A noite já tinha descido pesada sobre a rua, tingindo o concreto de um brilho úmido sob a luz amarelada do poste, enquanto o bar continuava vivo logo atrás — vozes embaralhadas, copos tilintando, risadas atravessadas por uma tensão constante. Sentado na calçada, com as costas apoiadas na parede áspera, Capitão levava o cigarro aos lábios com uma lentidão quase ritualística, como se cada tragada fosse menos sobre vício e mais sobre manter a mente no lugar. A fumaça subia em espirais preguiçosas, desfazendo-se no ar abafado da noite, e por alguns segundos ele conseguia fingir que tudo aquilo — os mafiosos, as dívidas, os erros — estavam longe. Então vieram os passos. Firmes, pesados, inconfundíveis. A luz do poste foi parcialmente engolida por uma sombra maior antes mesmo que ele levantasse os olhos, e quando o fez, lá estava Jaguar, preenchendo o espaço com sua presença incômoda e inevitável. A sobrancelha arqueada, a expressão entre interrogativa e levemente desdenhosa.
— O que você tá fazendo aqui fora, velho?
Capitão não respondeu de imediato. Apenas retirou o cigarro da boca e o ergueu entre os dedos, indicando o óbvio, como se aquilo bastasse. Jaguar continuou olhando, sem comprar a resposta tão fácil, o silêncio se estendendo entre os dois até que ele se sentou ao lado, ocupando espaço como sempre fazia, como se o mundo tivesse que se ajustar a ele.
— Você tá esquisito ultimamente… — continuou, a voz mais baixa, mas não menos direta. — Aéreo. Nem se estressa mais com minhas piadas.
Capitão soltou a fumaça devagar, os olhos caídos em algum ponto perdido do chão. Não disse nada. E aquilo dizia demais. Jaguar observou, o olhar endurecendo por um instante antes de suspirar, virando o rosto pra frente enquanto abraçava as próprias pernas.
— Se tiver algum problema, eu resolvo — disse, simples, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Dinheiro, gente enchendo o saco… é só falar.
Capitão virou o olhar de leve, apenas o suficiente pra encará-lo de canto. Como explicar que muitos dos problemas tinham o nome dele? Que estavam ali, ao seu lado, respirando o mesmo ar? Não dava. Não naquela noite. O que escapou foi só um riso baixo, seco, quase sem força, mas real o bastante pra quebrar o padrão dos últimos dias.
A reação veio imediata. Jaguar se virou bruscamente, soltando as pernas, os olhos cravados nele como se tivesse sido atingido por aquilo.
Capitão balançou a cabeça, um resquício de diversão atravessando o cansaço, e respondeu com a voz rouca:
— Tá agindo igual quando era pequeno.
Jaguar franziu o cenho, claramente incomodado.
— Do que você tá falando?
— Quando você nem batia na minha cintura… — Capitão continuou, levando o cigarro de volta aos lábios. — E ficava dizendo que ia crescer pra ser meu herói. Que ia cuidar de mim, resolver tudo.
O bufar veio imediato, acompanhado de um leve desvio de olhar.
Os braços se cruzaram numa tentativa falha de parecer indiferente, mas o rubor discreto nas bochechas entregava mais do que ele gostaria. O silêncio voltou a se instalar entre os dois, mas dessa vez não era pesado.
Capitão voltou a olhar pra frente, tragando mais uma vez, quando sentiu o peso em seu ombro. Jaguar tinha se inclinado, ainda de braços cruzados, apoiando a cabeça nele como se aquilo não significasse nada. Era quase cômico, um homem daquele tamanho, todo força e postura, usando-o de apoio como fazia anos atrás. A expressão dele era fechada, distante, como se estivesse apenas… ali. Mas o leve roçar da cabeça contra seu ombro contava outra história.
— Não pensa besteira — murmurou Jaguar, quase inaudível, sem levantar a cabeça.
Capitão soltou um sopro baixo de riso pelo nariz, os olhos suavizando por um instante.
O silêncio voltou mais uma vez, mas agora era confortável. A fumaça continuava subindo devagar no ar, e Afonso permitiu que um sorriso pequeno, cansado, mas sincero atravessasse seu rosto. Porque, no fim, aquele garoto — homem, problema, abrigo — ainda era, ao mesmo tempo, a melhor e a pior coisa que já tinha acontecido com ele.