O franco-italiano não poderia estar mais correto quando afirmou que Briana já tinha algo em mente. Tudo tinha começado quando a princesa italiana tinha parado para pensar sobre funções de ondas quânticas enquanto dava banho em Cassie na noite anterior. Um assunto bem controverso para se divagar enquanto brincava com um patinho de plástico junto da bebêzinha, era verdade, mas que fazia todo o sentido do mundo para a Brunelleschi. ❛ —— Eu estava dando banho na Cassie ontem e comecei a pensar em ondas quânticas. ❜ Disse como uma espécie de introdução do assunto, apoiando ambas as mãos sobre a bancada de mármore à sua frente para que pudesse se levantar;; uma tarefa bem mais lenta que o usual, dada a barriga que não parava de crescer. Precisava que Cedric compreendesse exatamente até onde queria chegar para que pudessem estabelecer uma linha de raciocínio em conjunto. E é claro que seria deveras mais simples se pudesse fazer um desenho no quatro branco para que ele pudesse acompanhá-la, no entanto, devido a deficiência do homem, seria necessária uma improvisação da sua parte. Com algumas passadas a mais, Briana finalmente chegou até onde ele se encontrava e puxou um banquinho para se sentar ao lado dele. Sucessivamente, sob o soprar de um pedido de licença, a herdeira tomou a destra do amigo como sua, estendendo a palma da mão alheia para que pudesse tracejar com o dedo indicador e o dedo médio duas linhas paralelas na região. ❛ —— Nós já sabemos que qualquer matéria agregada no Cosmos tem duas ondas: quântica e gravitacional. Va bene? E a gente sabe que o produto delas é igual o comprimento de Planck ao quadrado, mas, supostamente, essa igualdade só foi possível durante um período mínimo do Big Bang.❜ E aquela altura seu dedos tamborilaram sobre a epiderme alheia enquanto um sorriso tomava conta de seus lábios. ❛ —— A única vez em que a mecânica quântica e a relatividade geral coexistiram, segundos os antigos. ❜ Finalizou ao unir ambos os dedos no centro da palma da mão dele, elevando o olhar para o seu rosto, mesmo que soubesse que ele não era capaz de enxergá-la. ❛ —— Mas por quê? O aconteceu durante a explosão de energia que alterou o comprimento de Planck? Eu não consigo parar de pensar nisso desde ontem, Cedric! Será que existe algum cálculo que possa explicar isso? Ou algum outro cálculo que possa desmentir essa teoria? É uma explicação tão rasa para esse evento e não tem ninguém indo atrás de respostas. ❜
Que a mente da italiana não funcionava da forma convencional — e isso não era uma ofensa, muito pelo contrário — o italiano o sabia, contudo, quando ela comentara que começara a pensar em ondas quânticas enquanto cuidava da higiene de sua filha, uma parte grande de Cedric, ficara tencionada a questionar a outra acerca daquele pensamento. No entanto, permanecera em silêncio, esperando que por si só a italiana explicasse para ele o que sua mente tanto desejava saber que a fazia divagar enquanto cuidava de Cassie. Bene, ele não negaria que era uma das características que tanto apreciava na outra. De certo, ele sabia que a italiana estava se aproximando; o barulho da cadeira sendo arrastada e, em seguida, os passos, fizeram com que ele chegasse àquela conclusão. Contudo, apenas quando ouvira, novamente, outra cadeira sendo arrastada, aproximando-se de dele, o homem tivera noção do que ela fazia, endireitando sua postura quando percebera que os joelhos da italiana estavam próximos dos seus, observando que os primeiros sinais em si da aproximação da outra foram dados: os pelos de sua nuca se ouriçaram. Ora, ele estava atento a tudo que ela dizia, curioso para saber o que a princesa desejava saber que ia além do enfraquecimento do gene azul — o qual ela se dedicara por muitos anos. No entanto, toda a sua concentração se dissipara no momento em que a outra tomara suas mãos nas suas, riscando-as enquanto tentava fazer com que ele visualizasse seu raciocínio. O franco-italiano sentia seu coração cada vez mais acelerado, como não o sentia em muito tempo; da última vez que experimentara tamanha sensação fora quando procurara a própria Briana para lhe confidenciar algo que lutara consigo mesmo em afirmar. Mas, para seu imenso azar, no mesmo dia a italiana chegara a si lhe confidenciando seu amor por outro alguém. E por isso mesmo ficara, afinal, ele jamais poderia ser capaz de se opor a Xenofánes como uma possibilidade para Brunelleschi. Naquele momento, como da outra vez, ele estava se esforçando para ater-se aos dizeres da outra; contudo, sua mente estava tão distante que agradecia o fato de não possuir um olhar fixo, pois não veriam que já não mais sua mente estava ali, mas a alguns quilômetros de distância — embora no mesmo espaço. Sua mente, imaginária, questionava-se como poderia parecer àquela cena; como Briana parecia quando falava tão apaixonadamente de física? Quando começava a discursar sobre todos os mistérios do Universo? Como ela era? Cômico se apaixonar por uma pessoa que jamais tivera a chance de ver, de fato. “Briana, não é como se eu não estivesse escutando cada palavra do que você estava dizendo...” Assim que ela concluíra, Ugo endireitou-se, aproximando o próprio tronco da italiana. Fora a sua vez de tomar as mãos da outra nas suas. “Mas eu estava pensando que eu nunca te vi.” Confidenciou a ela, inspirando vagarosamente. “Não é o tipo de coisa que eu posso pedir e receber um ‘sim’.” Em museus Cedric ouvira diversos nãos, pois as peças não poderiam ser alvos de toques e ele apenas conseguia enxergar dessa forma. “Mas eu queria saber se eu posso ver você?” Estava tão inseguro que os dizeres saíram, sim em forma de questionamento, enquanto os lábios se apertavam ante a possibilidade. Por si só, estava contente; ainda tinha a mão da italiana nas suas, sentindo a textura de suas mãos alheias e percebendo que estas eram, de fato, tão macias quanto ele próprio havia considerado outrora.
If we make room for ѕσмєσиє иєω
Doesn't mean that there's less for you
Only m e a n s that our circle has grown
𝓛𝓸𝓿𝓮 knows, love grows, bigger than before
In your [ heart ], there's always MORE
It's m a g i c, the more you give it away
The more love, 𝕔𝕠𝕞𝕖𝕤 𝕓𝕒𝕔𝕜 to you, everyday
You are my Cedric and I am your Briana
Always forever 𝓌𝒽𝑒𝓇𝑒𝓋𝑒𝓇 𝓌𝑒 𝑔𝑜
❛ —— @bludric, eu estive pensando e acho que sinto falta da física na minha vida. ❜ A princesa italiana confidenciou enquanto observava de maneira contemplativa todo o copilado de informações sobre sua pesquisa que tinha feito há algum tempo em seu quadro para estudar. Tinha consciência de que tudo que vinha trabalhando era muito útil no atual período em que viviam na humanidade, no entanto, parando para ver tudo daquela maneira, não sentia que aquilo enchia verdadeiramente seus olhos. Sentia muita falta de colocar a prova todas as mil e umas teorias que costumava mirabolar enquanto estava presa em seu mundinho. E, princialmente, sentia muita falta de seus queridos astros! ❛ —— Acredito que o senhor Âtomo estaria bem decepcionado se soubesse que eu não estou trabalhando nada para descobrir os mistérios do nosso mundo. ❜ Complementou com um longo suspiro, apoiando o cotovelo sobre a bancada a sua frente e encostando o queixo na palma de sua mão. Como cumpriria sua promessa de entrar no hall de grandes figuras de física quântica se continuasse tão focada em biologia celular, afinal?
O laboratório de Hyacinthum, ou de Briana, como ficara conhecido, era sempre um ambiente agradável e que lhe trazia certa calmaria. Soma-se isso à presença da princesa e estava em um local onde sabia que não iria ter sua estima ainda mais prejudicada. Após a conversa com Verena, ele precisava de seu porto seguro. “Hmm...” Quando a italiana começara, ele nada dissera, mantendo sua atenção no que lia. Quando os dizeres foram compreendidos de fato, erguera a cabeça para se limitar ao proferir alheio, um tanto confuso por não ter compreendido por completo o raciocínio inicial. Pelo que conhecia da italiana, ela possuía uma ideia já pré-estabelecida, ou não estaria confidenciando ao conde seus pensamentos e suas intenções. “Eu diria que você está fazendo algo para desvendar os mistérios do nosso mundo. Não nos astros, mas na humanidade.” Murmurou ele ao lembrá-la de sua pesquisa em andamento, que por sua vez fora bem recebida por vários; claramente, havia alguns leigos que não compreenderam totalmente — explicar que os azuis não perderiam os poderes fora uma tarefa difícil, para dizer o mínimo — mas ele cria no Nobel que ela tanto desejava. “Mas, diga-me, qual a sua ideia? Você não diria nada se não estivesse pensando em algo especificamente.” Comentou ao fechar o próprio livro. Era aquele momento em que não falariam muito da ciência — apenas colocando algumas referências cientificas nos dizeres, mas sem falar da teoria em si — e conversariam sobre seus sentimentos e anseios. Bem, ele sempre estava lá para ouvir Briana.
Nena soltou uma risadinha ante a reação do francês, fazendo questão de levar os dígitos aos lábios para apartar uma risada maior ainda. Oh, ela sabia como Cedriquito era sensível com aquele tipo de questão, e não podia se dar ao luxo de estar no lado ruim do moreno — o lado que não estava queimado, é claro. “Ora, não seja ruim!” Franziu o cenho, puxando o braço dele insistentemente antes de se dar por vencida e deixar escapar um pequeno bufar, ajeitando a mecha do cabelo atrás da orelha. “Eu tenho meus contatos, vero? Nada acontece em Hyacinthum sem que eu, mais cedo ou menos cedo, saiba.” Testou, inclinando o rosto no braço do conde. Imaginava que Briana deveria ter contado sobre as peripécias de Cedric e Zofia, para que a Brunelleschi mediasse o campo, mas sorellina andava tão distante ultimamente… Oh, Nena nunca queria ter filhos! Sobrinhos, entretanto… Repuxou os lábios para cima em um sorriso ameno, recordando-se de Cassie por um segundo antes de Cedric tomar a sua atenção novamente. “Sim! Se eu soubesse que você gostava de meninas, eu teria te dado toda uma nova gama de opções, em brainstorming ¹! Você não ia precisar se apaixonar pela primeira pessoa que te deu atenção, sabe?” Arqueou uma das sobrancelhas, ciente de que os scarpins contra o corredor eram um som muito mais harmonioso do que o de uma bengala batendo aqui e acolá. Ante a pergunta dele, Nena simplesmente assentiu, arregalando os olhos ao comprimir os lábios em uma careta sabichona. “Bene, não só isso, vero? Eles dizem que você também é deformado lá embaixo, mas devem ser só rumores.” Gesticulou em desimportância ao morder o canto da boca com força para que não risse, ainda que ela própria não estivesse blindada àquele tipo de comentário: ora, se existiam fofocas, alguma coisa devia ser verdade, vero? “Lo giuri? ²” Nena entreabriu os lábios em surpresa, voltando o rosto para o de Cedric de olhos arregalados. Ora, ela precisava coletar quantas informações quanto fossem necessárias! “A morte?” Arregalou os olhos, apertando o braço dele com alguma força. Se fosse completamente sincera, estava na mesma situação; fato era que Nena tinha um arsenal para se desfazer daquele enlace, non? Cedric, à sua vez… Mordiscou o lábio inferior, inquieta. “Então você teria escolhido qualquer outra pessoa, mas seus pais obrigaram você a se casar com ela? Isso soa… Familiar.” Concedeu, arqueando as sobrancelhas brevemente ao fechar os olhos, tentando pensar. Ela não podia deixar que Cedric se casasse com alguém que não gostava, vero? Especialmente se esse alguém fosse Zofia! “You’re straight, then? Buono! ³ Então eu posso começar a procurar outras bachelors mais ajustadas a… Isso tudo.” Piscou algumas vezes ao gesticular na direção do corpo do francês. Ele era mais baixo que ela — menor do que a média masculina, queria dizer, já que Nena contava com 1,72m —, mas isso não significava que não existissem meninas baixinhas ou as que preferissem homens mais atarracados… E com algumas cicatrizes a mais. “Cedric, o que você pensa de cirurgia a laser?” Massageou o queixo, ciente de que a expressão pensativa estava lá. Oh, seria tão mais fácil se ela convencesse ele a tratar aquelas queimaduras!
“Você pode parar de puxar o meu braço?” Questionou em um tom levemente frustrado. Briana também o fizera em vários momentos. Aparentemente, era algo que as Brunelleschi faziam com certa frequência e que, de certo, era motivo de incômodo para Cedric. Principalmente em se tratando de Verena. “Você não precisa arrancar meu braço para falar, Verena. Eu estou te ouvindo.” E ouviria a quilômetros de distância, cria ele. “Se você sabe de tudo que acontece em Hyacinthum, você deveria saber que eu sou celibatário, não acha? É o tipo de coisa que se descobre primeiro...” Bom, ele estava um tanto cansado de explicar o tempo inteiro à motivação por detrás de seu comportamento considerado mais frígido. Para falar bem a verdade, Cedric não via a hora de simplesmente sair de Hyacinthum. De certo, ainda estava naquele lugar por causa de seu pai, mas começava a crer na possibilidade de encerrar sua matrícula. Não eram anos obrigatórios, afinal; não precisava continuar ali. E não tinha mais paciência pra isso. Não precisava se apaixonar pela primeira pessoa que lhe deu atenção... Aquela afirmação da princesa fizera com que o italiano hesitasse em seus passos, sentindo-se ligeiramente mais irado que o habitual. Pense em Briana, Cedric! Pense no quanto você gosta da amizade da italiana. “Você me escutou em algum momento? Eu não me apaixonei por ninguém, Verena. É um casamento arranjado! Pelo amor de Deus... Eu só quero acabar com essa história o quanto antes.” E se ele achava que não poderia piorar, Verena era capaz de fazê-lo. Sua amizade com Briana trouxera de brinde a presença da outra princesa, no entanto, diferentemente da irmã, Verena não era sutil. Na verdade, ela sempre fora a pessoa que mais demonstrara certo asco para com o italiano. E, embora fosse ele capaz de respondê-la como fizera com outros, era Verena. Ela tinha uma capacidade descomunal de estragar qualquer iniciativa de Ugo em, ao menos, participar das aulas. Era capaz de fazê-lo se sentir menor, tal como seu pai o fazia; comicamente, os dizeres da outra, tal como suas iniciativas, sempre o fizeram hesitar até mesmo em ir almoçar. Verena, como outros, eram as razões para ele jamais deixar o seu quarto. Assim sendo, sem se dar ao trabalho de continuar a conversa, o italiano soltara o braço da italiana do seu. Ele não era obrigado a ficar escutando isso, era? Não. E ele não ficaria. “A curiosidade ficará a cargo de quem pensa no mesmo.” Murmurou ele sem se dar ao trabalho de responder as palavras seguintes de Verena. “Famílias são complexas. Boa sorte com a sua...” Ele parecia bem distante agora e, bem, estava. Estava inquieto o suficiente para sair daquele lugar. “Eu não posso conversar agora, Verena; lembrei que preciso concluir um trabalho urgente” e não era mentira. Precisava, de fato, concluir um trabalho da aula de Poesia. Ele voltaria para a segurança de seu quarto. “Até mais, Alteza.” Murmurou ao fazer uma reverência desajeitada, afastando-se o mais rápido possível. Ele não precisava continuar estudando em Hyacinthum, então, por que ele se dava ao trabalho? Por que ele ainda fazia isso consigo mesmo?
Os olhos pousaram na figura de Cedric a tempo de capturar seu sorriso. Não era um sorriso irônico, com o mesmo teor das interações que os dois costumavam obter - era um sorriso verdadeiro. Chegou a franzir o cenho levemente, estranhando o gesto. Não era comum que rissem para ela - muito menos se tratando de De Portiers, com quem vivia em pé de guerra. A pergunta teve seu interesse. — Não, não sabia. Não é como se eu tivesse procurado uma enciclopédia a seu respeito, Cedric — ela respondeu. Mesmo que fossem palavras irônicas, a frase não teve nenhuma entonação ácida - Zofia realmente não conhecia as origens do duque da Normandia. Observou-o enquanto relembrava de alguns aspectos da sua história, com uma curiosidade nem um pouco bem-vinda em possuir aquelas informações. — Não é uma surpresa. Bem, depois que esse noivado patético estiver desfeito, você pode ir para onde quiser… Ou para onde te obrigarem. — Frisou. A música clássica não mais tocava: Zoe resolvera tirá-la, já que tinha perdido toda a concentração em sua dança quando Cedric começou a falar de si mesmo. — Não espere que eu seja tão apegada às minhas crenças como você. Não dou tanta importância a isso. — Não depois que a religião fora o início do desprezo que tinham com sua dinastia, depois que começaram a vê-los com asco simplesmente por serem judeus. Depois disso, tudo só tinha ido por água abaixo com o comportamento inadequado dos outros regentes. A fala a respeito de seus poderes voltou a chamar sua atenção, obrigando-a a encará-lo por mais alguns segundos. Não conhecia o limite de suas habilidades - algo que deixou-a com vergonha por ser tão despreparada. — Eu… Eu não faço ideia de qual seja o alcance delas. Da vezes em que as usei, estava bem próxima dos alvos, e não me sinto muito inclinada em ficar testando-as à toa. Meus parentes também não sabem dizer. É algo que eu também gostaria de saber, no entanto. — Foi sincera, talvez pela primeira vez na frente de De Portiers. A família nunca tivera interesse em desenvolver suas capacidades da forma devida - Céus, Zoe não sabia nem se algum dia poderia usar seus dons sem se machucar. Era uma dúvida que a deixava temerosa, mas não era naquele assunto que deveriam focar no momento. Ela aproximou-se do duque, sentando-se no chão ao seu lado, estabelecendo certa distância. — Sim, ela é, entretanto, isso não é algo que nossos pais enxergam. Precisamos, então, fazê-los ver — afirmou. — Eu vou pensar em algo e volto a falar com você, Ced. Sem ferir a ninguém. — A verdade é que sua mente já maquinava uma possível solução, mas não era com Cedric que precisava dialogar. Precisava de outra pessoa mais fácil de cooperar, a eficiência em pessoa.
“Não é como se eu quisesse” tratou de dizer rapidamente. “Mas eu imagino que seja algo que sua querida família tivesse tido a meu respeito para você. Ao menos, algumas informações a seu respeito eu tenho.” Aquelas que poderia conhecer, ou falar abertamente, como, bem, a motivação da outra em estar em Hyacinthum, o parentesco com os austríacos, fisionomia e seu gosto por ballet. Aquilo fora dito por sua mãe, no entanto; aparentemente, a duquesa desejava que De Portiers se casasse com a polonesa. Faria bem para ele. “É o que pretendo.” Fora a única coisa que dissera para a outra, muito embora seu humor estivesse mais amargo. Zofia não estava errada ao dizer que Cedric estava seguindo ordens. Por muito tempo, é claro, fizera o oposto. Seguira o que bem desejava, embora frequentemente influenciado pelos demais, no entanto, agora, seguia os passos de seu pai e o que ele dizia para fazer. Inspirou profundamente, negando com a cabeça. “Não esperava que você tivesse internalizado alguma coisa.” E dera de ombros, sabendo que o apego à religião, em alguns casos, era apenas para se apaziguar alguns ânimos. Não necessariamente tinham, de fato, uma ligação. “Então você não sabe nada sobre si mesma.” Não era um questionamento, mas uma afirmação; Cedric acreditava que saber sobre seus poderes era a tarefa que levava a conhecer a si mesmo. Veja, ele tinha ciência do que o fogo azul era capaz de fazer, e até onde iria, tal como a influência do mesmo em sua personalidade. “Eu sinto que não há verdade em sua fala...” Cedric possuía certa facilidade em levantar, portanto, fizera-o em um tempo considerável. “Mas espero que pense, de fato, em não ferir ninguém no processo.” E então estava de pé, desdobrando a bengala para sair do espaço. A sensação era ruim, de fato, mas deixaria Zofia pensando no que fazer.
❥ 〰 ❛ O grupo de garotas conversava ativadamente entre a troca de aulas, Candice estava terminando o último ano obrigatório e ainda tinha uma rotina colegial. Ela normalmente não achava isso ruim, gostava da sua rotina colegial, por mais patético que isso pudesse parecer, mas não gostava como as pessoas diminuíam ela por sua idade. Notou a presença de Cedric antes dele se anunciar, os olhos azuis capturando a atitude reticente de rabo de olho. Quando ele solicitou sua presença, ela não gostou de como as garotas de sua idade reagiram a isso, como se algo fosse rolar entre eles. Cedric era um homem bom, abstêmio até, não um pedaço de carne. Mas não as repreendeu, sibilou um “Me deem licença” para as colegas e se dirigiu a ele com um sorriso animado. — — Oi. — — Ela começou, seguindo-o quando ele começou a guia-la para longe, os sapatos boneca fazendo um som oco enquanto ela tentava o acompanhar. — — Uma companhia? — — Ela não entendeu bem o que ele queria dizer. — — Como numa festa? Eu adoro festas, se sim, pode contar comigo!
A animação de Candice fora percebida pelo italiano, mas evitara comentá-la, por hora. O sopro do que seria um riso irônico escapara pelos lábios do homem. Jamais seria recebido com festas em sua casa. “Eu diria que está mais para uma viagem.” Corrigiu-a rapidamente, baixando o tom de voz quando parara de andar. Bom, estavam confabulando, visto que ninguém poderia saber. Parecia-lhe interessante que tudo ocorresse durante a estadia dos nobres, afinal, poucos professores teriam condições psicológicas de aplicar qualquer aula visto que seus pais, não tão saudáveis, estavam por perto. “Eu preciso ir para minha casa em Normandia. Há coisas que preciso fazer, mas que, por razões óbvias e conhecidas por todos, não seria capaz de fazer completamente sozinho.” Esperava que, àquela altura, Rosberg já tivesse compreendido do que se tratava. “Preciso da sua ajuda. Iria para Normandia comigo, Candice?” Questionou-a por fim, só então soltando o cotovelo alheio, que estivera segurando mesmo que tivessem parado, para então ficar diante da finlandesa. Briana havia lhe dito que a vermelha era ambiciosa, no entanto, não lhe pareceu certo ofertar algo em troca. E, bem, cria no vínculo criado para com a outra para lhe pedir tal coisa.
Nena não esperou que @bludric saísse da classe para bombardeá-lo com as perguntas, praticamente pulando em cima do conde. “Como você consegue esconder isso por tanto tempo?!” Inclinou-se ao lado do francês, enroscando os braços para que não tivesse que usar aquela coisa horrível e que não dava match nenhum com seu visual. “Vabbè, eu sei que não é lá muito interessante estar prestes a se casar com a rainha da Transilvânia, ma…” Deu de ombros ao debochar, ciente de que o tom cochichado não se manteria assim por muito mais tempo. “Mas eu esperava que você me dissesse algo, Cedriquito!” Choramingou ao entoar o apelido ridículo que pusera desde que o conhecera, batendo o pé e forçando-o a parar antes de virá-lo de frente para ela, dessa vez dando uma boa olhada nas cicatrizes que o moreno havia colecionado. Ah, não seria Verena se não franzisse o nariz ante a visão, mas é claro que ele perceberia, então se limitou a semicerrar os olhos, tentando não se ater às queimaduras. Sua imaginação fértil agradecia. “Se você pelo menos tivesse me dito que gostava de meninas, eu teria arrumado alguém melhor!” Fez um biquinho, como se estivesse verdadeiramente contrariada. Bene, não diferia muito da verdade, para ser sincera. “Menos, sabe? Rawwwr.” Imitou as paródias dos filmes de Drácula, ciente de que, no imaginário, sempre que escutava Zofia falar, ela podia praticamente ver a atmosfera sombria dos filmes de terror que Myrella tanto gostava, com direito a raio cortando a noite escura, e tudo!
Começara a apreciar algumas idas à sala de aula, embora ainda fosse difícil socializar-se na mesma. Ficava o mais próximo dos professores, nas primeiras cadeiras, mas ainda era difícil lidar com a sensação de estar sendo observado --- e essa não diminuía com o tempo. Quando as aulas acabavam, a fim de evitar esbarrar com alguém, era sempre um dos últimos a sair e, geralmente, sem nenhuma surpresa. Até aquele dia. A súbita mudança em sua rotina fizera guinchar de surpresa, firmando os pés para não cair para trás diante da aproximação de Verena. “Madre di Dio!” Exclamou estupefato, colocando uma das mãos sobre uma carteira próxima antes de voltar-se a endireitar o corpo, apertando os lábios em uma linha fina enquanto ouvia os dizeres de Verena. Como ela soubera? E por que ela achava que ambos eram, assim, tão amigos a ponto de dizer-lhe algo? Mordiscara a própria língua para não dizer aquilo. Verena poderia bem... Sensível. “Eu me pergunto como você soube... Mas, bene, não é lá algo muito difícil.” Fofocas corriam por todos os corredores, afinal. O italiano se incomodou minimamente com o braço alheio ao redor do próprio, mas nada dissera, novamente mordiscando a própria língua. Em verdade, era até mais útil que alguém o guiasse, embora fosse uma proximidade além da que estava acostumado. “Como assim ‘gostar de meninas’?” Havia um tom urgente e um tanto contrariado enquanto a pergunta lhe escapara dos lábios. Veja bem, ele tentava não soar preconceituoso em muitos momentos, mas como o próprio havia dito outrora: era difícil. Ideologias intrínsecas nas quais fora criado. Nascera dentro da igreja. “É o que todos pensam?” Questionou o italiano, subitamente tomado por outra curiosidade: por que um homem não poderia escolher a vida de castidade sem ser tomado por uma orientação sexual que se diferia dos demais? “E eu não escolhi casar com ela, Verena... Se eu pudesse escolher, tinha escolhido a morte.” E não estava brincando, é verdade. Preferia não casar. “E não é porque um homem simplesmente não se relaciona que automaticamente ele pode ser reconhecido como homossexual, Verena. Non tutti gli uomini hanno lo stesso comportamento.¹” Havia uma série de condutas masculinas que faziam de você mais ou menos gay, mas Cedric não trataria disto naquele momento.
Ella sabia que @bludric poderia estar ocupado, afinal ele era o irmão mais velho e consequentemente o mais ocupado de todo modo, seu querido, Cedric sempre lhe arranjara um tempo, diferente do clima tenso de repreensão e cobrança de seus pais, Ced era sempre sereno mesmo quando a mais nova poderia lhe encher o saco, algo que tornou a pequena Credella extremamente apegada ao mesmo e a relação dos dois indestrutível. Havia feito um bilhetinho com suas velhas paletas de cores, era de admirar o capricho para que o irmão entendesse as palavras escritas em alto revelo em libras, havia corações e as descrições das cores, havia tido cuidado para que fossem elevados o bastante para compreensão, apenas para convidar o irmão para um dia a seu lado, ela estava em uma fase nova e queria que o mesmo estivesse presente, havia pedido para fazer uma festa do pijama com Svetelana no luau visto que não se sentia tão disposta e não desde o lunae messis queria manter certa distancia de adultos que não fossem aqueles que já conhecia e eram seus amigos.
Meu querido Cedriquinho,
Eu aprendi com a Kiara a fazer uns docinhos e queria muito te mostrar, além disso não temos passado tanto tempo juntos e eu sinto sua falta, não acho que sou tãaaaoooo chata assim para não me querer por perto, eu espero que esteja certa sobre isso e espero que não tenha se esquecido de mim, queria saber se poderia por favorzinho, ficar hoje a tarde comigo, ou amanhã, ou o dia que puder, só… quero ficar um pouco com você.
P.s. Te amo muito, da sua Ella.
Não demorou obviamente a receber uma resposta, algo que aqueceu o coração da francesa e tornar seu dia ainda mais animador, conto os segundos para encontra o irmão no jardim pedindo ajuda a os funcionários para preparar um piquenique e esperou o mesmo enquanto observava o céu em sua plenitude, um tanto ansiosa, o que era percebível pelo movimento incessante dos seus pequenos pés, não evitando esperar Cedric para furtar alguns docinhos na cesta. Dando um salto quando escutou passos de alguém se aproximando e ao notar quem era correu para seus braços um tanto… brutalmente desajeitada. —“Ced… eu tenho tanto para te contar, coisas boas e ruins, mais para ruins mas eu sobrevivo, Nana¹ te contou algo? E como você está? Alguma novidade? Conseguiu se livrar daquela noiva chata? Eu posso fazer algo se quiser, e porque andou sumido?” — Credella soltou tudo em certa euforia, até esgotar sua enorme combustão de gás em seus pulmões, como sempre sempre cheia de perguntas e curiosidade, algo particular e tipico da jovem condessa.
O cotovelo do italiano estava sobre o braço da poltrona enquanto os dígitos enfiaram no emaranhado de fios, apoiando a cabeça na mão enquanto sua mente parecia vaguear intensamente dentre possibilidades que lhe eram apresentadas. Não saberia dizer exatamente quanto tempo estivera naquela posição, ignorando por completo cada ser que passavam por si observando sua postura para então continuar prosseguindo. No entanto, alguém viera na direção do outro, parando diante de si, tirando-o o transe no qual se encontrava. A cabeça de Cedric parecia prestes a explodir quando lhe colocaram nas mãos uma espécie de cartão, antes de anunciar que fora escrito por sua irmã, Credella. Primeiramente, fora tomado pela preocupação, afinal, o que a outra poderia lhe falar que não seria face a face? No entanto, assim que os dígitos começaram a passear pelo papel, identificando os corações e estrelas que ela havia colocado no mesmo, abrira um sorriso mínimo, mas carregado de uma alegria sempre constante quando se tratava da pequena Ella. Seus pais eram inflexíveis com ambos, ele sabia; portanto, tudo que era capaz de fazer para tornar a vivência da menor mais fácil, fazia-o, pois, da mesma forma, ela também fazia por si mesmo que não soubesse.
Cedric concentrou-se nos dizeres alheios sorrindo melancolicamente para o que a irmã escrevera, sentindo-se um tanto displicente na atenção dedicada à irmã. Ora, muito embora o homem estivesse deveras ocupado com tudo que rondava a pesquisa de Briana e a própria pesquisa pessoal, não era certo que se esquecesse de sua própria irmã! Assim sendo, guardou no bolso da calça o cartão de Ella, abrindo a bengala antes de começar a andar. Segundo o funcionário que lhe entregara o convite, a condessa o esperava nos jardins, portanto, para lá ele fora, concentrando-se nas coordenadas recebidas. Sabia que entrara no solo do jardim, mas não sabia quão perto estava de sua irmã --- ainda tinha certeza daquele fato --- até que sentira o choque do corpo alheio sobre si, ficando os pés na grama para que ambos não fossem ao chão. Não fora fácil, visto que fora pego de surpresa, no entanto, conseguira manter-se de pé. No processo tivera de jogar a bengala no chão, obviamente. “Ella!” A exclamação não fora em um tom repreensivo, mas tão animado quanto o dela, concentrando-se na enxurrada de informações direcionadas a si pela menor. No entanto, primeiramente retribuiu o abraço da outra de forma tão entusiasmada quanto ela; sentia falta de sua irmã, também.
“Acalme-se um pouco, condessa... Você está muito afoita.” Dissera ele antes de apertá-la mais em seus braços, afastando-se em seguida para visualizar melhor a sua face. Bom, parecia bem, embora tenha o preocupado ao se referir às notícias boas e ruins que possuía consigo. “Que notícias?” Indagou em primeiro lugar. “E, só para constar, eu não a estava esquecendo, Ella. Apenas estava um pouco ocupado com algumas coisas. Briana e sua pesquisa, nosso pai e sua ideia terrível de casamento e...” e, então, hesitou, sem saber até que ponto deveria levar aquela informação. “E a possibilidade de desmanchar esse noivado o quanto antes.” Concluiu por hora; não sabia até que ponto as possibilidades de Mercedes eram reais e não poderia expor para Ella até que tivesse certeza. “Eu ainda estou tentando me livrar da minha noiva chata. O que Briana deveria me contar?” Questionou, recordando-se da linha que a outra seguira, subitamente curioso para o fato. Antes, porém, puxou-a para mais um abraço, depositando um beijo em sua cabeça. “O que preparou para nós?”
Ao longo de sua vida Briana tinha recebido alguns ensinamentos valiosos que haviam impedido que ela se tornasse arrogante demais em relação ao seu intelecto bem trabalhado. Seu tio Miguel tinha se preocupado desde cedo em ensiná-la que não era nada cortês corrigir alguém mais velho em meio a uma explicação ou jogar na cara de professores que ela estava certa – uma conduta que tinha sido bem difícil de se extinguir de seu comportamento – e seus esforços até poderiam ser considerados louváveis, pois a princesa não fazia nada do tipo desde os seus doze anos. Coitados dos pobres professores de Hyacinthum que tinha lidado consigo antes disso! Entretanto, indo em contramão a educação que tinha recebido, durante as correções do Doutor Giuseppe, após o término da sua apresentação, a única vontade que a Brunelleschi tinha era de tomar o canetão das mãos dele para ir até o quadro e provar matematicamente porque ela estava certa;; exatamente como costumava fazer na aula de Cálculo I quando não passava de uma primeiranista. E sequer era necessário que externasse a sua insatisfação, pois a sua cara emburrada falava por si só aquela altura do campeonato! ❛ —— Mas o senhor havia dito que eu estava indo pelo caminho certo quando decidi usar probabilidade da interseção de dois eventos dependentes na metodologia. ❜A princesa comentou sem nenhuma paciência na voz, pressionando o braço de @bludric com uma força desnecessária somente para externar um pouco da raiva que sentia. ❛ —— Eu não consigo entender o que mudou de duas semanas para cá para que eu tenha que refazer todos os meus cálculos. ❜ Pensando bem, era ótimo que tinha feito com que seu assistente se sentasse ao seu lado para escutar o doutor, pois assim ele poderia segurá-la em caso de emergência.
“Ma-“ no entanto, sua fala fora interrompida por si mesmo antes que saísse de seus lábios, deixando com que o outro terminasse. Ele discordava? Sim. Mas era mais respeitoso que deixasse com que o homem concluísse os dizeres antes de qualquer conclusão de sua parte. Entrementes a ação alheia, Briana parecia descontar toda a sua ira no braço do franco-italiano que começava a sentir algo além do incômodo inicial. O comportamento da outra sendo analisando pelo homem enquanto questionava até que ponto as modificações hormonais em virtude da gravidez poderiam interferir no comportamento passivo-agressivo de Briana, intensificando-os ou modificando-os. “Faço coro ao questionamento de Briana.” Cedric dissera ao findar da fala de sua amiga. “Percebe-se que o enfraquecimento dos genes é latente no sexo masculino, portanto, temos essa dependência do evento.” Mas, bem, Cedric não tinha tanta paciência quanto Briana. “Não faz o menor sentido trocar a metodologia.” Havia impaciência em sua voz. No seminário, jamais lhe disseram algo depois do início da pesquisa. Correções eram necessárias, sim, mas não na metodologia, mas como se era empregada. “E non ha senso voler giocare a ruota in questo momento¹.” E, então, o incômodo crescente tornou-se um problema. “E eu acho que vai entender melhor depois da apresentação, certo, Briana?” Invocou a outra para a conversa, tocando-lhe a mão.
A cabeça do italiano parecia um grande embaraço de ideias. Após a discussão de seus sonhos com Mercedes — descobrindo que a cigana também sonhara diversas vezes com o próprio Cedric — o homem passara então a se dar mais trabalho durante a noite. Mal dormia, pensando e analisando a sua própria história; sua mente vagando à procura de inconsistências outrora não percebidas. Assim sendo, tomara uma atitude um tanto drástica. Ora, De Portiers não possuía tantos amigos para ajudá-lo nas diversas atividades do dia a dia, possuindo, em verdade, apenas Briana e Mercedes — talvez considerasse Ishmael, muito embora o italiano pouco o visse. Portanto, após interações tidas com @sugartown01, sendo estas interessantíssimas e bem-vindas pelo azul, saíra à procura da vermelha, encontrando-a em meio a algumas amigas de sua idade. Ainda se acostumava com a ideia de Candice não ser menor, é verdade. Esperou pacientemente a denúncia de sua presença, abrindo o que considerou ser um sorriso simpático, antes de se pronunciar. “Preciso de Candice por um momento.” E, dito isto, tocou o ombro da menor com delicadeza, fazendo com que os dígitos escorressem pelo braço alheio até o cotovelo, guiando-a para longe de suas amigas. “Eu preciso de um favor. Uma companhia, na verdade.” Começou a esclarecê-la em um tom baixo, contendo qualquer emoção.
❛ ˑ тнє ℓισи ѕℓєєρѕ тσиιgнт;
a mercedes & cedric point of view.
Here comes a lion, Father.
𝒪𝒽 𝓎𝑒𝓈, 𝒾𝓉’𝓈 𝒶 ( 𝓁𝒾𝑜𝓃 )
Here comes a lion, Father.
𝒪𝒽 𝓎𝑒𝓈, 𝒾𝓉’𝓈 𝒶 ( 𝓁𝒾𝑜𝓃 )
Os passos de Cedric eram vagarosos, porém, não de forma cuidadosa e atenta com a qual era habituado, mas como se já tivesse estado naquele ambiente outrora. A familiaridade de seu andar era tamanha que, antes mesmo do homem virar um corredor, já lhe sabia aonde este desembocaria. E, muito embora tivesse a ciência incompreensível de se tratar de um sonho, também era sabido que sonhos eram incontroláveis e, assim sendo, embora o desejo de afastar-se fosse incompreensível, mas real, o italiano não o pudera fazer.
Quando chegara à porta do quarto, o sonho se misturara. Ao mesmo tempo em que Ugo era um observador do que ocorria nas entranhas do espaço, estava disposto no colo da mulher, sendo ninado como nunca antes o fora, ouvindo-a cantarolar para que dormisse. As pálpebras estavam pesadas, é fato, mas ele se via incapaz de dormir, admirando a beleza de sua voz e também a outra.
“Constante como as estrelas no céu, sempre saiba que você é amado. E meu amor brilhando em você vai te ajudar a fazer com que seus sonhos se realizem.” O balanço da cadeira acompanhava o ritmo com o qual a mulher cantava, fazendo com que Ugo se acomodasse ainda mais no colo alheio, aninhando-se no amor de sua mãe. Era sua mãe, contudo, não a mãe que ele conhecia, de fato. Ao mesmo tempo em que estava no convento, Ugo também estava em um trem, seguindo em uma viagem cujo destino embora fosse conhecido, não era formulado como algum lugar especifico. Ele apenas sabia que chegaria, eventualmente. No entanto, tão logo estava no trem, já estava de novo no quarto com sua mãe, embora a agora ela já não estivesse cantando, mas segurando-o com lágrimas em seus olhos.
“Cedric, você é muito amado...” O guincho de dor oriundo do térreo fez a mãe parar. No entanto, Cedric, o espectro que assistia a um sonho deveras real — fato este evidenciado por uma voz baixa em sua mente — procurara a origem do som, curioso e assustado. Conquanto, a mesma voz que lhe dizia se tratar de uma realidade assistida por ele, alertara-o também a se ater aos detalhes da outra, pois seria a última vez que a veria. Assim sendo, via-se refém da face feminina, sem conseguir tirar o olhar da mesma, divagando acerca de sua jovialidade, também; era jovem demais para ter uma criança em seu colo. Jovem demais para ter tanto medo. “Tão amado.” Os dígitos tocaram a face do italiano enquanto os dizeres eram proferidos em sussurros calmos, procurando conter o desespero. “Mamãe ama você. Mamãe ama você.” Enfatizou. Era como se a mãe quisesse fazer o filho entender que era amado. Como se ela soubesse que a partir do momento em que se fosse, diriam a ele que não era. Como se soubesse o culpado pela separação tão precoce. “Fique seguro. Seja forte.” E, então, o bebê começara a se mover no colo alheio intrigado, sim, mas igualmente desesperado. Um desespero que atingira o mais velho de pé, fazendo-o arfar.
“Constante como as estrelas no céu, sempre saiba que você é amado.” O cântico não era alegre, mas melancólico. Era uma despedida e Cedric tanto o sabia que começara a chorar, tomado por completo desespero. “Shhh. Cedric, por favor, não faça isso ser mais difícil.” Implorou a mãe em um fio de sua voz, tomando coragem para realizar a ação mais difícil de sua vida. Os dígitos seguraram as mãos gordinhas, colocando-as em sua face com delicadeza. O fato acalmara a criança o suficiente para que um sorriso se abrisse no rosto feminino. O amor que sempre sentira por seu filho era incompreensível e difícil de pôr em palavras, mas era sentido por quem assistia. “E meu amor brilhando em você vai te ajudar...” A mãe desceu em seus joelhos, pousando a criança no espaço que julgou ser seguro. Seu rosto estava posto para dentro do armário e seus olhos piscavam a fim de afastar as lágrimas. “A fazer com que seus sonhos se realizem...” Continuou cantarolando mesmo que a letra tivesse terminado, retirando o broche de meia-lua do vestido. “Como as estrelas estão lá no céu, meu amor é teu, meu filho.” Dissera, deixando o broche entre as mãos pequenas e gordinhas. “Eu te amo, Cedric. Você é amado. Tão amado...” E, então, voltou-se para trás antes de fechar a porta, colocando o garoto em segurança, fazendo com que Cedric despertasse em sua cama, tateando o próprio peito à procura do broche de meia lua. Sempre que acordara o fazia, mas decepcionava-se ao constatar que não estava ali. E jamais estaria.
Os pés tocaram o piso gélido da madrugada enquanto se espreguiçava, pondo-se de pé. Ele sabia que não conseguiria voltar a dormir, pois, embora quisesse, não deixaria de pensar no sonho que acabara de ter. Nunca o fazia. Há duas semanas o italiano era bombardeado pelo mesmo sonho. As únicas modificações era que ora ele era um garoto, ora um gato. A estrutura, porém, jamais se modificava, fazendo-o indagar a motivação por detrás do sonho e o que o mesmo queria dizer. Já não parecia apenas uma manifestação do seu inconsciente. Na primeira noite, questionara-se acerca da familiaridade dos nomes contidos, sem conseguir lembrar-se do sentimento de reconhecimento para com a mulher que segurava a criança recém-nascida. Após alguns dias, cada pequeno detalhe começara a prender-se em sua mente, fazendo-o questionar a si mesmo quando pensava na sua presença naquele ambiente, tal como estava deveras intrigado para saber qual local era aquele.
Outro fator que lhe intrigava, além da própria repetição do sonho, era a figura materna que lhe era mostrada. Cedric sabia, por descrições de Ella, que sua mãe possuía um cabelo escuro, pescoço esguio e já estava avançada em idade. E, pela própria experiência, via-a como uma mulher inflexível, criada para um governo que jamais poderia exercer. A mulher que vira em seu sonho, no entanto, possuía um tom mais claro em seus fios, era jovem e mais amável do que a própria mãe. E Ugo era capaz de sentir o amor depositado pela outra em si de tal forma que a si mesmo amava em seguida, afinal, se ela o amava, não era tão monstruoso assim. E, bem, o italiano a amava. Sem jamais conhecê-la para além daquele espaço curto de seu sonho, De Portiers sabia que dentro e fora daquele sonho, ele amava aquela mulher da mesma forma que um filho amaria sua mãe; e da mesma forma que um dia sonhara em amar a própria mãe, mas era incapaz de fazê-lo diante do comportamento da duquesa.
Ugo tateou a procura da própria cadeira, na mesa onde se utilizava para estudos, procurando uma caneta e um papel. Embora fosse madrugada, Cedric estava se sentindo essencialmente quente naquele dia. As temperaturas, no corpo do italiano, eram sempre mais altas que o habitual, visto que estava em constante contato com o fogo, no entanto, junte isso ao clima, e estava quase insuportável permanecer muito tempo debaixo dos lençóis. E, talvez por isso, Cedric não estava dormindo de forma tão puritana, portanto, antes de sentar-se, tratou de vestir-se, pois já tivera a experiência de sentar-se nu na cadeira logo após um sonho e não era agradável. O azul trouxe para perto de si um papel e uma caneta, procurando os dizeres que melhor seriam compreensíveis para quem o receberia, reconhecendo que em qualquer língua que escrevesse, Mercedes seria capaz de entender. Ah, sim, Cedric escrevia para Mercedes. A cigana, embora fosse de uma cultura pagã, se tratava de uma pessoa deveras próxima do italiano, ainda que ocasionalmente desaparecesse sabe-se lá por qual motivação. E era Mercedes quem poderia ajudá-lo a entender os sonhos que vinham perturbando suas noites.
Querida Mercedes,
Não procuro incomodá-la, mas preciso de um favor. A estufa está sempre vazia ao findar da tarde, poderia encontrar-me lá? É um local privado.
Cordialmente,
Cedric.
O papel fora dobrado em partes iguais. O homem colocou-se de pé, procurando a bermuda que havia preparado para utilizar no dia. Era incomum para Cedric o uso de vestes fora do padrão formal --- tanto que sequer sabia possuir bermudas em seu armário até que o mesmo fora invadido por Maria Antonieta e Verena ---, contudo, o clima estava acima da temperatura esperada para o verão no Norte E ele não desejava cozinhar debaixo de suas roupas. Guardou o bilhete que colocaria sobre a carteira de Mercedes na aula de Relações Diplomáticas --- a primeira aula da manhã e a única que era obrigado a fazer --- e voltou-se para a cadeira, organizando o ambiente. Embora Cedric não pudesse enxergar como os demais, isso não significava que não era organizado com suas coisas. Era até demais. Tanto que sabia exatamente onde havia deixado seu telefone celular.
“Siri, que horas são?” Indagou ao pegar o telefone. “A hora é 03h40min.” Ainda tinha uma longa noite pela frente e, sem ter certeza se havia ajustado o relógio, Cedric pediu para que o assistente do sistema o acordasse às 06h00min. No entanto, ele não voltou a dormir; sua mente, embora cansada pelas pesquisas que demandavam esforços de seu cérebro, ficara divagando sobre cada novo detalhe que lhe fora apresentado naquele dia. O grito desesperado não estava lá das outras vezes, tal como sua mãe lhe parecia bem mais obstinada ao guardá-lo no armário --- tal como visivelmente quebrada por fazê-lo --- e, bem, o ambiente parecia mais quente. Subitamente, colocou-se sentado na cama, piscando freneticamente. O ambiente estava quente. Era como se estivesse dentro de uma fornalha e, bem, o era. E ele apenas se sentira confortável com a temperatura porque era habituado ao fogo e ele jamais o incomodava.
[...]
Não era preciso ser um gênio para saber que choveria dali a pouco. Em meio a pinheiros e carvalhos, altos como arranha céus, os olhos espirituosos de Mercedés buscavam identificar onde ela se encontrava. Dava para ver as colinas a distância, e o céu cinzento fazia um contraste singular com o mar de grama. O silêncio predominava no ambiente, sendo possível ouvir o som de grilos cantando e folhas farfalhando sob os pés descalços da cigana, que cuidadosamente seguia em frente para, em busca de mais. Não demorou muito para identificar em que lugar se encontrava. O clima geralmente nublado, os campos verdes, e os pinheiros e faias… Ora, é claro que estava na Inglaterra. Mais precisamente falando, em Hampshire. Já havia passado por ali uma única vez, visto que adentrar na Inglaterra nem sempre era simples ––– afinal, a Grã-Bretanha era uma grande ilha.
Sentiu o coração palpitar mais forte quando um som desconhecido chegou aos seus ouvidos. Não um trovão à distância, tampouco o farfalhar de uma árvore, mas um ronronar poderoso, imponente, mas ao mesmo tempo, tão suave e carinhos... Os olhos, espirituosos e atentos, olharam em direção aos sons felinos, e os pés descalços ainda tomavam certo cuidado com os ruídos das folhas enquanto passavam pelas árvores; e mantivera-se atrás de um grande carvalho quando captou uma imagem um tanto… Singular. Não muito longe dela, em uma espaçosa clareira, havia dois animais: um veado e um filhote de leão. Ao contrário do tempo nublado que rodeava toda a floresta, sobre os animais era predominante a iluminação serena da aurora, tingindo o cenário com tons pastéis de rosas, amarelos e laranjas. Era uma cena serena, calma, porém, melancólica de certa forma. Era como uma despedida; mas ora, que sentido faria aquilo? Afinal, eram presas e predador, mas o veado tratava o pequeno leão como se fosse, de fato, sua mãe ––– e por mais que, logicamente, não tivesse qualquer nexo, Mercedés sabia que era sua mãe.
" ––– Ela está dizendo alguma coisa." Os dizeres vieram num sussurrar, e logo a cigana permitiu-se olhar para sua direita, para a imagem de Cedric. Quando ele havia aparecido? Bem, ela não sabia; era como se sempre estivesse ali e, por mais que sua presença fosse repentina, não pareceu estranho para Mer. Era como se o veado falasse em um idioma que apenas o francês entenderia, e os olhos castanhos repousavam-se nele como uma indagação silenciosa. Cedric era deformado e cego, e isso era um fato, contudo, Mercedés jamais vira as características de forma pejorativa. Um privilégio a menos, sim, mas nunca pensou no homem como alguém que precisasse de cuidados ou atenção especial; muito pelo contrário, talvez ele fosse a pessoa mais independente do instituto. Mas o moreno não teve tempo de responder. Não antes do som do farfalhar chegar novamente aos ouvidos da cigana, fazendo-a imediatamente desviar a atenção para os animais. Ou melhor, o animal. Onde estava o veado?! Os olhos castanhos foram levemente arregalados num misto de surpresa e curiosidade, e Mer começou a buscar no ambiente em torno de si pela matriarca. Porém, sabia que seria inútil; ela havia desaparecido. Também não teve tempo de prestar atenção na reação do filhote de leão antes que o ambiente em torno de si começasse a mudar. As árvores, antes de coloração verde musgo, passando pelos amarelos, laranjas, até chegar a um vermelho vívido e cálido. As folhas, agora, começavam a rodopiar em um ritmo frenético.
O cenário, antes sereno, agora se transformara em um grande sinal de alerta ––– um sinal para eles saírem dali. Mer apenas não sabia se era apenas para o leãozinho, ou também para ela e Cedric. Não muito depois que o cenário mudou de cor, a cigana sentiu a destra alheia puxar a sua, e o francês começar a demonstrar sinais de que queria ir embora. " ––– Não, Cedric, nós..." Mas se calou quando percebeu a figura do pequeno leão correndo na direção oposta à deles. Ele não poderia ir embora. Não agora! " ––– Não, não, não, não, não! Não agora!" Exclamou, pois agora não mais fazia questão de ser silenciosa ou discreta. E os pés se apressaram para seguir o leão, mas ainda sentia a mão de Cedric em si. " ––– Não, Mercedés! É perigoso." Ouviu-o dizer; bem, o francês sempre fora mais prudente do que ela. Em alguns momentos, era uma virtude, mas em outros, um defeito. Aquele era certamente um deles; e Mer não deixaria o leão escapar por uma simples precaução. " ––– Perigo?" Indagou, antes de jogar a cabeça para trás e deixar que uma gargalhada espirituosa escapasse de sua garganta. " ––– Eu rio na cara do perigo!" Exclamou, deixando o sorriso destemido tomar conta dos lábios. Agora, era a vez dela de puxar a mão de Cedric. " ––– Vamos atrás dele, Ced. Antes que o percamos de vista." Mas o moreno parecia resistente demais, temeroso demais. Não era um cenário bonito, e ele tinha seus motivos. Mas por mais imprudente, e até estúpido que pudesse parecer, Mer não daria para trás. O leão não estava apenas fugindo das folhas frenéticas e avermelhadas; estava indo para algum lugar em específico. " ––– Então tá. Você fica, e eu vou."
Sem mais delongas, os pés descalços, e usualmente adornados de finas correntes, da cigana seguiram velozes na mesma direção do pequeno leão, Aos poucos, o vulto das árvores começaram a mudar de cor; de um vermelho vívido, para laranja, amarelo, verde, e finalmente, azul. Um azul escuro e arroxeado, mas que não transmitia qualquer sensação de serenidade ou frio, pelo contrário; apesar da cor fria, Mercedés nunca havia sentido tanto calor em sua vida. Era como se tivesse uma grande fogueira ligada. Ou melhor, três fogueiras, pois, quando olhou para a clareira azulada, não havia apenas o leãozinho presente ––– a bem da verdade, não existia mais leãozinho. Os olhos castanhos de Mercedés agora captavam não um, mas três animais: todos leões. A primeira leoa estava deitada numa pose majestosa, e imponente, emanando o calor da sua pelagem e dos seus olhos. O segundo, Mer precisou de um tempo a mais para identificar que era, de fato, um macho. Era um leão magro, apesar de aparentar boa saúde, com cicatrizes pelo corpo e a juba totalmente cortada. Seu semblante, não esboçava simpatia, tampouco a majestosidade que a sua irmã. O terceiro leão também tinha a juba rala, porém, ainda era possível notá-la. Ao contrário dos outros leões, que possuíam pelagem dourada e repleta de cores quentes, a pelagem do terceiro era escura, beirando o negro, e refletindo cores frias. Apesar disso, ele emanava tanto calor quanto os outros. Cada deles estava em um canto da clareira.
A leoa repousava em um enorme carvalho de galhos grossos. O leão sem juba deitava-se preguiçosamente em uma relva de trevos; e o terceiro, o único que estava de pé. Não identificava nenhuma figura conhecida em nenhum dos três ––– Mer não era Melinda para falar com animais! ––– mas de certa forma, o cumprimento saiu da garganta da morena inconscientemente. " ––– Olá, vossa santidade." Gracejou, voltando os olhos castanhos para a leoa. " ––– Olá, cão." Agora, falava com o leão sem juba. " ––– E você..." Droga! Ela o conhecia. Sabia que sim, mas antes que pudesse se dirigir ao terceiro leão, a cigana acordou.
[...]
Ela poderia dormir na aula de economia. O sr. Smith era, de fato, a personificação de Hipnos na terra, assim como sua matéria, suas palavras, seus livros e… Bem, tudo o que ele viesse a tocar, como um Rei Midas do tédio. Mas Mer sabia que, se dormisse naquela aula ––– ou melhor, quando dormisse ––– sonharia com leões mais uma vez. Vinha tendo o mesmo sonho a aproximadamente duas semanas, exatamente iguais: iniciando-se com uma floresta nublada, e terminando com três leões. Reconhecia o primeiro e o segundo ––– em sonho, sabia perfeitamente quem eram, mas fora dele, era uma informação que se mantinha nublada para a morena ––– mas o terceiro continuava sendo um enigma. Contudo, não teve tempo de divagar um pouco mais sobre o sonho antes do sr. Smith finalmente anunciar a hora de acordar, popularmente conhecido como o final da aula. Mas antes que Mercedés pudesse seguir caminho até seus simples aposentos, os olhos castanhos encontraram um pedaço de papel embaixo da carteira, contendo seu nome. Imediatamente, a cigana reconheceu a caligrafia de Cedric.
E como ele havia dito, a estufa estava vazia ao final da tarde. Os pés descalços, adornados pelas finas correntes douradas, adentraram silenciosos no ambiente, e os olhos, reconhecerem a imagem do francês ––– ou seria italiano? " ––– Olá, Ced." Anunciou; o sorriso presente na voz. Por mais opostos que fossem Cedric e Mercedés, fato era que a cigana apreciava a companhia dele, considerando-o facilmente uma das melhores pessoas que encontrara no instituto. " ––– Acho que nós dois temos algo o que conversar, não?" Indagou, sentando-se ao lado do moreno e cruzando as pernas informalmente.
E assim, Mercedés contou, detalhe por detalhe, do sonho que vinha tendo nos últimos dias. Falou da presença dele próprio no início, e de que não permanecia até o final, alegando perigo. Falou dos três leões, a fêmea robusta, o macho sem juba e o terceiro leão emanando tons de azul, diferentemente dos outros. Mas não precisou divagar muito para reconhecer a leoa de outro sonho que havia tido ––– há meses atrás, logo antes da sua primeira e última Primeira Sexta. " ––– Foi o sonho que salvou minha vida. Literalmente." Ponderou, deixando que um suspiro saísse pelas narinas, adornado por uma discreta argola dourada. " ––– Eu sabia cada movimento para escapar dela… Digo, de Elizabeth. Ela era a leoa. E a mesma leoa que apareceu naquele sonho, apareceu no que ando tendo atualmente. A mesma pelagem, a mesma expressão… O mesmo tudo. Cedric, você tem alguma relação com Elizabeth Windsor?" O leão sem juba ainda era um grande enigma, como se houvesse mais um irmão. Mas não era Arwin, tampouco Josh… Mais tarde, perguntaria a vossa santidade se ela tinha algum irmão em casa… Deitado em uma relva de trevos. Trevos…
— Ah, certo, você vai começar com todo esse papo religioso — Zoe fez uma careta, revirando os olhos em reprovação. — Sou católica como você, mas não é como se eu entendesse uma vírgula do que dissesse. — Justificou, sem prestar muita atenção nos dizeres de Cedric. Apesar da religião ter sido o início da aversão que os poloneses tinham a sua família, Zoe nunca foi muito devota. Sequer podia afirmar que acreditava que Deus existia, já que o conceito era algo um pouco distante para ela: joelhos no chão não trariam o que almejava. Somente ela poderia ir e conquistar seus objetivos, mesmo que fosse com suas próprias mãos - ah, e como tinha provado-se boa em conseguir o que queria por si só! Espetacular, na verdade. Dessa maneira, Zofia sabia que seu noivado com Cedric não duraria. Arranjaria um jeito de desmanchar a união - somente a ideia de ter um homem no trono ao lado, tocando tudo aquilo que ela, literalmente, matara para atingir, já a deixava enojada. — Não fale como se minha companhia lhe fosse danosa, Ced. Eu poderia muito bem matá-lo onde está, mas não é necessário. Não quero ser conhecida como assassina, carrasca ou algo do tipo… Se bem que a ideia poderia cair bem para você. Poderiam te transformar num mártir! São Cedric. — Cada palavra de sua boca era provocativa: irritar as pessoas fazia bem aos seus ânimos; irritar Portiers, em especial, era quase sexualmente prazeroso. Concentrando-se em sua coreografia, rodopiava enquanto o homem persistia no assunto religioso, fazendo alusões à Bíblia mais uma vez. Bem, já que tinha dado seu recado instantes atrás, nem gastaria saliva para atestá-lo que não se importava com sua sagrada Bíblia ou seu sagrado Deus. A observação do italiano, entretanto, era algo que realmente necessitava de atenção: como fariam para mostrar que o casamento dos dois era uma péssima ideia? Implicância era uma razão pessoal e banal demais - seu pai nunca dissolveria o noivado simplesmente porque Zoe não gostava de Cedric. — Precisamos mostrá-los de alguma forma que somos ruins juntos. Não, não ruins. Catastróficos. Como se o reino inteiro fosse sofrer com nossa união.
O comentário de Zofia fora capaz de arrancar um sorriso dos lábios do italiano. Muito embora travassem uma batalha diária em momentos que ninguém sequer imaginava que seria possível que duas pessoas brigassem, o sorriso de De Portiers era genuíno; sem qualquer humor ácido ou deboche no mesmo. Ao menos, não intencionalmente, é verdade. “Você sabe que eu fui criado na igreja, não sabe?” Não necessariamente a outra deveria responder àquele questionamento, no entanto, para título de curiosidade, caso Zofia não soubesse, ele estava a informando de sua criação. “Até meu querido pai resolver reparar alguns erros do passado, eu estava me formando para ser um padre, inclusive. Talvez você tenha perdido essa parte da história...” A presença do sarcasmo nos dizeres proferidos pelo italiano era latente. “Mas que interessante saber que sua formação moral se entrelaça com o cristianismo...” Contudo, Cedric mordeu a própria língua para não continuar com o comentário que estava formulando. “Esqueça.” Murmurou para si mesmo, abanando a mão, deixando a cabeça encostar-se aos espelhos da no estúdio. Alteridade, Cedric. “Teoricamente, sua presença é mortal.” Corrigiu-a ao que terminara sua fala. “Você exala toxinas capazes de matar qualquer um em um alcance de dez metros? Eu diria no mínimo.” E, se por um lado Cedric sentia-se pouco interessado em manter-se nos mesmos ambientes que a outra, por outro ele estava curiosíssimo para saber mais sobre os poderes alheios, tal como conjecturava a estrutura do DNA da polonesa para que a sua mutação tivesse tamanha diferenciação para com os demais. Muitos azuis possuíam poderes relacionados aos elementos da natureza, já Zofia se relacionava a toxinas e era um poder deveras agressivo para quem o utilizava, voltando-se contra ele. Enquanto objeto de estudo, era fascinante. “No papel essa idéia já não é catastrófica?” Uma retórica antes de prosseguir: “Mas, como você bem sabe, eu não tenho essa mentalidade voltada para a maldade humana — e nem possuo a frieza necessária que aparentemente não lhe falta — portanto, lhe questiono: como você quer demonstrar isso?” As idéias de Cedric, na verdade, levavam-no para situações realmente desastrosas. “Sem ferir a ninguém nem a nós mesmos no processo.”
Deveria ser um pecado atiçar a mente agitada de Briana, pois sua criatividade tomava as rédeas de seus pensamentos com muita facilidade. O olhar curioso se fixou no semblante do amigo enquanto seu lábio inferior era mordiscado e suas mãos buscavam apoio em sua cintura. ❛ —— Você chegou a ler a pesquisa? Sobre o que se tratava? ❜ Existiam tantas coisas para que tivesse que se preocupar, mas agora já era tarde demais. Tudo que conseguia pensar era no resultado da pesquisa realizada por Frederico. Qual seria o desfecho daquele trabalho, afinal? Droga! Tentaria arrancar alguma informação da senhorita Flores pela manhã. ❛ —— É claro que passaremos a noite aqui. Ou você tem algum plano de ir para o luau? ❜ As palavras da Brunelleschi não passavam de uma brincadeira, é claro, já que as chances de que Cedric acabasse naquele evento eram tão altas quanto as chances de que ela o fizesse. E, bem, se o moreno fosse capaz de enxergar, veria o sorriso zombeiro que brincava nos lábios da princesa. ❛ —— Só não prometo passar a madrugada aqui com você, como nos velhos tempos. Não consigo mais acompanhar esse ritmo com a gravidez e preciso amamentar a Cassie. ❜ Admitiu em uma tonalidade mais baixa que a usual, permitindo que um suspiro deixasse o seu corpo. ❛ —— De qualquer forma, o senhor Lewis sabe aonde nós estamos. Na carta já deixei avisado que esperava apenas uma confirmação se devemos prosseguir com a linha de ação que temos seguido e que ainda estamos no inicio dos testes. ❜
[…] Instantes depois aquelas informações foram assimiladas com uma grande surpresa da parte da italiana, sendo necessário de algum tempo para que ela pensasse sobre as informações que eram compartilhadas. A realidade é que nunca tinha imaginado Cedric como a figura de rei. Sua amiga não duvidava que ele se sairia bem no cargo, caso fosse extremamente necessário, no entanto, sabia que que o franco-italiano precisaria aprender muito para ser útil a Polônia. Mas quais eram as chances reais de que ele chegasse a tanto? Duvidava que o homem tivesse sangue frio o suficiente para dizer sim no altar e tudo aquilo somente resultaria em um belo incidente diplomático. ❛ —— Você não vai atear fogo no quarto de ninguém, Cedric! ❜ A repreensão pareceu sair espontaneamente quando o escutou, em uma demonstração não intencional do lado materno de Briana, como se estivesse corrigindo a sua própria filha. ❛ —— Mas eu receio que já esteja na hora de enfrentar o seu pai. Ambos sabemos que um casamento desse seria um verdadeiro desastre. ❜ A começar pelo fato de que o noivo queria ser um padre. ❛ —— Diga de uma vez por todas que seguirá com a sua vida da maneira que desejar e se livre das amarras dele. ❜ Era claro que parecia mais fácil falar do que fazer, porém aquela não era a primeira vez em que o homem tentava moldar o destino de seu filho da maneira que bem entendia. E, certamente, Cedric poderia ser considerado um privilegiado por poder se rebelar sem precisar lidar com consequências que ricocheteariam em uma nação. ❛ —— Sabe que não importa o que ele tente fazer com você. Seu título sempre estará preservado e você sempre terá lugar na corte italiana enquanto estiver ao meu lado. ❜
“Uma relação direta entre o baixo rendimento de alunos e sua dificuldade de se socializar e se interagir dentro do ambiente escolar, sendo o principal a sala de aula.” Uma mania comum ao italiano era mexer em sua barba quando estava divagando. O fazia, principalmente, enquanto caminhava por suas memórias sempre intocadas pelo tempo. Detalhes auditivos, principalmente, jamais escapavam dentre as frestas de sua memória que se prendia a tudo para suprimir a visão. “Recordo-me dele dizer que, muito embora os estudantes pareçam excluídos em virtude da pouca quantidade de amigos, são incluídos no espaço por sua inteligência ou alguma característica que faça com que sejam lembrados positivamente. Já alunos com dificuldade de socialização são esquecidos pelo grupo, por não possuírem nenhuma particularidade marcante, ou são deixados de lado por serem ditos como bagunceiros ou características interessantes para o grupo.” Era algo interessante que o fizera questionar diversas vezes as formas de socialização de outros grupos e como isso poderia interferir no seu desempenho. “Planos para o luau?” Indagou evidenciando o quanto aquele questionamento o pegara de surpresa. Ora, Briana o conhecia. “Ora, Briana, estamos há tanto tempo sem termos uma conversa profunda e reflexiva assim?” Questionara-a de forma espirituosa, transparecendo a impossibilidade da situação. “Sabes bem que odeio estas festas.” A língua estalara diante do desgosto presente em si mesmo, afinal, de fato não era participativo de tais eventos. E, bene, diante do fato que ocorrera no anterior, onde diversas pessoas brigaram, preferia manter-se distante. A fala seguinte de Brunelleschi, no entanto, o incomodou parcialmente, mas por um motivo que, até então, desconhecia, mas que haveria de reconhecer mais tarde. “Logo, sem mais delongas…” A rigidez presente no semblante no italiano também refletira sua voz e, logicamente, Cedric não estava alheio ao que ocorrera, pigarreando a fim de afastar o sentimento presente — e, talvez, explicá-lo como algo presente em sua garganta. “A que passo estamos com os testes na segunda amostra?”
“Eu não irei, mas não negarei que foi um pensamento que me ocorrera…” Admitiu ao se recordar da fala de Zofia, novamente sentindo-se extremamente irritado pela fala da polonesa no encontro anterior. “Vê, ela disse que aceitaria este casamento apenas para tornar a minha vida medíocre até o fim dos meus dias, Briana. Não me julgue por pensar tal coisa! Lembre-se que somente Deus pode fazê-lo.” Acrescentou em seguida, passando os dedos por sobre o mármore gélido. Os dizeres seguintes de Brunelleschi não eram errôneos, afinal, Cedric de fato necessitava criar coragem para enfrentar o Duque de Normandia e, então, dar fim àquela situação deplorável na qual ambos se encontravam, a ponto do outro crer na possibilidade de interferir em um destino que nem ajudara a construir — visto que por anos ambos não se relacionaram por culpa do próprio Duque. No entanto, havia vezes que De Portiers via-se incapaz de se indispor para com seu pai. Ao menos, em um embate frente a frente. O poder que o Duque possuía sobre o seu filho era coerção pura e genuína que o fazia retroceder vários passos quando procurava impor-se. Era um abuso que Cedric sabia existir, mas que não sabia como sair. E, talvez, a escolha dos rumos para sua vida tomara tais proporções, fazendo-o pensar em uma escolha tão firmemente. A idéia de casamento lhe remetia a uma casa tal como a própria; uma relação, talvez, pior da que possuía com o seu pai — e que o pai evidenciara ao filho outrora: ora, quem poderia amar uma criatura deformada e grotesca? Deveria ser grato em casar-se com uma rainha e mais: deveria ser grato por ela o trair às escondidas, a fim de manter seu status. Era tal a idéia de casamento para si. Já a vida eclesiástica, servindo a Deus e servindo aos pobres, fazia-o sentir amado por algo e, no caso, por Alguém que, apesar de seus defeitos, era capaz de vê-lo interiormente. E jamais o trairia. “É algo que estou buscando, Briana. Eu poderia lidar com muitas sanções, lo sai. Mas ser obrigado a casar é algo que transcende a minha capacidade de suportar. Não seria capaz de lidar com o matrimônio como você lidar.” O homem abriu um sorriso constrangedor, embora deveras alegre, é fato, para a fala da princesa, agradecendo mentalmente, mas não sabendo como verbalizar os dizeres. De certo, sentia-se envergonhado por estar feliz e, assim, não desejava que a outra o visse daquela maneira, apesar de tudo. Também é certo que Briana era sempre capaz de fazê-lo sentir-se mais feliz em dados momentos. “E você acha que eu iria deixar a Itália?”
Com o adoecer da auxiliar da enfermeira, Lorelei fora designada a tomar seu posto por algumas horas — sempre um tempo curto o suficiente para que a tcheca pudesse manter a farsa sem grande fadiga, além de não deixar de comparecer aos compromissos que tinha como princesa e estudante. Como seus criados conseguiam tamanha flexibilidade no horário da vermelha era um mistério para Maria, fato era que era extremamente grata por contar com aquele apoio. Ante uma emergência com uma baronesa que exigira cuidados em seu quarto, a ruiva fora deixada sozinha na enfermaria com um paciente. E bastou que ela fosse buscar alguns papéis para serem assinados para que este se retirasse do estabelecimento. Saindo às pressas, ela trancou a porta atrás de si antes de buscar o nobre pelo corredor. “— Vossa graça, espere um instante… —”
Para alguém que não gostava de título, Cedric se acostumara rapidamente com o tratamento que recebia por outrem em virtude do título de cortesia que trazia consigo. O italiano parou abruptamente seu caminho, voltando-se para o som que lhe clamava, subitamente curioso para saber a motivação por detrás da chamada alheia. “Eu?” Questionou um tanto confusa. Teria deixado algo cair no chão? Teria feito algo para alguém no caminho? “Hm, caso tenha danificado algo, coloque na conta do Duque de Normandia, por favor. Ele sempre arca com tudo.” Não era bem pagar o mal com o mal, mas ainda assim era uma atitude que fazia-o se sentir um tanto incomodado, mas ainda assim o fazia.
´ ・ . ✶ Literatura e Poesia. Não era segredo a ninguém em toda Verdare que aquela era a aula favorita da princesa irlandesa. A Nova Era havia alterado muito da literatura que um dia havia existido no Antigo Mundo, mas a jovem agradecia aos deuses por terem mantido os grandes nomes em seus programas de estudo - além de considerar alguns como Arte. Havia lido muitos livros, mais do que qualquer pessoa poderia esperar dela. Conhecera inúmeros mundos através de páginas e mais páginas, vivera romances épicos pelas palavras impressas em papel, se identificara com tantas personagens e tivera sua vida alterada por tantas outras. Genuinamente gostava das aulas ministradas pelo professor, era um lugar no qual estava sempre tranquila e prestativa, interagindo a cada pergunta feita pelo professor, sem se sentir envergonhada.
Ainda lia o livro que estudavam quando o aluno atrasado abriu a porta da sala de aula. Não teria se preocupado em olhar para reconhecer o novo colega caso o professor não tivesse lhe chamado pelo nome. Em choque, Brighid levantou os olhos de sua cópia de Romeu e Julieta e observou Cedric ocupar a carteira vazia ao seu lado. Poucas semanas haviam se passado desde a fatídica tarde em que se falaram pela última vez e desde então a jovem fizera de tudo para não incomodar o rapaz. Tanto fizera para se manter afastada que agora estava literalmente ao lado dele. Se ficasse bem quieta ele não saberia que ela estava ali, certo? Esse era o novo plano da princesa, manter-se em total silêncio até o fim da aula. “ O Romeo, Romeo! wherefore art thou Romeo? ” Recitou o professor, dando inicio à aula. “ Romeu e Julieta. Talvez a maior parte de vocês já estejam familiarizados com a história de amor mais trágica da literatura. Alguém pode completar esta citação? ” O homem perguntou, observando cada um dos alunos. Talvez ciente do que aconteceria, a loira evitou encarar o mais velho. O que se provou totalmente inútil. “ Brighid! Continue, por favor. ” Ele pediu e não havia maneiras de se esquivar. Suspirou enquanto procurava a página em que aquela citação se encontrava. Ato 2, cena 2. Ela conhecia aquele livro de olhos fechados. “ Deny thy father and refuse thy name ” Começou, alterando o tom de sua voz para soar suave e menos ansiosa. “ Or, if thou wilt not, be but sworn my love, and I’ll no longer be a Capulet. ” A princesa leu cada um das palavras em seu livro, odiando o professor por ter denunciado sua presença para Cedric.
Recebera das mãos de sua professora, algumas semanas antes, um exemplar exclusivo de Romeu e Julieta, uma peça escrita no Velho Mundo --- como (quase) todas as obras que tinham acesso naquele período da história humana. O italiano, muito embora já tivesse tido contato com a obra outrora, voltou a lê-la para o trabalho que a professora passaria depois. O conde, no entanto, sempre faria a mesma careta em contato com Romeu e Julieta. Nunca compreendera como poderiam tratá-la como uma obra de amor. Entretanto, nada falara enquanto Brighid lia a segunda cena do segundo ato, atencioso aos dizeres da irlandesa, tal como os alunos presentes em sala. Quando a princesa terminara, a professora limpou a garganta, fazendo o som ser alto demais para Cedric, mas, possivelmente, comum aos outros alunos. “Então... Quem quer começar?” O questionamento proposto pela professora em direção à sala fora provocativo, um sorriso na face que Cedric poderia identificar pelo tom que ela utilizara, esperando que os demais se manifestassem. Ugo não sabia dizer se alguém havia se disposto a falar, mas rapidamente levantou a mão. “Muito bem, De Portiers” assim recebera da outra a palavra, baixando rapidamente o braço. “Eu, primeiramente, tenho uma objeção a Romeu e Julieta: é estupro. Ele tem dezessete e ela treze. Ela é uma criança e criança não namora.” Ella tinha catorze anos e Cedric se incomodava quando começavam a sexualizá-la de tal forma, como se a única coisa que Credella tivesse em mente fosse um namorado. “Não é uma história de amor. Só vermos quando Romeu começa chorando por Rosalina e depois se apaixona por Julieta depois de uma troca de olhares. Acho que não é assim que o amor é construído.” Era uma aula onde poderiam expor-se de tal forma, não é? Então o faria. “Mas, voltando para a cena, Julieta está pedindo para que Romeu negue a si mesmo para ficar com ela e também se dispõe a negar a si mesma por esse amor... Isso não é amor. Se você tem de negar sua identidade, quem você é, sua família e tudo que construiu ao longo do tempo, bem, isso não é amor. Amor não deveria te tirar coisas.” E os ombros do italiano se balançaram despreocupado com a reação de outrem, afinal, não retiraria o que disse. “Alguém mais?”
Em decorrência do susto, a Brunelleschi podia sentir com perfeição a movimentação agitada de Hércules em seu ventre, mas, sinceramente, não era exatamente aquilo que a preocupava. Ah! Não. A sua maior preocupação estava voltada mais precisamente com a sua bexiga. O aumento da sua barriga implicava em menor espaço para o sistema urinário e, bem, suas idas ao banheiro se encontravam cada vez mais numerosas. Então, como se quisesse ter certeza de que nenhum acidente havia acontecido, a princesa direcionou um rápido olhar para a própria calça, proferindo um discreto suspiro de alívio ao notar que estava tudo nos conformes. Imagine o quão constrangedor seria se não estivesse! Ahn… Não. Pensando bem, era melhor nem pensar nisso por hora. Por isso, ela dedicou a sua atenção para respondê-lo. ❛ —— Eu estou bem. Só… não faz mais isso, Cedric. ❜ Implorou baixo, tirando mais um ou dois segundos para respirar fundo e se conter de uma vez por todas da surpresa. Sua destra se elevou para que pudesse passar as pontas de seus dedos por entre seus grossos fios de cabelo para colocá-los em seu devido lugar e, sucessivamente, seus pés passaram a guiá-la para o fundo do laboratório em direção a centrifuga. Precisaria ajudar o aparelho e fazer alguns meios de cultura, antes de tirar suas amostras da estufa. ❛ —— Ah é? Pois eu ficaria curiosa para ver qual seria a sua desculpa para que eu tivesse defendido a tese nas qualificações. ❜ A princesa rebateu com um sorriso divertido crescendo em seu rosto, seu olhar sendo encaminhado para o rosto do amigo, como se ele realmente pudesse notar que era o detentor da sua atenção. ❛ —— Inclusive, meu orientador está vindo de Roma para nos fazer uma visita. ❜ E, agora, a informação veio um pouco mais baixa do que o usual, seu rosto sendo contorcido em uma breve careta. Estavam atrasados e, como se não bastasse, a vida pessoal de Briana estava um caos. Teria um belo problema para fazer com que tudo se tornasse minimamente passável até a semana seguinte e… Wow! Espere. Nenhum problema parecia ser tão sério quanto aquele que era arremessado em seu colo. ❛ —— VOCÊ O QUÊ? ❜ As palavras saíram quase como um grito espantado, mas não era como se a cientista conseguisse se conter mediante aquela loucura. ❛ —— Como você está noivo, Cedric? De quem? ❜
Repetida vezes o italiano concordara com o pedido de sua amiga, abdicando do assunto. Bom, fato era que Cedric não era tão bom quando o assunto remetia a possíveis piadas. Ou era previsível no que haveria de dizer ou era demasiadamente sem graça. “Ora, você não chegaria tão longe.” Negou com cabeça, evidenciando a descrença presente na brincadeira. “Veja bem, meu antigo professor do seminário, Frederico, iniciou uma pesquisa há mais de vinte anos, bem consistente e interessantíssima. Mas, veja, ele emprestou sua pesquisa para outra professora, de Hyacinthum mesmo, nunca mais se viu a professora ou a pesquisa... Nem para publicar. Até hoje não sei qual o resultado no qual ele chegou, pois sempre fazia um mistério acerca da conclusão.” E a resposta do italiano fora acompanhada de um sopro desanimado, estremecendo um pouco mais quando ouvira a fala seguinte da outra. “Isso quer dizer que iremos passar as madrugadas aqui?” Indagou franzindo o cenho. “Digo, certamente ele espera que apresentemos algo mais do que a análise de uma amostra. E algo bem mais sistematizado. Eu não quero ouvir discurso meritocrático de novo.” Não era culpa ambos que a demora ocorresse, embora, claro, se Briana tivesse arrumado um assistente normal --- na opinião de Cedric --- ela estaria mais adiantada que agora. Mas, claro, poderiam deixar para discutir depois a utilidade de Ugo. No momento, havia outra pauta que os dominava. “Eu também gostaria de saber.” Apontou ao voltando-se para frente, colocando os cotovelos na mesa e os dedos entre os fios encaracolados. “Zofia.” A fala fora dita em um tom baixo, como se o fato de repetir em voz alta fizesse parecer mais real do que o imaginado. “O pré-contrato está quase finalizado. Meu pai acha que é uma boa ideia... Eu seria rei-consorte da Polônia.” Tal falta o fizera franzir o nariz, visivelmente incomodado com a ideia. Poderiam apenas deixá-lo com seu sonho de ser padre em paz?! “E eu realmente preciso da sua ajuda para acabar com essa palhaçada. A única ideia que tive fora colocar fogo no quarto de Zofia, mas eu poderia começar uma guerra com isso e, sejamos sinceros, eu jamais o faria. Deus me perdoe por ter pensado tal atrocidade.” Não pela outra, mas por saber que era errôneo tirar a vira de alguém; perante a lei e perante a lei divina. “Mas, ao mesmo tempo, me pergunto se está tentando me torturar.”