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Velozes e Furiosos melhora a cada filme (nunca pensei que iria escrever isso um dia...)
Quem diria? Depois de surgir como uma franquia dedicada a carros tunados e velocidade, com pouca criatividade e roteiros pífios, Velozes e Furiosos acelerou para se tornar o principal produto de ação do cinema de Hollywood em atividade.
Não só o principal, como o melhor e mais rentável.
Os três primeiros filmes, lançados entre 2001 e 2006, requentaram uma fórmula batida e meio sem graça. Acabaram caindo nas graças da galera aficionada por motores, mas estacionaram nas bilheterias. O segundo filme, + Velozes + Furiosos (pausa para risos sobre o título ridículo), de 2003, foi o que fez mais dinheiro, somando US$ 236 milhões mundialmente.
A franquia parou de patinar nas bilheterias e no imaginário popular em 2009, quando o diretor taiwanês Justin Lin voltou ao volante da série após o fraco terceiro filme.
Velozes & Furiosos espertamente trouxe o personagem de Vin Diesel de volta para o acento do motorista. Dominic Toretto passou a se comportar como o ponto central de uma família pouco comum, dividindo as atenções com o menos carismático - mas bem mais confortável na posição de co-piloto - Paul Walker.
Outro mérito do diretor Justin Lin foi turbinar as sequências de ação. Assim, o que antes era uma franquia focada em rachas e corridas, passou a envolver assuntos mais abrangentes e democráticos.
Esse quarto filme ainda não mostrou o verdadeiro potencial da série, mas o próximo sim. Velozes e Furiosos 5: Operação Rio trouxe a ação para o Rio de Janeiro e a elevou a níveis inacreditáveis. Os carros, antes centro da ação, agoram eram só o combustível para uma história que envolve empresários corruptos e o roubo de US$ 100 milhões.
A cena em que Toretto e Brian arrastam um cofre gigantesco pelas ruas é um clássico instantânea do cinema de ação.
Esse foi ainda o filme que introduziu Dwight “The Rock” Johnson, vivendo o agente do FBI Lucas Hobbs. E, como todo mundo sabe, The Rock melhora qualquer filme em que ele estiver.
O faturamento mundial de US$ 626 milhões mostrou que Velozes e Furiosos estava no rumo certo. E daí em diante nunca mais pisou no freio. O filme seguinte - o sexto, não perca as contas - engatou a quinta marcha e garantiu uma bilheteria de US$ 788 milhões pelo mundo!
Em 2013, o diretor Justin Lin repetiu o que tinha dado certo em 2011. Especialmente no que se refere ao formato clássico de “equipe sendo formada para realizar uma missão”. E Lin ainda teve a sagacidade de aumentar a presença de The Rock no filme!
Com o sexto filme, a franquia se consolidou como a série de ação mainstream referência no que se refere a cenas incrivelmente inventivas e absurdas. E transformou a família de Toretto numa espécie de Vingadores sobre rodas.
E finalmente chegamos ao sétimo filme, em cartaz no Brasil. Justin Lin abandonou a corrida desta vez, dando espaço para o talentoso malaio James Wan, diretor mais associado ao cinema de horror graças ao seu trabalho em Jogos Mortais e nos excelentes Sobrenatural e Invocação do Mal.
A mudança no comando aparentemente lubrificou ainda mais as engrenagens da franquia. O filme é uma sequência direta do sexto filme, mostrando o irmão do vilão derrotado em 2013 voltando para se vingar de Toretto e cia. Sim, ao melhor estilo Duro de Matar e os irmãos Gruber.
O problema - para os heróis, porque para nós isso é show - é que o irmão vingativo é vivido pelo inglês casca grossa Jason Statham. Basicamente, o cara dá conta de sair na mão com o The Rock. Você já viu o tamanho do The Rock?
Não vou mentir pra você. Claro que Velozes e Furiosos 7 não vai muito além de uma sequência de cenas de ação. Mas cara… Elas são das mais incríveis já mostradas numa tela de cinema, levando o filme para uma série perseguições, tiros e porradaria da mais alta octanagem.
E além disso, o ator Paul Walker - morto em um acidente de carro no ano passado - ainda ganha uma homenagem muito sincera e delicada no fim do filme. Cuidado para não ter que ligar o limpador de para-brisa na sala do cinema!
Tantas qualidades fez com que o filme atingisse uma aprovação de 82% no Rotten Tomatoes, site que reúne a opiniões de críticos de cinema pelo mundo. E as plateias é claro que estão concordando. Mesmo tento estreado há poucos dias, o longa já arrecadou quase US$ 400 milhões no mundo. E deve, muito provavelmente, se tornar o mais rentável da franquia.
Por tudo isso, Velozes e Furiosos 7 colou ao lado de Kingsman como o melhor filme de ação de 2015 até aqui.
Em um ano com Vingadores, Mad Max, Exterminador do Futuro, Missão Impossível, 007 e Star Wars pela frente, acho que podemos esperar que essa posição será disputada nas últimas voltas deste grande prêmio.
Não fale mal de um festival que você não foi
De quatro edições do Lollapalooza, eu fui em três. E, em todas elas, saí com a sensação de ter visto pelo menos um show para entrar na lista de “shows da minha vida”. Foo Fighters na turnê de seu melhor disco em 2012. Arcade Fire catártico e no auge em 2014. E Jack White explodindo tímpanos em 2015.
Todos esses shows só foram tão legais porque eu estava ao lado dos meus melhores amigos, irmão, mulher e cercado de milhares de pessoas felizes, compartilhando um momento real e verdadeiro de alegria e música.
Dá para ficar sentado no seu sofá, tomando cerveja de trigo, vendo esses shows pela televisão e se divertir a valer? Claro que dá. Já fiz isso em festivais e shows que não pude/quis ir. Agora, dá para fazer isso e cagar regra sobre o festival em questão em blogs, redes sociais e afins? Foi mal, mas não dá não.
Criei aqui três esferas de críticas possíveis a serem feitas ao Lollapalooza.
Esfera 1 - Você quis ir, mas não foi porque o ingresso estava caro
Realmente, o preço do ingresso é um absurdo de caro. Somando a ultrajante taxa de conveniência, gastei mais de R$ 400 só para entrar. Só paguei porque esse é provavelmente um dos pouquíssimos shows que irei neste ano. Mas para quem vai a muitos shows, é para ficar indignado mesmo.
Já passou da hora de se discutir as carteirinhas de estudantes, né? O que era uma boa ideia virou um tiro no rabo de todo mundo. E aí fica esse dilema Tostines patético: os produtores cobram muito caro porque todo mundo falsifica a carteirinha ou todo mundo falsifica a carteirinha porque os produtores cobram muito caro?
Esfera 2 - Você foi e passou o dia pagando R$ 10 por um chopp
Uma coisa tem que ser dita: o Lollapalooza oferece um nível de qualidade de produtos vendidos lá dentro anos luz à frente de eventos semelhantes. O Chef Stage, área de restaurantes do festival, é cheio de opções realmente gostosas e bem além do tradicional cachorro-quente. Aliás, até o popular dogão deste ano, vendido por ambulantes no meio da galera, era muito bom!
O que certamente falta são algumas opções mais em conta. Especialmente coisas mais importantes, como água, suco, etc. Uma revisão nos preços faria bem para o festival em geral.
Sobre a cerveja ser cara, acho bom a galera beber menos mesmo.
Esfera 3 - Você foi e não gostou dos shows
Legal. Você tem todo o direito de achar o Alt-J uma banda sem alma. Ou as versões do Robert Plant para as músicas do Led Zeppelin meio esquálidas. Ou ainda dizer que prefere o Jack White mais cru, como era na época do White Stripes.
Você tem o direito porque você foi, viveu a experiência, somou tudo aquilo com suas expectativas, vivências e pensamentos. E chegou a uma conclusão.
Agora, você está vendo alguma esfera chamada “Fiquei no sofá zapeando entre o Luciano Huck e o Multishow e achei esse Lollapalooza uma merda.”? Não, né? Sabe por que? Porque ela não existe.
Se esse é o seu caso, são grandes as chances de você estar velho demais para esse tipo de programa.
Você se cansa. Fica assado. Não sabe se leva protetor solar ou capa de chuva. Fica de ressaca muito cedo. Não gosta mais de aglomeração. Se sente meio mal de ver tantas caras jovens. Fica puto que o moleque do seu lado tá muito ocupado tirando uma selfie enquanto o Robert Plant tá cantando. Suas camisas pretas estão muito justas na sua barriga. Você mija demais e as filas são grandes. Quer ir de transporte público, mas tá com medo de ficar muito espremido no trem. Sua mulher não topou ir. Seus amigos estão com filho pequeno em casa e não foram também. Você nem conhece a maioria das bandas.
Ei! Esse parágrafo acima também sou eu. Mas eu estava lá. Eu venci tudo isso. E eu me diverti pra cacete.
Falando sobre a minha diversão, então.
Vi o começo do Alt-J com meu irmão. Achei meio sem alma mesmo, mas até gostei de uma música ou outra. Fiquei bem surpreso com tanta gente cantando junto. Legal ver a molecada feliz e tudo.
Caminhamos até o palco da St. Vincent, que lançou um dos melhores discos de 2014. Achei o show muito muito bom. Presença de palco meio esquisita, excêntrica, anos 80 pra cacete. As músicas crescem ainda mais ao vivo. E a mulher toca muita guitarra!
Chegando no palco Skol, já éramos cinco para ver Robert Plant fazer um show bem foda. Vi boa parte dele com os olhos marejados. Going to California foi o ponto alto. O Led Zeppelin é uma das bandas da minha vida e sei que não dá pra esperar muito mais que isso hoje em dia.
Durante o show do Robert Plant, já sensibilizado pela cerveja super faturada, eu lembro de deixar minha alma de tiozão confabular sobre o fato de não termos mais gênios do rock assim hoje em dia. Fiquei pensando em como a música dos anos 70 era mais legal que hoje e como faz falta caras como Robert Plant.
Aí Jack White entrou e calou minha boca.
Eu já tinha visto o cara em ação duas vezes, ao lado da Meg com o The White Stripes. Desta vez, ele foi auxiliado por uma banda espetacular, que tinha o próprio Demônio como baterista. Cara, tadinha da Meg…
Fazendo uma seleção bem inspirada dos maiores hits de sua carreira, entre discos solo e bandas que integrou, chamou atenção como Jack White está criando uma trajetória única e impecável na música. Canta demais, toca guitarra demais, tem uma presença de palco hipnotizante, tudo o que o cara encosta merece ser ouvido.
Acho que o mundo devia pagar um pouco menos pau pro Dave Grohl e dar mais atenção pro Jack White. Não que ele não tenha, mas ele merece mais. Ele está lado a lado com os maiores gênios da música, como o já citado Robert Plant. Coisa que Grohl nunca estará.
No fim do show, mesmo com o coro inevitável e cafona da galera (eu incluso) durante o pegajoso riff, Seven Nation Army fechou de forma apoteótica um dia divertido pra cacete.
Garanto que foi bem melhor do que ver do sofá. Mesmo tomando cerveja de trigo.
The Lemmon Song - Led Zeppelin
O que você colocaria hoje no auto falante mundial, que tocaria para todo o planeta ouvir?
Chris Rock olha para si mesmo em Top Five
Junte Birdman, Antes do Amanhecer e um filme de Tyler Perry. O resultado dessa improvável mistura chama-se Top Five, terceiro e melhor filme dirigido por Chris Rock.
Rock vive o ator e comediante Andre Allen. Após atingir fama e sucesso com uma série de filmes policiais na qual interpreta um urso de nome Hammy (?!?!), ele tenta agora ser reconhecido como um ator sério.
Enquanto ele lida com seu casamento com uma estrela de reality shows (um alô para Kardashian e West) que se aproxima, ele passa um dia ao lado de uma repórter do New York Times caminhando pela cidade enquanto é entrevistado para uma reportagem especial.
Mesmo se vendendo como uma comédia - e o filme tem mesmo momentos muito engraçados - Top Five se destaca pelas discussões mais sérias que consegue inserir em seu roteiro. Entre elas, especialmente o preço da fama e a dependência de álcool.
Rock, apesar de não ser um grande ator, está completamente à vontade graças ao tom bastante autobiográfico. E, quando tem a chance de explorar mais sua veia de comediante, garante momentos ótimos. As cenas com a família do seu personagem, por exemplo, são excelentes.
No elenco principal, Rosario Dawnson também conta com sua história pessoal para viver a repórter Chelsea Brown, já que personagem e atriz passaram por problemas com a bebida.
E, para quem gosta de comédia, o desfile de participações especiais é irresistível: Jerry Seinfeld, Cedric the Entertainer, Tracy Morgan, Whoopi Goldberg e Adam (urgh) Sandler, entre outros. Mas a melhor participação é a do rapper DMX, em uma das cenas de epifania mais engraçadas que já vi.
Top Five chegou a ser cotado para algumas das premiações do ano passado, mas acabou injustamente esquecido. De qualquer forma, é um filme que merece muito ser visto.
O fascinante Drácula de 1931
Por mais que você nunca tenha visto o Drácula de 1931, provavelmente é a imagem icônica de Bela Lugosi e sua capa preta que vem a sua cabeça quando escuta o nome do mais famoso vampiro de todos os tempos.
Drácula é um dos mais importantes filmes da fase dos monstros da Universal. O estúdio se fez notável no início do século XX produzindo longas com personagens como o Lobisomem, a Múmia, o Frankenstein e outros menos famosos.
Os primeiros filmes, como O Corconda de Notre Dame e O Fantasma da Ópera, ambos estrelados pelo espetacular Lon Chaney, ainda eram mudos. O primeiro filme de monstro da Universal falado foi Drácula, sob comando do veterano e excêntrico Tod Browning.
Apesar de não manter hoje a capacidade de assustar audiências, Drácula é um filme fascinante. Primeiro por estabelecer boa parte da simbologia que depois seria parte crucial do cinema de horror: castelos decadentes, aranhas, teias, ratos, caixões e capas.
Por mais que alguns desses elementos já estivessem presentes em obras mais antigas no cinema - além de no teatro e na literatura - a assombrosa popularidade do filme sobre o vilanesco conde da Transilvânia consolidou esse clima lúgubre que depois seria tão copiado.
Portanto, quando Lugosi coloca suas mãos em forma de garras e lentamente se aproxima de suas vítimas, com as costas curvadas numa incrível caracterização que remete a um animal, você pode até ter vontade de rir. Mas saiba que isso apavorou todo um planeta na década de 30 de um jeito que nenhum Jigsaw ou Annabelle é capaz.
E isso tudo, diga-se de passagem, sem mostrar os dentes! Isso mesmo. Em nenhum momento do filme Lugosi é mostrado usando os populares dentes de vampiros.
O primeiro filme a retratar um vampiro com suas características presas caninas foi uma versão turca do personagem Drácula, chamada Drácula em Istambul, de 1953. Por mais que o Nosferatu de 1922 já tivesse dentes aparentes, no caso deles eram os dentes da frente, criando um aspecto mais de rato do que de morcego ou lobo.
Agora, eu disse que Drácula é fascinante. Mas não podemos dizer que seja um filme impecável. Longe disso, aliás.
Esse filme é um produto típico de uma época em que os profissionais de cinema estavam reaprendendo seu ofício. Toda a evolução técnica e estrutural do cinema mudo foi meio deixada de lado com o advento do som. As câmeras ficaram maiores, o trabalho dos atores mudou radicalmente e os diretores tiveram que aprender contar suas histórias com diálogos falados no lugar das tradicionais cartelas de texto.
A primeira e mais notável prova da "falta de jeito" da equipe para lidar com um filme sonorizado é o incômodo silêncio que impera ao logo da narrativa. O que, no fim das contas, acabou por contribuir para o clima do filme, nasceu na verdade pela convicção dos produtores de que a audiência pode ficar confusa com uma música tocada por uma orquestra invisível.
¯\_(ツ)_/¯
Assim, por essas e outras, é muito clara a diferença de qualidade técnica, inventividade visual e narrativa entre o já citado Nosferatu, ainda mudo, e este Drácula. Por mais que Lugosi tenha eternizado seu estranho modo de falar - com sotaque carregado e ritmo peculiar - é inagável que o filme patina em seus diálogos.
Em muitos momentos, o roteiro confia demais no texto para demonstrar coisas que poderiam ter mais impacto se vistas. Não custava, por exemplo, mostrar marcas de mordida em algum pescoço. Isso é sempre citado pelos personagens, mas nunca visualizado pela audiência.
Claro que temos que considerar aqui as limitações de efeitos visuais da época. Mas aqui precisamos lembrar da história mais incrível sobre o Drácula de 31 que pouca gente sabe.
Outro efeito colateral da nova realidade dos filmes falados dizia respeito ao idioma. Enquanto os filmes mudos eram facilmente adaptados, com alterações relativamente simples nas cartelas de texto, os filmes falados precisariam passar por um processo muito mais complexo.
Uma solução encontrada na época era aproveitar cenários e estrutura já montados para gravar o filme duas vezes. Uma em inglês e outra, com outro elenco, em alguma língua estrangeira.
Então, para atingir o público hispânico, Drácula foi filmado duas vezes. Uma com o elenco original e outra com um elenco que falava espanhol.
Isso mesmo. Todos os dias, equipe e elenco se revezavam no set. Ou seja, existe uma outra versão desse clássico do cinema, gravada simultaneamente, nos mesmos cenários, só que falada em outra língua!
E quer saber o que é ainda mais surpreendente? A versão em espanhol é melhor!
Claro que não dá para comparar a incrível caracterização de Bela Lugosi com a menos impressionante versão de Carlos Villarias. Ou superar o trabalho assustador e impressionante de Dwight Frye como o atormentado Renfield. Mas, tecnicamente, a versão em espanhol é melhor resolvida e acabada.
Contribuiu para isso o fato de que a equipe hispânica assistia ao que a equipe americana tinha filmado durante o dia, entrando para trabalhar a noite. Assim, eles tinham uma referência para copiar o que tinha dado certo e melhorar o que poderia ser melhorado.
Como resultado, na versão menos famosa temos a chance de ver as marcas da mordida de Drácula no pescoço de uma das suas vítimas.
De qualquer forma, essa primeira versão da história do conde sugador de sangue ainda é a mais clássica de todas. Pode não ter o apuro visual do filme de Coppola de 1992 ou a sofisticação dos filmes com Christopher Lee nos anos 60 e 70. Mas ainda mantém seu charme imbatível.
A sociedade jamaicana é o foco de Queimando Tudo
Há tempos na estante, Queimando Tudo finalmente entrou na minha lista e foi posto para uso. E tão rápido quanto entrou, saiu.
Escrito pelo jornalista Timothy White, o livro em teoria é a biografia de Bob Marley. Em teoria, porque na prática ele é também um estudo detalhado e fascinante de todo o universo que circunda a figura do cantor: a Jamaica e sua política, indústria musical, cultura, sociedade, religiões e muito mais.
Se você procura uma biografia focada em como Marley compôs suas músicas e os bastidores das sessões de gravação, esse não é o seu livro. White se centra mais no impacto de seu biografado na sociedade em que ele estava inserido.
Para você ter uma ideia do nível de detalhamento de Queimando Tudo, o livro começa no século XIX, narrando o nascimento e os fatos que levaram à coroação de Tafari Makonnen, posteriormente Rás Tafari e, finalmente, Haile Selassie, imperador da Etiópia e - segundo as crenças dos rastafaris - Deus encarnado.
As origens do rastafarianismo são completadas pela narração da história de Marcus Garvey, ativista que criou um movimento que pregava a volta dos negros para a África. As teorias de Garvey, após ser digeridas e reinterpretadas por líderes religiosos, acabou por criar a religião que assustava Marley na sua infância, a qual ele se converteu posteriormente e que, por fim, acabaria por determinar sua morte precoce.
A infância de Nesta, como Marley era chamado até meados da sua adolescência, é contada em detalhes. E o leitor tem um retrato incrível sobre a vida na região rural da Jamaica. E já nesse momento White mostra o grande diferencial de seu livro.
Um país de migrantes - alguns por vontade própria, mas a maioria trazida a força como escravos - a Jamaica é um amálgama de religiões e crenças. Por isso, o sobrenatural é inseparável do dia a dia das pessoas.
Assim, se uma fonte - ou o próprio Marley, que foi entrevistado pelo autor várias vezes para o livro - diz que determinada pessoa foi espancada por um espírito, White não adota uma postura de dúvida ou julgamento. O livro é recheado de histórias que envolvem fantasmas, superstições, maldições e afins. Isso é naturalmente adicionado à narrativa, dando a Queimando Tudo ares de realismo fantástico e Gabriel Garcia Marques.
O livro segue a história do maior ícone cultural do chamado terceiro mundo em todos os tempos. E essa história, apesar de breve, é repleta de momentos incríveis e inacreditáveis.
Um homem de personalidade misteriosa - uma imagem que Marley criou conscientemente - Bob chega ao fim do livro e de sua vida mantendo essa mesma aura de mistério. Isso porque Queimando Tudo não se propõe a interpretar o cantor, mas sim causar no leitor as mesmas sensações dúbias que sua presença aparentemente causava.
No fim, temos o retrato de um cara extremamente focado em seus objetivos, que mística e naturalmente ampliou para todo um planeta o fascínio e influência que ele já causava em seu pequeno círculo de amigos e familiares.
Lançado originalmente nos anos 80, o livro ganhou diversas revisões até a morte do autor, em 2002. Essa versão disponível no Brasil, da editora Record, é a mais completa, com muitos apêndices e detalhes sobre o período após a morte de Marley.
White incluiu muitos detalhes dos julgamentos sobre os confusos direitos autorais da obra do cantor. E a imagem de Rita Marley, viúva de Bob, mostrada pelo autor não é das melhores.
Queimando Tudo é um livro para um público muito maior que os fãs de Bob Marley. Misturando história, violência, política, misticismo e música, ele serve como porta de entrada (sem trocadilhos) para a incrível e riquíssima produção musical da Jamaica. Vai fundo!
1994: o maior ano da história do cinema
Desde sempre eu lembro de mim mesmo como uma pessoa que gosta de ver filmes. Mas o primeiro ano que me identifiquei como um "cinéfilo" (urgh palavra cafona) mesmo foi 1994. E realmente não é para menos. Deve ter muitos por aí que foram impactados durante a adolescência por aquele ano inesquecível.
Quando se discute qual teria sido o maior ano da história do cinema, normalmente são citados 1939 (O Mágico de Oz, ... E o Vento Levou), 1976 (Taxi Driver, Rocky),1982 (E.T., Blade Runner) ou 1999 (Matrix, O Clube da Luta).
Mas nenhum desses anos se compara com 1994.
Para começar, vamos analisar a lista dos indicados para o Oscar do ano seguinte, que premiou os filmes de 94: Pulp Fiction, Forrest Gump, Um Sonho de Liberdade, Quiz Show e Quatro Casamentos e um Funeral.
Eu lembro muito de torcer por Pulp Fiction e ficar chateado quando Forrest Gump foi anunciado vencedor. Claro que o filme de Robert Zemeckis é ótimo. Mas não tem como comparar com a influência, frescor e impacto do filme que consagrou Quentin Tarantino.
E o que dizer de Um Sonho de Liberdade? O filme figura em várias listas de melhores de todos os tempos, especialmente quando se leva em consideração a opinião popular. Há anos ele ocupa o primeiro lugar entre os filmes melhores avaliados no IMDB.
E a lista ainda tinha Quiz Show, o melhor filme dirigido por Robert Redford e Quatro Casamentos e um Funeral, o mais fraco da lista mas mesmo assim influente em seu humor britânico e responsável por revelar Hugh Grant como o grande nome das comédias românticas dali em diante.
Mas não é só de Oscars que se fez 1994. O cinema de ação, por exemplo, ganhou dois de seus melhores exemplares em todos os tempos.
Velocidade Máxima tinha Keanu Reeves contra um terrorista em um ônibus dirigido por Sandra Bullock, em um filme exemplarmente equilibrado e cadenciado. E ainda fez muitos brasileiros aprenderem a converter milhas em quilômetros.
Já True Lies foi o último grande filme de Arnold Schwarzenegger. A direção precisa de James Cameron, as cenas de ação, os efeitos especiais, o humor... Tudo isso foi marcante. Mas nada tão memorável quanto a cena do striptease de Jamie Lee Curtis.
Especialmente para um adolescente de 13 anos.
E a lista de bons filmes de ação não para aí não. Tivemos O Corvo, O Profissional, Perigo Real e Imediato, Contagem Regressiva, Maverick e A Fuga, outro campeão da tecla pause graças a Kim Basinger no auge da beleza em cenas bem, digamos, estimulantes.
Em 1994 a gente também teve três dos mais clássicos brucutus de ação em plena atividade e "auge criativo". Wesley Snipes fazia skydiving em Zona Mortal, Steve Seagal contracenou com Michael Caine (???) e defendeu a natureza em Em Terreno Selvagem e JeanClaude Van Damme estrelou Timecop, talvez o filme mais consistente de sua carreira.
Isso que eu não vou forçar a barra e incluir Charles Bronson e seu Desejo de Matar 5 nessa lista, porque esse é ruim demais.
Agora, se a gente tivesse que escolher um nome para representar esse que é o maior ano da história do cinema, não teria como não ser Jim Carrey.
Você sabe quais filmes dele estrearam em 1994? Apenas Debi & Lóide, O Máscara e Ace Ventura!!!
Não é a toa que a carreira do cara daí em diante foi um eterno declínio. Como superar um ano como esses? Um combo que transformou Carrey em ídolo mundial da noite para o dia. Debi & Lóide é disparado o mais engraçado entre esses 3 filmes. Mas lembro de ver O Máscara no cinema e achar que o cara da minha frente estava tendo um derrame de tanto que ele ria alto e bizarramente.
E já que estamos no território da comédia, não podemos nos esquecer de que em 1994 ainda vimos Woody Allen em grande forma com Tiros na Broadway, Kevin Smith sendo revelado apenas para nos decepcionar mais tarde com O Balconista, Tim Burton fazendo um de seus melhores filmes com Ed Wood, o cinema australiano criando um fenômeno cultural e colocando saias no Agente Smith com Priscilla, a Rainha do Deserto, John Waters estreando seu filme mais palatável com Mamãe É de Morte, Leslie Nielsen interpretando Frank Drebin pela última vez em Corra que a Polícia Vem Aí 33 1/3 e os irmãos Cohen lançando com Na Roda da Fortuna.
Outro grande nome de 1994 foi Brad Pitt. Esse foi mais um ano em que o ator mostrou talento para equilibrar projetos que alimentam sua figura de galã e outros que mostram maior pretensão artística.
O primeiro caso foi Lendas das Paixão, novelão insuportável, mas que fez muito dinheiro. E o segundo foi Entrevista com o Vampiro, ousado terror estrelado ao lado de Tom Cruise e Antonio Bandeiras.
Aliás, vamos falar de terror e suspense? Para começar, Wes Craven fez um ensaio para a metalinguística série Pânico. O resultado foi O Novo Pesadelo, em que Freddy Krueger surge para assombrar o elenco e equipe que produziram a série A Hora do Pesadelo.
Também vale destacar o subestimado e lindo Frankenstein de Mary Shelley e a estréia cinematográfica de Danny Boyle com o ótimo Cova Rasa. Sem falar de Almas Gêmeas, filmaço que credenciou Peter Jackson para Hollywood.
Esse ano foi também o último da Disney antes da era Pixar. E, se no ano seguinte todo mundo iria se apaixonar por Toy Story, em 1994 o estúdio lançou um de seus maiores clássicos: O Rei Leão.
Já espectro cinematográfico oposto, Oliver Stone ainda estava no auge com Assassinos por Natureza, filme que teve seu argumento escrito pelo então enfant terriblé Tarantino.
O ano também teve ótimos filmes vindos de outros países. O polonês Krzysztof Kieslowski finalizou sua Trilogia das Cores com A Fraternidade É Vermelha e A Igualdade É Branca.
Ang Lee se lançou para o mercado internacional com o celebrado Comer Beber Viver e o francês A Rainha Margot levou o prêmio do juri no Festival de Cannes.
No Brasil, a chamada "retomada do cinema brasileiro" ainda era uma promessa. O filme de maior destaque foi o bom Lamarca, de Sérgio Rezende, sobre o líder revolucionário e opositor ao regime militar Carlos Lamarca, na pele de Paulo Betti.
Quer mais motivos para declarar 1994 o ano mais fodão da história do cinema? Então pensa que esse ano conseguiu o título mesmo tendo sido o mesmo ano em que foram lançados os seguintes filmes:
Riquinho, Street Fighter, Um Tira da Pesada 3, O Especialista, Pagemaster, Júnior Meu Primeiro Amor Parte 2, A Cor da Noite, O Sombra, Karatê Kid 4, Double Dragon, Loucademia de Polícia 7, Don Juan de Marco e Anjo da Guarda.
Até essa lista de filmes toscos me faz ter saudades de 1994...
Live in London - Leonard Cohen
E finalmente chegamos ao último disco da lista. Ele é o mais recente, mas é também obra do mais veterano entre os artistas citados. Provavelmente. Não vou fazer as contas, mas os 80 anos de Leonard Cohen certamente o credenciam para essa posição.
Eu já tinha ouvido falar do cantor, poeta, escritor e monge canadense, mas nunca tinha parado para ouvir. Um retrato de como ele é pouco falado por aqui. Uma pena.
Minha curiosidade para ouvi-lo surgiu em 2011, após um post no finado blog do André Barcinski na Folha. Ele falava deste disco ao vivo, gravado em Londres em 2009, que registra o triunfal retorno do canadense após rumores de aposentadoria e um golpe financeiro que quase o levou à falência.
Então com 75 anos, Cohen mostrou que estava longe de se aposentar. Na turnê que gerou o disco, ele fazia shows de três horas de duração, em verdadeiras celebrações quase religiosas para os fãs. Essas longas apresentações, aliás, viraram padrão a partir dali.
Lembre-se que estamos falando de um cara que nasceu em 1934.
Esse foi o disco que me converteu. Sei que é sacanagem escolher um disco ao vivo para esse tipo de lista, mas os motivos são justos. Eu não conseguiria escolher um álbum predileto na discografia de Cohen. E foi a partir daqui que eu mergulhei na obra dele.
De qualquer forma, aqui ele entrega performances matadoras para clássicos como Dance Me to the End of Love, Ain't No Cure for Love, Hey, That's No Way to Say Goodbye, The Gypsy's Wife, Take This Waltz e First We Take Manhattan.
Talvez você não conheça Leonard Cohen, mas certamente conhece seu maior hit. Hallelujah foi regravada centenas de vezes, com destaque para a versão icônica de Jeff Buckley. Essa música, tantas vezes desvirtuada em reality shows musicais mundo afora, virando um hilário hino religioso por interpretes ignorantes, representa muito bem a personalidade de Cohen.
Um homem sem letras fáceis ou simplórias, ainda assim capaz de compor músicas que permanecem no imaginário popular por décadas. Trafegando entre o santo e o profano. Sedutor e cruel. Triste, mas irônico. Romântico e revolucionário. Um gênio que hoje faz parte da minha vida.
E da minha mulher. Eu e a Fernanda temos tatuados, em versões estilizadas, o símbolo que Cohen escolheu para ilustrar a capa de seu livro Book of Mercy. Dois corações entrelaçados, que simbolizam nossa união e nossa paixão pela música desse cara.
E é claro que no nosso casamento a Fernanda entrou ao som de Dance Me to the End of Love. Um amor para não terminar nunca só poderia ser celebrado por um artista que também se recusa a terminar.
:: Veja quais são os outros 10 discos da minha vida ::
Survival - Bob Marley & The Wailers
Eu ouvia bastante Bob Marley quando era adolescente, mas com o tempo parei de ouvir. Não sei porque, mas me afastei quase completamente do reggae.
Isso durou mais ou menos até 2007/2008 quanto, por influência direta dos camaradas Morettas e Zé Queiroz, conheci o blog You & Me on a Jamboree.
Ser apresentado à música jamaicana muda vidas. É triste que a música daquele país seja reduzida apenas a Bob Marley e "música de maconheiro" por quem ainda não se aprofundou um pouco mais.
A quantidade de artistas e discos surgidos na ilha, ao longo dos anos 60 e 70 especialmente, é assombrosa. E foi brigando contra sites de download que comecei a ouvir caras como The Paragons, Alton Ellis, The Abyssinians, Desmond Dekker, Jimmy Cliff, Prince Buster, Toots and the Maytals, Jacob Miller, Bunny Wailer, Burning Spear, The Heptones, Marcia Griphits, The Skatalites… Sem brincadeira, daria para encher 10 páginas com nomes de músicos jamaicanos que todo mundo deveria conhecer.
Descobrir esses artistas mudou a minha percepção sobre a música jamaicana e me reconciliou com o mais óbvio de todos eles: Bob Marley.
E entre tantos discos altamente influentes e maravilhosos do cara, nenhum bate tão forte em mim até hoje como “Survival”.
Após o relaxado e maconheiro “Kaya”, de 1978, Marley resolveu mostrar sua faceta política com mais força. E o resultado é uma sequência de manifestos que ecoam a preocupação do músico com a situação vivida pela população pobre em países subdesenvolvidos.
Esse disco costuma ser apontado como parte de uma quadrilogia, ao lado de “Exodus”, “Uprising” e “Confrontation”. Títulos bem sugestivos, que indicam um caminho de salvação para os povos oprimidos.
Por mais que a consciência política de Marley seja hoje contestada, especialmente por conta de sua confusa relação com políticos jamaicanos, é inegável a força de hinos presentes em “Survival”, como “Zimbabwe”, “So Much Troble in the World”, “Top Rankin’” ou “Africa Unite”.
Em 1979, o cantor já sofria com o câncer que o mataria apenas dois anos depois. Além disso, já produzia um som mais palatável, com influência roqueira, especialmente em comparação com seu trabalho pré-Island, como “Soul Rebels” e “The Best of The Wailers”. Isso para dizer que, apesar de gravado quando Marley já era um ícone reconhecido mundialmente, “Survival” não costuma constar em listas de seus discos mais celebrados pela crítica.
Porém, ele é o trabalho de um homem com uma missão. Ele canta com o objetivo de transformar o mundo. E isso é muito poderoso.
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Kingsman traz diversão de volta para o cinema de espionagem
Antes de entrar na sala de cinema para assistir a “Kingsman - Serviço Secreto”, eu conversava com meu irmão sobre uma lembrança que eu tinha de ir ao cinema em 1994, no Shopping Ibirapuera.
Sim, o Ibirapuera tinha cinema essa época.
Fomos assistir “Debi & Lóide” e eu lembrei que, além desse filme estupendo, ainda estava em cartaz “Velocidade Máxima” e “True Lies”! Cara… que ano que foi 1994 para o cinema. Aguarde um post em breve sobre isso,
O fato é que, pouco antes de me sentar para ver Kingsman, lembrei de “True Lies”, dirigido por James Cameron, com Arnold Schwarzenegger e Jamie Lee Curtis. E esse dois filmes tem muito em comum.
Ambos são homenagens ao gênero de espionagem, equilibram comédia e ação, tem um personagem entrando em contato com um mundo de agentes secretos e são absolutamente incríveis!
“Kingsman” adapta para o cinema uma história em quadrinhos escrita por Mark Millar e Matthew Vaughn e desenhada por Dave Gibbons. O próprio Vaughn é o diretor, repetindo a parceria com Millar que gerou o excelente “Kick-Ass”.
Se o filme de Cameron, em 1994, utilizava elementos da literatura pulp, mostrando uma ótica mais romântica e feminina da espionagem graças ao papel de Curtis, o filme de Vaughn traz de volta um tempo em que filmes de agentes secretos eram exagerados, divertidos, levemente malucos e insanos. Bem ao estilo James Bond de Roger Moore, com vilões magalomaníacos cercados de capangas em um esconderijo nas montanhas.
Fazia tempo que eu não me divertia tanto numa sala de cinema. Talvez por ser muito fã dos filmes de Bond? Talvez.
Um dos grande méritos de “Kingsman” é saber exatamente onde quer chegar. E, para isso, carrega o espectador junto graças ao seu senso de humor irônico e brilhante.
E o diretor Vaughn mais uma vez não decepciona nos momentos de ação. Algumas das cenas de lutas são das mais criativas produzidas por Hollywood nos últimos anos. A cena da Igreja, por exemplo, certamente já entrou para a história do cinema.
Colin Firth, no papel mais improvável da sua carreira, mostra que a fleuma britânica pode ser badass pra cacete também. E Samuel L. Jackson cria um vilão à altura dos grandes psicopatas enfrentados por James Bond.
Usando signos típicos dos filmes de 007, chegando até a usar um efeito sonoro característico em certo momento, “Kingsman” mostra que não tem limites no seu objetivo de subverter o padrão do cinema de espionagem dos anos 70, sem para isso se transformar em um modelo mais contemporâneo. E, em um filme tão consciente de sua natureza "filmíca", é claro que os personagens vão fazer piada com o padrão sisudo dos filmes estrelados por Jason Bourne e pela nova versão de Bond.
Como um final apoteótico e sem limites, “Kingsman” vai fazer você sair do cinema com saudades de um tempo em que o cinema de ação era mais descompromissado e maluco. E vai te dar vontade de rever “True Lies”.
Transa - Caetano Veloso
Uma vez eu estava em Buenos Aires com uns amigos. Conhecemos uma galera no albergue em que estávamos hospedados, inclusive um grupo de ingleses que fiquei bem próximo. Na hora de ir embora, eu quis dar algum presente para eles.
Fui para uma loja de discos direto para a sessão de música brasileira. E encontrei o "Transa". Meu disco predileto do Caetano, um dos meus discos favoritos em todo o mundo, presença constantes em listas de melhores discos do Brasil e boa parte dele cantado em inglês. Achei um presente bem adequado para um grupo de gringos.
Lançado após um dos discos mais tristes de todos os tempos, o "Caetano Veloso" de 71, "Transa" chegou às lojas junto com a volta do cantor ao Brasil, após os anos de exílio, em 72.
O nome foi uma ironia com um pedido dos militares, que queriam que ele gravasse um música em homenagem à malfadada rodovia Transamazônica, um dos símbolos do governo golpista. Ele se recusou, mas ficou com o "transa" na cabeça.
"Transa" é um produto coerente do momento em que Caetano vivia. Longe do Brasil, ele entrou em contato com o ambiente musical de Londres. E o rock e a psicodelia, já presente de maneira mais tímida no trabalho anterior dele, permeou esse disco com mais força.
E tome referências a Beatles, como em "It's A Long Way" e até ao reggae, em "Nine Out of Ten", minha predileta do disco ao lado de "Mora na Filosofia", versão de um samba de Arnaldo Passos e Monsueto Menezes.
A saudade do Brasil se faz presente também em temas mais "regionais", como a linda "Triste Bahia". E também na já citada, e tropicalista, "It's A Long Way".
Sem nenhum dos hits mais óbvios e pop, que marcariam a carreira de Caetano a partir do meio dos anos 70, "Transa" caiu nas graças de uma geração que enxergou ali uma faceta menos desgastada do medalhão da MPB. Eu sou um desses.
"Transa" mudou a minha percepção sobre Caetano e me fez descobrir outros discos dele que agora não saem do meu celular, como "Qualquer Coisa", "Jóia" e "Araçá Azul".
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Para quem as suas panelas trabalham?
Tempos confusos esses em que vivemos. Conversando com alguns amigos sóbrios nesta segunda-feira, após o tão falado panelaço de domingo que conseguiu ser ainda mais incômodo que o Faustão, a sensação é de consternação e dúvida.
Para começar, qual foi o motivo da tal manifestação, que ganhará mais visibilidade ainda no próximo domingo, quando parece que as varandas serão trocadas pelas ruas?
Contra o que as pessoas protestam?
Estão insatisfeitas com a corrupção? Mas então por que clamam pelo nome de Aécio Neves, aquele que não sabe perder? Não está também o senador tucano coberto de denúncias, tendo sido inclusive citado e estranhamente poupado de investigação na lista do Janot?
Aliás, seu camarada e aliado Antônio Anastasia (PSDB) é outro que figura na lista. E esse, ao que tudo indica, será sim investigado.
Veja bem. Não estou dizendo que Anastasia é culpado. Lista de investigados não é a mesma coisa que condenação, como parecem crer os paneleiros, mas só quando o listado não é do PSDB.
Será então que os revoltados protestam contra os rumos da administração do País? Mas Dilma está seguindo quase à risca as propostas do príncipe mineiro Neves! Não eram as propostas de Aécio que essas pessoas apoiavam? Porque então agora elas não servem mais?
Quem deveria estar sim revoltado é a esquerda que apoiou Dilma nas eleições. Esses sim foram usados pela presidenta, que acenou para eles (nós) especialmente no segundo turno da campanha e depois, após eleita, nos deu Kátia Abreu, as costas e muito mais.
A balada dos ingênuos, ao som de panelas e buzinas na noite deste domingo, mostrou que essa pequena mas barulhenta turma não prima pela educação. Muito menos pela capacidade de enxergar um palmo além de suas tão frágeis ideologias tortas.
As panelas deveriam gritar sim. Mas pela reforma política. Pela mudança nas regras de financiamento de campanhas. Pela taxação das grandes fortunas. Por um Estado verdadeiramente laico. Por direitos irrestritamente iguais para todas as pessoas. Pela moralização verdadeira da classe política.
Mas as panelas gritam para engrossar coros aos quais eu nunca juntaria a minha voz. A extrema direita. Os conservadores. Os fascistas. Os homofóbicos. Os fundamentalistas. Os que se incomodam com as inegáveis conquistas sociais dos últimos anos.
E, principalmente, as panelas engrossam o coro da oposição mais vergonhosa que nossa curta democracia já apresentou. Um grupo político sistematicamente acobertado em seus desmandos e péssima gestão pública. Um partido que inexplicavelmente conta com a conivência dos votos e da mídia, enquanto atrasa em décadas obras vitais para o país, é acusado de conchavos bilionários em obras públicas e criou uma crise hídrica que não só leva esgoto para os encanamentos da população mas também ajuda a aprofundar a crise econômica.
Eu não estou aqui atacando um grupo em favor de outro. Não existe também a menor chance de eu estar na manifestação em apoio ao governo ou à Petrobras, no dia 13. O governo Dilma mentiu para mim. Deu guarida à bandidos. E eu não vou perdoar assim fácil não.
Agora, daí a pedir um impeachment tem léguas de distância. E, mesmo que eu fosse um dos paneleiros, de nada adiantaria gastar a minha colher de pau e riscar o meu teflon. Não existe a menor chance de tal coisa acontecer. Até porque, amigos, isso teria um custo terrível para a saúde da nossa democracia.
E SERIA UM GOLPE DE ESTADO, ALIÁS.
A amplitude da lista de Janot, recheada por deputados sem votos trazidos por Bolsonaro, é mais uma prova cabal de que os problemas da nossa administração pública são profundos.
Estão ali representantes da situação e da oposição. Todos eles de mãos dadas no tipo de procedimento que é praxe e regra no Brasil: a relação prostituída e corrupta entre Estado e setor privado.
Converse com profissionais de qualquer área de atuação. Pergunte. Investigue. A corrupção está em todos os lados. E SEMPRE foi assim. Não importa o partido. Não importa se País, estado ou cidade. SEMPRE. FOI. ASSIM.
Portanto, paneleiros, petralhas, reaças e afins deveriam dar as mãos e pressionar pelas mudanças que precisam acontecer. O governo já não acenou com a reforma política? Gilmar Mendes tirou o corpo fora e jogou a responsabilidade para o Congresso. Com a configuração vexatória da Casa hoje, só um milagre para a reforma acontecer. Mas que panelemos em favor disso então.
Se você quiser protestar, você deveria saber exatamente o discurso que está comprando. Temos milhões de motivos para reclamar e bater panelas. Mas avalie com cuidado para quem você está colocando suas panelas para trabalhar.
E se, mesmo assim, ainda achar que dia 15 você vai para rua, engrossar o coro dos hipócritas, espero que você se divirta. Eu vou fazer de tudo para estar o mais longe possível de São Paulo, da sua turma bizarra e de você.
Rubber Soul - The Beatles
Como respeitar alguém que não gosta dos Beatles? É por isso que eu não respeito a mim mesmo lá pelos idos de 2007.
Não que eu não gostasse dos Beatles. Eu simplesmente não ligava muito. Sabia que era a mais importante de todos os tempos, que tinha a fase ié ié ié e depois a fase psicodélica e etc. Eu vivia dizendo que gostava mais dos Stones, que os Beatles eram muito inocentes e outras bostas.
Acontece que o Beatles é uma banda que você conhece todos os discos e todas as músicas mesmo que você não seja fã. Então eu nunca julguei necessário me aprofundar muito na discografia dos caras.
Até que por algum motivo eu comprei o "Rubber Soul".
Eu sempre tive como certo que o "Revolver" era o disco da mudança, o disco pós-maconha, pós-LSD. Aí eu descobri que não. O disco da mudança é "Rubber Soul"! O disco que mudou também toda a minha percepção sobre a banda.
Começa pelo fato que o disco não tem nenhum hit "super massificado". É o único disco deles que não tem pelo menos uma música que qualquer ser andante sobre a Terra conheça. Mesmo que "Drive My Car" e "In My Life" sejam conhecidas, não chegam perto de músicas como "Eleanor Rigby" ou "Help".
Por isso, a primeira vez que ouvi "Rubber Soul" foi realmente muito especial. Eu simplesmente não conhecia a maior parte do disco! (Sacrilégio!!!)
É assustador você pensar que esse disco foi gravado apenas DOIS ANOS após a estreia da banda. A evolução dos Beatles nesse período, e por consequência da música como um todo, é radical demais.
O disco conquista tanto pela criatividade quando pela sofisticação. Seja na sincera "Nowhere Man" ou na lindeza que é "In My Life". A "música do Ringo da vez", "What Goes On", é divertidíssima. Mas a minha preferida ainda é "You Won't See Me", grande momento de McCartney.
Esse foi o disco que me tornou mais um beatlemaníaco. E fez com que eu fosse atrás do "Anthology" e da monumental biografia escrita por Bob Spitz, duas obras que ajudam a trazer os beatles para o chão e fazer com que você os entenda como seres humanos e não como divindades.
Seres humanos que, num espaço de pouco mais de 10 anos, revolucionaram a música, a cultura popular, o comportamento, a mídia, a indústria de discos, o marketing… Mas ainda assim seres humanos.
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A Dança da Solidão - Paulinho da Viola
Meu pai sempre gostou de samba. Lembro muito de ouvir o LP "De Pé no Chão", da Beth Carvalho, quando era criança. Aliás, esse disco existe até hoje na casa do meus pais no interior.
Mas a primeira vez que me lembro de, conscientemente, colocar um disco de samba para ouvir foi o "Bebadosamba", do Paulinho da Viola. Foi a primeira vez que eu me percebi gostando de um ritmo que não tivesse guitarras.
Como um bom estudante de humanas, na faculdade comecei a conhecer mais de música brasileira. Mas devo minha introdução ao samba de raiz ao meu primo Murilo.
Teve uma duradoura época da minha vida que praticamente ouvi só samba. Nelson Sargento, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Almir Guineto, Dona Ivone Lara, Luiz Carlos da Vila, Cartola, Clara Nunes, Beth Carvalho… A lista é longa. Mas, mesmo conhecendo tantos e tão esquecidos gênios da música brasileira, sempre voltei ao Paulinho.
Apesar da importância do "Bebadosamba" na minha vida, não tem como não colocar "Dança da Solidão" na lista. Esse é, provavelmente, o disco de samba mais triste de todos os tempos. Paulinho canta a perda de um amor em faixas compostas por ele e por gente como Wilson Batista, Nelson Cavaquinho, Cartola, Monarco e Nelson Sargento.
Fora algumas poucas exceções, como "No Pagode do Vavá", "Falso Moralista" e "Passado de Glória", este é um álbum sofrido. E eu me apaguei a ele em um momento difícil.
E entre tantos clássicos do coração partido, como "Duas Horas da Manhã", "Dança da Solidão" e "Coração Imprudente", a bem menos conhecida "Orgulho" se destaca.
"O tempo é um pássaro de natureza vaga", canta Paulinho em um arranjo lindo de morrer. E eu pateticamente ouvia em loop com lágrimas nos olhos.
Felizmente o tempo, com sua natureza vaga, passou. E deixou para trás um disco imperdível.
Quando a MTV gravou o belíssimo acústico com Paulinho, eu fui escalado para entrevistá-lo. Falamos sobre a gravação que seria dali a poucas horas, sobre o carnaval, sobre a Portela, sobre o samba… Infelizmente a entrevista se perdeu, mas não a sensação de conversar com um dos maiores sambistas da história.
Depois, descolei um convite pro Murilo ver a gravação do Acústico. E assim pude retribuir o incentivo que me levou a conhecer "A Dança da Solidão".
Ouve lá e depois pensa em como você vai me retribuir.
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Dreamland - Bunny Wailer
O que você colocaria hoje no auto falante mundial, que tocaria para todo o planeta ouvir?
The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars - David Bowie
O ano era 2005. Ou 2006. Por ali. Eu trabalhava no iG. Depois de passar pelo Último Segundo, integrei a equipe que trabalhava no estúdio do portal. Foi uma época realmente legal, onde fiz grande amigos.
Eu sentava numa bancada, entre o Marquinhos, o Riba e o Guto. Aí eles comentaram alguma coisa sobre o David Bowie. E eu disse que não gostava do David Bowie.
Soltei a bomba entre três dos maiores fãs do Bowie que conheço. Por pouco não apanhei. Mas, no lugar de um tapa na orelha, surpreendentemente o Riba apareceu com três CDs gravados. Me entregou o primeiro: "Bowie Novatos". Os outros dois, "Bowie Iniciados" e "Bowie Viciados", só seriam entregues conforme eu fosse evoluindo em minha educação bowieana.
E foi assim que eu me converti a mais um fã do cara. Pensei em colocar "Bowie Iniciados" (o meu predileto dos três) na minha lista, mas achei que isso seria roubar no jogo.
Por isso, vou com o primeiro disco de verdade do Bowie que eu me apaixonei. Esse é outro caso de escolha que não reflete necessariamente minha opinião sobre qual seria o melhor disco do artista em questão. No caso do Bowie, aliás, esse é um ponto que não consigo me decidir.
Mas "Ziggy Stardust" é a melhor porta de entrada para a carreira de um dos maiores artistas de todos os tempos. É o mais palatável e mais fácil entre os discos dele. O que eu não sabia, na época, era que ele era assim de propósito. Bowie quis fazer um quase pastiche do rock dos anos 70. E, para isso, fez um dos maiores discos de rock dos anos 70.
Pela primeira vez, ele dividia os holofotes com um guitarrista. Mick Ronson, absurdamente talentoso, servia também para reproduzir no palco a dinâmica entre guitarrista/vocal que fez a fama de tantas bandas naquela década, como Stones e Zeppelin.
A lista de músicas não é menos que impressionante. "Five Years" é talvez minha predileta do Bowie. "Soul Love" foi a música que tocou na hora de cumprimentar os padrinhos no meu casamento. "Starman" sobreviveu até à versão do Nenhum de Nós! "Lady Stardust" é a melhor música do Elton John que não é do Elton John. "Suffrage City" adiantou o punk em alguns anos.
E eu nem falei da música que dá título ao álbum…
Pouco depois desse disco, Bowie cansou de brincar de roqueiro e partiu pra outras paradas. E é isso que torna sua obra tão incrível de ser conhecida. Uma inquietude que o distanciou de tantos ícones do rock dos anos 70, que ele atropelou com este disco de 1972.
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