A garota agora se encontrava do lado de fora da livraria, guardando calmamente o livro recém-comprado no compartimento da Ducati. Kristen podia ser a pessoa mais descuidada de todo o universo, mas, em alguns raros momentos, aquela situação mudava. A morena adorava livros antigos, com páginas amareladas e a capa levemente surrada, pois não precisava tomar muito cuidado com eles. Porém, aquela era uma edição especial e ainda por cima nova - tomaria todo o cuidado do mundo com ela.
As ruas estavam um pouco mais movimentadas do que quando chegara à Nova Library - provavelmente o pessoal de Hiddenwood estava indo fazer compras ou almoçar fora, como geralmente fazia nas tardes de sábado. Com tantos restaurantes naquela cidade minúscula, Kristen tinha aquela teoria de que absolutamente ninguém cozinhava em casa. Para ela, pelo menos, fazer comida em casa era uma perda de tempo. Lógico que não era porque ela não sabia, nem porque queimava 100% dos pratos que tentava fazer. Não era esse o motivo. Definitivamente não era esse o motivo.
Almoço. Naquele momento, aquela palavra não tinha o menor significado para ela. Não estava com um pingo de fome, e não pretendia almoçar tão cedo. Provavelmente pularia aquela refeição e partiria direto para o café da tarde, como fizera nos dias anteriores. Não era como se quisesse emagrecer. Ela não dava a mínima para dietas, achava todas elas uma idiotice. Também não era como se estivesse doente - se estava, não sabia. Deu de ombros. Simplesmente não estava com fome, então não iria almoçar, e ponto.
Colocou o capacete e subiu na moto, ouvindo logo aquele barulho irritante e maravilhoso do motor. “Ok, amor da minha vida. Vamos pra casa.” Não sabia se falar com motos ou quaisquer objetos inanimados era algo normal, mas, para falar a verdade, ela não dava a mínima. Apenas se preparou para o longo trajeto que viria pela frente - considerando que o Elysium ficava do outro lado da cidade.
Porém, uma voz familiar a impediu de tirar a moto do lugar. "Senhorita Kristen", Lulu vibrava e apitava de dentro da bolsa da morena. "Notei que a senhorita não está se alimentando corretamente nos últimos dias." Pronto. Era só o que me faltava, pensou. "Olha, Lúcifer. Lembro muito bem de ter comprado um celular, não um psicólogo." Respondeu, fazendo questão de continuar seu caminho para casa. Ela adorava o sPhone, mas detestava que dessem palpite sobre sua vida pessoal e sobre o que fazia ou deixava de fazer. Não estava acostumada com pessoas - ou coisas - cuidando dela, então não sabia como reagir quando isso de fato acontecia.
"Senhorita, por favor. Isso é para o seu próprio bem. Sugiro que vá ao Bistrô no centro da cidade, em frente ao hotel Spring Falls." Insistiu o celular, fazendo-a revirar os olhos. A persistência dele já estava começando a irritá-la. Ele era uma droga de uma máquina. Por que se importava tanto? "Ah, quer saber, tanto faz. Se eu fizer isso, vai parar de me incomodar?" Após uma vibração - que ela entendeu como um “sim, senhorita" -, a garota deu meia-volta, seguindo em direção ao local onde supostamente era o tal bistrô.
Depois daquela garota, não houveram muitos clientes na Nova Library. O que ele poderia fazer? Era sábado. E pessoas nunca mais iam à livrarias. O próprio Brandon não era fã delas. Pensou que poderiam ter mais atrações ou coisas novas que atraíssem o público, e o rapaz poderia até desenvolver aquilo de alguma forma que ajudasse em algum tipo de promoção, porém tinha muito sono e odiaria ter que pensar um pouco. Além do mais, ele não ligava para aquele tipo de coisa. Que aqueles caras falissem. Passou os vinte minutos que se seguiram entre desencaixotar livros e colocar os poucos que encontravam-se espalhados nas mesas e cadeiras de volta na estante.
Em alguma parte disso, acabou dormindo. Não soube por quanto tempo, nem como. Só acordou com uma cutucada no ombro, e descobriu que estivera de olhos fechados em uma das poltronas vermelhas confortáveis com uma pilha de livros em seu colo por mais minutos do que gostaria de admitir. Uma linha de saliva também descia pelo canto da sua boca, e Brandon logo tratou de limpá-la antes que alguém percebesse qualquer coisa. Finalmente tratou de se levantar e encontrar o seu companheiro de trabalho encarando-o como se tivesse feito algo simplesmente horrível.
"O que foi?!" O rapaz ergueu os braços, como se fosse inocente de todos os pecados. "Não é como se tivesse milhões de clientes por aqui nessa espelunca." Reclamou, para descobrir que estava completamente errado. Parecia mágica, tinham pessoas em todos os lugares, conversas, pessoas fazendo barulho, tirando todos os livros que ele havia colocado na prateleira! Pelo amor de Deus, o que estava acontecendo?! Virou-se para o homem que havia lhe acordado, com a maior expressão de raiva e surpresa em seu rosto. "Mas que merda aconteceu aqui? Está distribuindo merdas de camisetas grátis e não avisou?"
"Cara", ele disse, com aquela voz arrastada que Brandon tanto odiava. "é hoje o evento. Eu disse pro chefe que precisávamos disso." Semicerrou os olhos, quem esse cara pensava que era? Primeiro vinha acordá-lo, depois descobria que ele tinha falado com o chefe para produzir eventos que lotavam o lugar, consequentemente aumentando o trabalho de todos. Teve vontade de socá-lo ali mesmo e de alguma forma se controlou. Respirou fundo. E teve que trabalhar, mesmo que não gostasse daquilo no fundo de sua alma. Aquele cara havia usado a ideia que ele vinha pensando brevemente, mesmo que Brandon não fosse colocá-la em ação, e provavelmente receberia uma promoção ou um aumento por isso. Era engraçado o modo como o mundo parecia conspirar contra o rapaz, e ele simplesmente começava a andar passos sonolentos em direção à pequena multidão.
Havia um idoso que viera pedir-lhe um livro. Parecia ter no mínimo uns cem anos, sua aparência física terrívelmente debilitada. Brandon não se surpreendeu quando o velho lhe pediu um livro de auto-ajuda, deduziu que era provavelmente sobre como se alimentar melhor a partir do título "Como Se Alimentar Melhor". Insultou o velho mentalmente, além de também insultar os autores do livro, insultar o seu chefe, e os seus companheiros de trabalho. Jogou o livro nas mãos do idoso assim que o achou, e após a compra, dispensou o velho com quaisquer palavras que era obrigado a dizer. E então partia para mais um cliente, sonolento e entediado, pois sua tarde foi praticamente a mesma coisa.