Deus é um desespero que começa onde todos os outros acabam.
Emil Cioran
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Deus é um desespero que começa onde todos os outros acabam.
Emil Cioran
I am in control.
Control is an illusion.
I am in an illusion.
O esporro que levaremos enquanto nação é tão grande que esse imenso silêncio que o precede ensurdece, alucina e impregna todos os cantos com cheiro de naftalina. O horizonte é uma parede branca que devemos rabiscar com repúdio e revolta. Lucas de Souza Oliveira 18.05.16
Quando recai o medo
Não encontrei refúgio na música, não consegui abrigo na poesia, estou nu na chuva fria de pessimismo que torrencialmente cai sobre mim. Afogo-me na fúria da noite veloz. Lucas de Souza Oliveira 18.04.16
“I think of you in my dreams You never know, just what you mean, to me To me”
Worry about you - Ivy
mares tranquilos nunca fizeram bons marinheiros...
todo mundo meio perdido, nesse furacão de eventos, tentando se segurar na popa do enorme barco à deriva que se tornou a realidade.
tô no meio do oceano afundando, só.
Lucas de Souza Oliveira
11.03.16
O macaco é um animal demasiadamente simpático para que o homem descenda dele.
Friedrich Nietzsche
Os nomes imortalizados em Yad Vashem nunca serão esquecidos. As dores do holocausto ecoam na história. Maus conta uma necessária e brutalmente comovente.
Quando ela me resgatou do abismo
imensidão em meio ao caos, desventura, desassossego, reflexos de sombras, sutis tormentos, maldizeres, tortas diretrizes, cansaço e além...
quando Thamires chegou, fincou o desejo de que queria entrar na minha mente, descobrir-me, desvendar-me, atar em mim uma pequena passagem para que sempre que quisesse acesso poder fazer morada.
nos primeiros tempos modulou teorias, fez complexas analogias, disse ter encontrado a rota e um caminho seguro para que enfim pudesse me conhecer a fundo, bradou que finalmente poderia se perder em mim para me encontrar.
travamos sérias disputas, recorremos a retórica, refundamos pensamentos, cortejamos um ao outro, mergulhamos juntos em debates sobre a origem do universo, sobre histórias do sem fim, sobre quando ainda os bichos falavam, civilizações distantes, deuses já mortos, teorizamos sobre a vida, sobrevoamos planetas, num ritmo lento que ora era interrompido pelo meu detestável mau humor, ora pela pontual dor de cabeça que cismava surgir nos momentos de dissidia.
nos azuávamos mutuamente, recorríamos aos santos, aos pintores das capelas, sempre voltávamos as músicas clássicas que nos embalava num sono que até hoje revigora, e foi em meio a esse redemoinho de exposições de ideias que nos modulamos um ao outro.
ela tem a argúcia dos sábios, dos cientistas e poetas, observa do seu reino monera todos os meus destinos, tem a doce capacidade de perscrutar todas as contrações dos meus músculos, me fita e aponta minhas veias.
dia desses espreitou todas as minhas reações nas canções da nossa história, vasculhou meus míseros acintes de alegria, teve também uma farta risada ao ouvir sobre o bardo judeu romântico de Minessota, num voyeurismo que ora me assusta, ora me acostela junto a ela e também me trava sobre todas as outras coisas a fazer.
se na vida os meros mortais se unem com a intenção de além do afeto encontrar uma testemunha para nossos atos, ela me faz bem mais do que a companhia de uma espectadora que vibra, ela é a própria parte de mim, tem total controle da minha loucura, pode se arvorar em falar por mim e dizer pragas em meu nome.
se ela me solicitou que um dia tivesse acesso ao meu intrépido universo, hoje compreendo ser dela todo o meu cosmo, a despeito de todos os meus incontáveis erros, das minhas falhas e da minha apressada mania em confessar minha derrota.
ela é quem melhor olha pra dentro de mim e me faz refletir sobre o presente, quem me afaga e faz meu riso ganhar cores, ela me mostra quem sou, religando-me umbilicalmente ao menino sonhador da minha infância, é ela quem melhor me ampara politicamente.
se sou um rei infante coroado em castelos e bibliotecas, ela é minha rainha e dona de mim, regente do meu infinito particular, soberana da minha vida.
fazemos a festa, somos o mundo, sempre fomos bons de conversar...
Lucas de Souza Oliveira
Primavera/2014
Imperfeições
estamos todos danificados, em processo de ruína, numa decadência que dia a dia nos coloca cada vez mais nus e sem proteção nesse mundo.
tantas vezes esperam que sejamos fortes, que nosso corpo imponha uma proteção que nunca seremos capazes de ofertar, é tão incomensurável essa trajetória de nos exigir inflexíveis, queria muito uma alternativa sólida para essa falsa postura valente e bravia.
o que acontece é que estamos cercados de dor e angústia, a solidão nada tem haver com as companhias que nos cercam, embalamos nossas frustrações num invólucro de vazio, mas por fim estufamos o peito e encaramos o mundo com a resiliência de crustáceos nas pedras.
Lucas de Souza Oliveira
28.02.16
A Piedade Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida as senhoras católicas são piedosas os comunistas são piedosos os comerciantes são piedosos só eu não sou piedoso se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio bóia? por que prego afunda? eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de fortes dentaduras iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho todas as virtudes eu não sou piedoso eu nunca poderei ser piedoso meus olhos retinem e tingem-se de verde Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos
Roberto Piva
Felicidade é só questão de crer
tudo naufragou quando você insistiu para que eu me mantivesse feliz, para que eu contornasse as frustrações que iam se sucedendo e não mais me minasse em relação a expectativas, a princípio falseei impressões, sorri quando os fogos explodiram no céu, insisti num novo mundo possível, mas retornaram amiúde as inquietas sombras, vindas de não sei onde para se arvorar em interromper nossos sorrisos, as dúvidas e receios avizinhavam nossa rota de modo cada vez mais intenso.
é incontornável a ideia de que a felicidade é um objetivo raro demais para ser pleno e permanente, momentos que restauram mas que nos depenam como uma droga ruim, a felicidade é uma flecha que o cupido acerta no cotidiano, nosso dia a dia nunca foi escorado na ideia de que tudo pode acabar. pequenas turbulências nas esquálidas esquinas da vida.
o horário de verão acaba, o carnaval acaba, o gás acaba, o brilho nos olhos acaba, só nossa intuição de superar e ir além é infinda.
Lucas de Souza Oliveira
27.02.16
Zika
A poesia é, de fato, o fruto de um silêncio que sou eu, sois vós, por isso tenho que baixar a voz porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma fala ao revés da fala, como um silêncio que o poeta exuma do pó, a voz que jaz embaixo do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo baixo quase sem fala em suma mesmo que não se ouça coisa alguma.
Ferreira Gullar.
“The devil knows the bible like the back of his hand”
(Misery is the River of the World - Tom Waits)
Nosso destino não está nas estrelas
instalou-se um modismo zodiacal tão grande nas pessoas que os erros e defeitos são confortavelmente justificados como uma condição inata dos signos.
Lucas de Souza Oliveira
19.02.16
Indeléveis marcas
risquei todos registros do teu nome no escritório, rasguei cartas, dispensei poemas, escondi a lista telefônica só pra não cruzar com a sua graça.
precisava derrubar uma floresta inteira pra dar cabo dos corações cravados entre os galhos das árvores, nossa distração nos domingos de parque.
mas tudo voltava como um longo sussurro no ouvido.
Lucas de Souza Oliveira
19.02.16