logo de cara. Nosso primeiro nó.
Dois anos depois, quando a gente se reencontrou, foi fácil perceber o que eu estava sentindo e foi mais fácil ainda perceber que era recíproco, mas quem em juízo perfeito ia ver em mim algo que valesse a pena gostar? Alguém que fosse interessante o suficiente pra chamar atenção de qualquer pessoa que fosse? Pra mim parecia impossível - ainda mais da forma como você mostrava gostar de mim, na intensidade em que você mostrava gostar de mim -, e ainda assim nossas linhas estavam lá, se cruzando de novo. Então eu resolvi deixar as coisas rolarem e ficou tudo bem por um tempo, mas o medo de estar vivendo aquilo só crescia em mim e eu estraguei tudo com erro atrás de erro, dizendo que eu “era nova demais pra uma relação séria, eu quero curtir a minha vida, não quero me sentir presa” e ok, era verdade, eu era mesmo muito nova e queria mesmo curtir e não me sentir presa, mas o que me impediu de verdade de viver o que quer que fosse com você naquele momento foi medo: de me machucar, de te machucar, de fazer tudo errado, de enfrentar as coisas que eu precisaria enfrentar para estar com você, de me abrir e me deixar ser vulnerável e exposta perante a você. E tão rápido quanto nossas linhas se reencontraram, eles se embolaram e se dividiram de novo. O segundo nó.
Desse ponto em diante eu observei de longe você vivendo os seus romances sentindo o que hoje eu percebo que era inveja por aquelas pessoas estarem vivendo o que eu abri mão de viver. Quer dizer, não tão de longe assim, porque de tempos em tempos eu me reaproximava, numa vibe bem “oi sumida” pra ver se ainda dava tempo, se eu ia conseguir ser corajosa o suficiente pra dizer o que eu sentia, mas coragem não era meu ponto forte; já você que nunca teve dificuldade em falar abertamente sobre o que sente e pensa (o que ainda me dava medo, era intenso e real demais), não parou para me esperar - e eu nem contava com isso -, então foram muitas tentativas em vão de te mostrar que eu ainda estava ali, que eu queria estar ali, mas não fui clara o bastante (ou talvez você tivesse passando pelo seu momento de valorizar demais quem não fazia o mesmo por ti). Vários mini nós, esses talvez sejam os mais difíceis de desatar.
Eu (fingi que) aceitei que não daria certo e dirigi meu foco pra outras coisas, outras pessoas. Essa foi a sua vez de me procurar, não havia impedimentos para você, mas para mim sim e mais uma vez nossas linhas se cruzaram, mas foram puxadas em direções opostas. Mais um nó.
Aqui eu vivi meus piores momentos e também decidi viver a minha maior aventura, não sem antes viver o momento que eu mais ansiava. Naqueles poucos dias de praia eu decidi derrubar todas as minhas paredes e me deixar sentir tudo, viver tudo e te mostrar tudo que eu sentia sem medo (ou pelo menos sem deixar que ele tomasse conta de mim), a dúvida em saber se aquela seria a última vez que eu iria te ver me esmagava por dentro de tal forma que eu só conseguia pensar em aproveitar cada segundo e me entregar completamente a você. Esse foi o nó mais apertado, mas bonito e mais doído dessa história.
E assim eu fui viver o que o mundo reservava para mim (e nem acredito que minha linha tenha ido tão longe), mas em momento algum você deixou de estar presente. Você estava sempre ali nas coisas que eu via, nas histórias que eu contava, nos meus pensamentos, nas indagações sobre o que você estaria fazendo e se estava bem e feliz, nas músicas que eu ouvia, na foto pendurada na parede do meu quarto, nas memórias, na dor de saudade. E os nós existentes só apertavam mais com a distância, tanto que me fizeram entender que eu não precisava mais sentir medo, eu nunca precisei sentir medo, porque o que eu sentia era tão intenso e tão grande e tão real quanto o que você sent... Percebi que não sabia mais se você ainda sentia alguma coisa. Você tinha outro alguém, eu demorei demais.
Minha aventura acabou e me encontrei de volta a realidade, tentando me encaixar e readaptar quando sem querer a gente se cruzou no meio da rua. Tentei agir naturalmente e disfarçar minhas mãos que tremiam e minha boca que não sabia o que falar. Decidi deixar o medo de lado, não me privaria mais de viver algo que podia ser lindo.
(Talvez tenha sido aqui onde eu errei, ao criar expectativas sobre algo que tinha grandes chances de não acontecer, mas sem pensar muito nisso para não me acovardar de novo, eu estava sendo corajosa agora.)
Os meses passaram sem o menor indício de que algo mais acontecesse além dos bolos que eu levava com frequência até que, para minha surpresa, você veio ao meu encontro num momento inesperado, depois de mais um convite que eu tinha certeza que não ia ser aceito. E esse encontro foi diferente de todos os outros, pois eu reconheci ali a forma como você me fazia sentir mais completa, como o mundo parecia parar ao nosso redor, tudo que eu via e ouvia era você, tudo que eu sentia era você e tudo que eu queria era você. Minha cabeça gritava comigo para agir como uma pessoa normal, para não te abraçar com tanta intensidade (“vocês não se veem há anos, se controla!!!”). Eu tinha certeza de estar agindo como louca, mas não ligava, você estava ali e isso é o que importava. Esse novo nó foi feito cheio de expectativa, era o começo de algo novo.
E você continuou ali quando nos vimos de novo, e de novo, e de novo; e quando nos beijamos naquela praça o mundo parou mais uma vez e só tinha você, sempre você. Achei que ia ficar tudo bem, que dessa vez ia dar certo... E claro que não deu. Seria fácil demais se fosse assim. Eu recuei e me escondi, lidando com as minhas feridas em silêncio. Disse pra mim que não tinha problema, ainda podia ser sua amiga. Mas não sabia como desfazer esses nós e já tinha se tornado difícil aguentar o aperto deles em mim.
E se não da pra desfazer, o que eu faço? Como eu lido com esse monte de nós dentro de mim: lembranças de nós, sentimentos sobre nós, expectativas de nós, dúvidas quanto a nós, saudade de nós, vontade de nós, sonhos de nós. Como?
Foi você quem disse: nós sempre vamos existir, mesmo parecendo que não. E eu acreditei.
Mas cadê “nós” agora? Cadê nós quando você me pede pra ficar longe e me deixa sem resposta? Onde ficamos nós enquanto você da carinhos a outra pessoa? É possível haver um nós onde fica cada vez mais claro não existir espaço? Será que ainda posso dizer que somos “nós”?
Entre essas e outras indagações vejo que nossas linhas depois de tantos anos, tantas idas e vindas, já estão gastas, maltratadas, começam a se desfiar e me pergunto se você vê o mesmo que eu. Tento agir com cuidado para que elas não se partam e desejo que você faça igual. Espero sua decisão, torcendo para que não seja a de cortar nossas linhas de uma vez por todas. Tento consertá-las, mas não posso fazer isso sozinha. Não consigo fazer isso sozinha. Preciso de você.
Preciso de nós.
(bibliobúlico)
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