A ideia que tivera sobre Lydia mais cedo àquele dia provou-se completamente errada. Ela não parecia disposta a afastar-se deles, sorria até. O sexto ano fora um bom ano, Strike conhecera Frances e Lydia, desenvolvera uma amizade real e não mais em sua zona de conforto. Uma zona composta pelas pessoas que crescera vendo. Amelie, Charlie, Helena e Alex eram essas pessoas. Gostava de conhecer com quem estava andando, por isso até o ano passado andara com quem exclusivamente participara de sua infância. No entanto em uma fatídica aula de Runas Antigas, onde Amelie amanheceu doente o suficiente para passar o dia na Ala Hospitalar, viu-se obrigado a fazer dupla com outra pessoa. E fora aí que conhecera Frances, em uma grande e entediante aula de Runas onde passaram a maior parte do tempo discutindo por bilhete sobre seus livros favoritos. Conhecera Lydia por conseguinte quando jogava xadrez no salão comunal com Frances. Depois de duas partidas perdidas para a garota quieta e concentrada, Luke decidira que seria uma boa amizade.
A fala prolongada de Longbottom tivera fim após ter anunciado o sorteio das Casas. Uma onda de pequenos bruxos invadiu o grande salão, aglomerando-se perto da mesa dos professores e em fila como ordenado. Um banquinho fora posto ali na frente junto ao chapéu seletor. “Três galeões que hoje teremos quatro garotos corajosos. “ Luke remexera no bolso da calça e encontrara três galeões, colocou-os a frente do grupo com um sorriso presunçoso quando Frances anunciou que teriam somente três àquele ano e o mesmo número de garotas. Há uma semana, boa parte daqueles nativos primeiranistas estavam no Olivanders comprando suas varinhas. Cada varinha demonstra a personalidade de seus donos, era um tanto difícil imaginar qual seria de sua casa, mas Luke fazia um esforço.“Para animar então sua volta às aulas…” mais uma vez com a mão no bolso das vestes, o garoto trouxera a vista um pacote de lesmas gelatinosas. “Toma isso aqui, vai te sustentar até o banquete. ” Entregara o pacote para Lydia com um sorriso no rosto. Não estava com tanta fome, comera o suficiente dentro do vagão do expresso como sempre fazia. Era um garoto grande, por isso se alimentava por ele e por sua prima. “Não precisa se preocupar tanto com os Slytherins, eles ainda estão um tanto ofendidos pela partida onde a Potter Raven estraçalhou seus melhores jogadores. Isso me faz sentir falta do bom e velho Old Potter, ganhávamos a taça com esse cara por aqui. ” Referia-se a Lily e depois à James, o último já se encontrava formado e trabalhando no Ministério como dizia todos os jornais bruxos.
Por ser meio-sangue, Luke já estava mais do que familiarizado com a tecnologia trouxa, crescera mexendo em tablets e televisões. Então o fator que mais causou estranhamento quando chegara em Hogwarts foi ver a ingenuidade de alguns bruxos diante as coisas trouxas. Para ele, qualquer um primeiro aprendia a desbloquear a tela de um celular e depois aprendia a falar. Chegar naquele enorme castelo e ver que muitos ainda só escreviam cartas o fazia ver como a segregação ainda estava presente em ano de 2023. Tentara ajudar Lydia com aquilo, a dera um celular e explicara as coisas básicas, mas não devia realmente ter explicado direito por ver o estranhamento em suas feições.
Realmente não fora respondido por causa da alternativa mais louca que viera em sua cabeça: Lydia não sabia responde-lo. Por nenhuma rede social, se é que tinha isso, ou mensagens comuns de texto fáceis de serem enviadas e recebidas. “Defeito é você não saber mexer nele ainda, Lyd. Eu te mandei mensagens as férias inteiras, não desisti por sequer um segundo imaginando que você olharia para a tela do celular e veria ‘Strike’ no topo da mensagem” revirou os olhos em falsa exasperação. “Você terá um curso intensivo comigo e com a Frances sobre como mexer em aparelhos eletrônicos. Não é tão difícil quanto parece, não faça essa cara. ” Se até mesmo um trouxa de três anos de idade conseguia manusear com perfeição um tablet, uma jovem de dezessete poderia aprender ainda com mais facilidade. “Vai entrar babacas e menos babacas, vai ver. Se o aluno já não chega um babaca, ele se torna depois de duas semanas. E essa é minha teoria para toda Hogwarts. Saibam que você também é babaca, mas em um nível quase imperceptível de babaquice. Ou quem sabe receberemos uma criatura fantástica como os que aparecem em nossos livros de defesa, huh. “ Arqueou as sobrancelhas em animação, desde seu primeiro ano sonha em encontrar uma das criaturas perigosas que aparecem em seus livros. Quando se tornou um chacal, até encontrara algumas na floresta, mas nenhuma em forma humana.
O costume de deitar-se sobre seus braços escondendo seu rosto era algo extremamente comum e já característico da aluna da Gryffindor. Lydia Brown adorava se esconder. Tentava fugir tanto de seus problemas, de sua condição, de sua própria vida que algumas vezes achava que se pudesse se esconder tempo o suficiente debaixo de seus braços poderia deixar de existir. Obviamente nunca dera certo e ela levantava o rosto tendo que encarar todos aqueles olhares estranhos. Sim, a maioria de pessoas em Hogwarts não passava de estranhos para a Gryffindor. Lydia não gostava de deixá-los envolver em sua vida. Nunca gostara de deixar ninguém se aproximar o suficiente. Era como se as pessoas sempre conseguissem enxergar através dela, ou se não vissem ela como algum tipo de fantasma poderiam encará-la a ponto de enxergar sua alma por seus olhos. Era esse o medo da jovem Brown. Que as pessoas descobrissem sua alma, seus segredos. Os poucos amigos que ela tinha...ela não poderia deixar eles saberem. Não se ainda queria que eles continuassem sendo seus amigos. Como poderia encarar seus dois colegas que estavam ao seu lado se eles ao menos soubessem da verdade. Lydia vivia doente, e essa era a verdade que ela deixava eles saberem. Ela estava realmente doente se contava para algo.
Virou um pouco o rosto para poder ver Luke puxar o dinheiro de seus bolsos. Lydia por mais que não usasse roupas tão novas, ou fosse do tipo que ostentava as coisas não era alguém de classe baixa. Seus avôs afinal faziam parte de uma linhagem pura de sangue com bastante lucro em seus negócios. Uma pena que Lydia nunca pode passar um tempo com os mesmos para entender o que faziam, e sua mãe possuía suas economias. Ainda assim, a garota não se atrevia a tirar mais do que o necessário do banco. Sempre imaginava que haveria um dia que o Ministério a expulsaria de vez de Hogwarts e do mundo bruxo. Imaginava nem mesmo Greg a querendo, e então ela teria que fugir dali. Seu dinheiro era destinado para isso: uma emergência. No máximo teria dois galões em seu bolso, e vinte sicles. Levou cinco sicles a mesa. “Isso é tudo que posso apostar hoje, Luke. Mas se você perder eu ficarei feliz em aceitar seus galões.” Uma especie de sorriso sem graça apareceu no rosto da garota. Lydia não possuía vergonha de sua condição, mas ainda assim era um pouco sem graça por conta disso. Aconchegou a cabeça novamente agora tendo mais espaço para observar as outras casas. Não havia dúvidas que Hogwarts estava lotada. Todos os alunos ali se aconchegando, as velas derretendo, mas nunca realmente queimando ninguém. O nervosismo por conta dos novos colegas. Deveria ser fácil não ter problema nenhum como alguns alunos ali. Se preocupar em apenas se divertir durante aquele ano. Se a cabeça da garota relaxasse para aproveitar, mas Lydia sempre tinha seus muros levantados. Encarou as lesmas gelatinosas que Luke ofereceu a mesma. Lançou um olhar desconfiado para o amigo. “Isso aqui é saudável? Trouxas acham estranhos sapos de chocolate, mas lesmas gelatinosas são super normais? Nunca vou entender.” Fechou seus olhos e colocou uma para dentro de sua boca forçando seus olhos e sentindo um gosto azedo enquanto mastigava as mesmas. “Acho que vou ficar só com essa mesmo, Luke.” Deu mais uma vez um sorriso gentil para o amigo que havia colaborado com a mesma durante aqueles minutos. O garoto então começou a falar sobre quadribol e tudo que Lydia pode fazer foi esconder seu rosto novamente e deixar o garoto falar.
Não que ela não entendesse o esporte. Greg era um jogador profissional e explicou para ela durante muito tempo até mesmo encorajou a garota para tentar alguma vaga no time para que ela pudesse relaxar um pouco, mas aquele tipo de esporte não funcionava para menina. Lydia sentia-se somente relaxada quando sentava em frente ao piano e tocava. Sua mente fechava completamente, e ela poderia simplesmente esquecer de tudo e concentrar-se em sua música. Enquanto tocava ela por alguns minutos esquecia que era um monstro e até mesmo chegava a considerar que poderia estar fazendo algo belo com suas mãos, mas nunca durava para sempre. Lydia queria poder saber um pouco mais da tecnologia para não parecer tão boba enquanto Luke tentava explicar. A única coisa que ela realmente aprendera fora como jogar alguns daqueles jogos que estavam no aparelho e realmente ajudavam a mesma a se distrair.
Uma risada mais natural escapou por seus lábios. Então era aquela a sensação de estar de volta em casa. Claro, o apartamento de Greg agora também era sua casa. Aquele lugar era muito como um lar para ela. Um lugar para retornar, mas Hogwarts também era sua casa. Aquelas pessoas ao seu lado que não haviam desistido dela e estavam rindo. Eles eram seus amigos. Não tinha como ela conseguir afastar mais eles, a menos que eles soubessem a verdade sobre ela. Por isso ela nunca correria aquele risco. “Eu disse que sinto muito, Luke? Perdão. Eu só...não fazia sentido ficar apitando e então tinha que colocar uma senha e procurar da onde estava vindo o barulho e tem tantas coisinhas ali, e eu nunca saberia de onde era. Então acho que ficou tudo preto e eu não mexi mais. É difícil sim, fácil são matérias como poções.” Deixou um sorriso maldoso aparecer em seu rosto. “Brincadeirinha.” Sabia que não eram muitos alunos que partilhavam do mesmo gosto que ela. Tudo bem que em seu caso era mais uma necessidade, mas ainda assim ela adorava a matéria. O entusiasmo de Luke com os alunos novos e animais era realmente como de uma criança esperando pela sobremesa. Lydia apenas revirou os olhos. “Você tem razão. Está incrivelmente certo sobre só termos babacas aqui, mas acho difícil alguma criatura entrar em Hogwarts. O Ministério é bem controlado como permitir qualquer...tipo de criatura ficar no castelo, então acho que não vai ser dessa vez.” Essa era uma das vezes que ela tentava afastar os rumores. Sim, ela sabia dos rumores e fazia tudo para lutar contra eles. “Está já acabando. Só falta o diretor terminar de falar e logo jantaremos!” Passou a mão sobre seus braços tentando se aquecer do frio que sentira. O calafrio sempre a acompanhava como efeito colateral, e a lembrou que era hora de seu remédio. Lydia tirou de sua capa um pequeno frasco de vidro. Sua dose diária que ajudava a controlar os efeitos da lua. O problema era que sempre causava fadiga na mesma, mas era uma das condições para que ela continuasse ali. Percebeu que o amigo iria notar. “Minhas vitaminas. Acredita que a enfermeira contou para Greg que eu só sou dessa cor e ando tão doente assim por falta de vitamina? Agora ele fica de olho nessas coisas também.” Colocou no copo a sua frente e tomou com um pouco de água que tinha já nos copos a sua frente enquanto esperava pelos comentários sobre os alunos novos.