Apologies...
Sextas-feira com certeza era o dia favorito de Kwon Hajoon — por conta do compromisso de longa data que tinha com o melhor amigo; o moreno ansiava a semana inteira pelo dia em que os dois se reuniam, sem outros compromissos para atrapalhar, e assistiam a algum filme ou faziam algo mais tranquilo. Minjun sabia que Hajoon não era muito sociável; sempre preferiria fazer algum programa caseiro ou ficar em casa sem fazer absolutamente nada — mesmo que o amigo de infância vez ou outra reclamava consigo de que ele tinha que sair e ver gente e, ocasionalmente, tentava arrastá-lo para alguma festa. Os dois amigos eram completamente diferentes e talvez isso fosse o que vinha solidificando a amizade dos dois desde quando eram pequenos; lembrava-se de como Minjun sempre fora uma criança agitada e praticamente arrastava Hajoon por aí para que o garoto saísse de casa; já que desde pequeno o moreno preferia a boa e velha companhia do vídeo game do que de pessoas reais. Entretanto, bem, Kim sempre fora a sua exceção particular.
Mas eram em dias como aquele que Kwon realmente queria odiar o amigo. Da primeira vez que Minjun arranjou uma desculpa esfarrapada, ele relevou, mesmo que a contra-gosto; sabia que os dois estavam cada vez mais ocupados por conta da faculdade e, em especial, o trabalho do amigo consumia bastante do seu tempo. A segunda vez, entretanto, já foi um pouco mais amarga — ele estava animado para assistir Hereditário já tinha algum tempo e os dois tinham combinado que aquele seria o fim de semana para isso; acatou, mais uma vez, mas não pôde evitar a frustração no seu tom de voz quando disse Tudo bem, Jun, a gente deixa pra próxima semana, mais uma vez. Aquela era a terceira semana seguida que Minjun furava o único compromisso que ele fazia questão de firmar e, dessa vez, mais do que chateado, Hajoon estava completamente enraivecido; ele definitivamente não era o tipo de pessoa que gostava de cobrar nada de ninguém, mas, esse era o único compromisso que ele não largaria de jeito nenhum.
Já fazia mais de quarenta minutos que estava vendo o filme em seu notebook; a vontade de assistir a um dos clássicos do terror tinha evaporado com a falta de comprometimento do outro e Kwon já nem estava achando o filme tão bom assim. Uma parte de si o fazia sentir culpa por estar quebrando a tradição e assistindo ao filme que ele sabia que Minjun também queria ver tanto quanto ele sozinho, mas a maior parte de si dizia que tinha sido Kim que o tinha traído primeiro; e talvez nessa teimosia em meio aos trancos e barrancos que acabava deixando Kwon Hajoon ainda mais bravo com o melhor amigo. Ouviu quando o mais baixo finalmente chegou, resolvendo ignorar quando ouviu o mesmo chamando pelo seu nome; sabia que era só uma questão de tempo até o grande conflito dos dois, mas, sentado em sua cadeira gamer e enrolado em seu cobertor preferido, preferia pensar que se ele só o ignorasse, talvez o amigo não o viesse perturbar. Apertou os olhos com força ao ouvir as desculpas de Kim, pensando duas vezes se lhe daria uma resposta digna ou não. “É sempre a mesma coisa com você, Kim Minjun”, começou, a voz claramente cansada e, mesmo que não estivesse pronto para uma briga, não aguentava mais guardar as coisas para si. “Eu sei que eu não sou uma prioridade na sua vida, tá bem?”, a mágoa era evidente nos olhos do moreno, então ele preferia continuar olhando para o monitor para evitar ver o olhar arrependido que o outro com certeza estava direcionando a si. “Me deixa em paz, na boa”, finalizou, puxando o cobertor até o queixo e fixando seus olhos na tela do monitor.
No momento em que Minjun ouviu o melhor amigo lhe chamar pelo nome completo seu coração foi no chão. Tinha completa noção do quanto estava errado e não tinha nem ideia de como iria compensar e resolver toda aquela situação, porque desculpas não iriam mais adiantar. Ele tinha total noção de quanto a noite de sexta era importante para os dois, mas principalmente para o melhor amigo. Minjun estava escondendo de Hajoon, tudo o que estava acontecendo em sua vida, todo o estresse e tristeza que se acumulada cada dia um pouquinho mais em seu peito, com medo de incomodar o mais novo com seu chororo e seus dramas, mais uma vez, por isso descontava nas bebidas e em festas com pessoas que com sorte nunca mais ia ver na vida.
Diferente de Minjun, o colega de apartamento quase nunca expunha seus sentimentos, nem quando estava realmente chateado com o mais velho, então o Kim aprendeu a decifrar os seus sentimentos pelo tom de voz do amigo. Quando ouviu a frase, dita de uma forma tão dolorida sentiu seu coração ser esmagado e quebrado em mil pedaços. O seu pedacinho de paraíso, o único lugar onde tinha paz não se sentia da mesma forma. O mais velho estava se sentindo um lixo por não conseguir nem por um segundo retribuir a sensação de segurança e de se sentir amado, da mesma forma que o mais novo o fazia sentir. Se sentiu a pior pessoa do mundo por não conseguir assegurar e demonstrar o quanto a amizade, a presença de Hajoon eram importante pra ele. A verdade é que para o Kim, as noites de sexta eram mais sobre estar na companhia do Kwon do que ver o filme propriamente, mas ultimamente sentia que mais estava atrapalhando a noite de filmes do amigo do que ser uma boa companhia.
Eu sei que não sou uma prioridade na sua vida.. Me deixa em paz, na boa. Essas frases ficaram ecoando na cabeça de Kim, que paralisou no local onde se encontrava, não conseguia falar, nem se mover, era como se a última coisa boa que ele tinha na vida dele tivesse acabado de ser destruída, e sabia que era puramente por culpa sua.. idiota!!! pensou. Sua única reação foi obedecer o amigo sem tentar responder.. sabia que aquele não era o momento. Nunca na sua vida Minjun correu tão rápido quanto na hora que se direcionou ao seu quarto. Estava completamente envergonhado das suas ações, e não fazia ideia de como reparar o seu erro e conseguir a única parte boa da sua vida de volta, e faze-la se sentir tão amada como ele sentia. Se jogou na cama se escondendo embaixo do cobertor, como se tentasse se esconder da vergonha e dos pensamentos ruins que o invadiam. Chorou..chorou como nunca antes havia chorado, chorou com toda força que tinha em seu peito, um choro dolorido, de pura vergonha, arrependimento e tristeza, um choro silencioso, mas na verdade estava gritando no seu interior. Se abraçava numa tentativa de se sentir minimamente protegido de todos os sentimentos. Quero seus braços ao meu redor.. pensou.
@sattclites
















