Tem Conserto, e a Representação da Dor na Arte.
Clarice Falcão lançou o álbum Tem Conserto em 2019, e segundo o Spotfy este foi o álbum mais tocado do ano no meu celular. Clarice traz uma proposta sonora com letras que falam de Ansiedade e Depressão com aquele toque humorado que a cantora sabe abordar em suas letras, além disso, o álbum não deixa de ser potente e extremamente poético.
Minha cabeça é pior
Durante a noite
Por que ela fala mais alto
E tem muitas certezas
(Minha Cabeça - Clarice Falcão)
Quem nunca se pegou com o corpo cansado, e apesar do dia cheio a cabeça continua a produzir de milhares de imagens sobre desejos futuros, medos, incertezas e até sobre aquela(s) pessoa(s) que estamos afim? Pois é, não é fácil manter a “cabeça no lugar”, mas graças à arte podemos ter um apoio de derivadas criações para nos identificarmos, inspirarmos, contextualizar e até detestar. Certamente a gama de artistas é extensa, com propostas únicas e para todos os gostos.
Eu gosto muito da sensação de saber o que inspirou proposições artísticas, ou o que se passava com o artista que o levou a criar tal obra. Clarice afirma em uma entrevista para o Canal Agenda que a música Esvaziou que está no álbum Tem Conserto foi feita para um amigo que morreu. Até então eu tinha outra experiência com essa música, e após essa fala de Clarice, automaticamente ao ouvir a música eu me pego chorando sem parar com a forma que a letra traz esse sentimento da artista e como ela decidiu abordar a sua dor. Em resumo eu tinha uma perspectiva da música que já mexia comigo, mas ao saber da ação e da sensação que levou a sua criação eu consegui adentrar de outra forma no que a música agora me passa.
Você era logo demais
Era cedo demais
Só sabia viver se hoje fosse amanhã
(Esvaziou - Clarice Falcão)
Na semana passada revisitei o tal álbum, e toda vez que o ouço sinto-me inspirade, e representade por esse compilado de músicas que falam sobre não querer levantar da cama por dias seguidos. Eu nunca tinha ouvido algo tão potente e sincero (em minha opinião), que me levou a questionar sobre a depressão, e esse misto de sentimentos que transformam o nosso corpo.
Pinturas e Poesias
Certamente, a lista de artistas e obras é imensa, afinal, a depressão está presente por quase metade do caminho da arte, não dá para saber com exatidão todos os sentimentos que o artista emprega ao criar sua obra. Em muitos casos a obra não necessariamente vai retratar essa depressão e dor, mas através dela podemos conhecer o artista e sua história e o que levou a sua criação. Além disso, temos a possibilidade de atiçar nossa curiosidade e conhecer novos nomes, buscar esse lugar da arte que mescla a dor desse misto de sentimentos e ainda assim achar uma poesia que para cada um será única, independente do seu criador e até mesmo de quem a admira. Entender essa forma de contextualizar situações e proposições é um ótimo caminho para entendermos boa parte da história e como muitas questões que hoje são abordadas com um pouco mais de cuidado e atenção (tendo até um mês dedicado a um olhar para saúde mental) eram tratadas com violência, abusos e descasos em outros períodos históricos. Porém, assim como várias outras questões sociais, ainda precisamos trabalhar muito para que este olhar, cuidado e importância da saúde mental não se resumam apenas a um mês do ano.
A seguir, resumidamente, trago alguns nomes e obras como um exemplo visual para agente poder entender esses contextos históricos que eu mencionei.
Florbela Espanca
Inicio com Florbela Espanca, poetisa portuguesa que morreu bem jovem, aos 36 anos. Em seus escritos Florbela apresenta questões sobre o sufocamento do feminino em uma sociedade machista, além de falar também sobre erotismo, sofrimento, solidão e morte. São textos diretos e que nos possibilitam visualizar um pouco sobre essa mulher, textos particulares, mas também de “fácil” leitura e com um leque de interpretações que ficam a cargo do nosso olhar sensível para a obra. Florbela perdeu o irmão em um acidente de avião, e a partir desse momento ela nunca mais foi à mesma. Florbela tentou três vezes se suicidar, e na terceira vez o ato foi fatal e aconteceu bem no dia de seu aniversário.
Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar! E o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...
E não se apaga, não... Nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: “O que te resta?”
Ah! Não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!
(Angústia- Florbela Espanca)
Maya Angelou
Poetisa, Cantora, Escritora, Bailarina e Jornalista, Maya passou por um abuso sexual quando tinha quatro anos. Ao denunciar o tio o mesmo foi preso e solto no dia seguinte, e nesse mesmo dia foi assassinado por parentes de Maya. Após esse momento Maya se calou por cinco anos culpando a si, sua voz, suas palavras, culpando-se pelo abuso sofrido e pela morte do tio. Após esse episódio, Maya debruçou-se sobre a leitura e escrita fazendo delas sua “nova voz”. Suas obras que vão de Romances, Poesias e Biografias, ressaltam a importância da cultura negra focando em assuntos como Racismo, Identidade e Família.
Você pode me desmoralizar na história
Com suas mentiras amargas, torcidas,
Você pode me pisotear na sujeira extrema
Mas ainda assim, como a poeira, eu me ergo.
Meu atrevimento o incomodou?
Por que você está tomado de melancolia?
Porque eu ando como se eu tivesse poços de petróleo
Bombeando na minha sala de estar.
Assim como luas e como sóis,
Como a certeza das marés,
Assim como as esperanças brotam,
Ainda assim me ergo.
Você quer me ver quebrada?
De olhos e cabeça baixos?
Ombros caídos como lágrimas,
Enfraquecida pelos gritos repletos da minha alma?
A minha arrogância te ofende?
Não leve isso tão a sério.
Porque eu rio como se tivesse minas de ouro
Escavadas em meu quintal.
Você pode atirar em mim com suas palavras,
Você pode me cortar com seus olhos,
Você pode me matar com seu ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu me ergo.
Minha sensualidade incomoda você?
É uma surpresa
Que eu dance como se tivesse diamantes
Por entre minhas coxas?
Fora das cabanas da vergonha da história
Eu me ergo
Acima de um passado enraizado na dor
Eu me ergo
Eu sou um oceano negro, vasto e revolto,
Brotando e expandindo eu alimento a maré.
Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me ergo
Em um amanhecer que é assombrosamente claro
Eu me ergo
Trazendo os presentes que meus antepassados ofereceram,
Eu sou o sonho e a esperança do escravo.
Eu me ergo
Eu me ergo
( Ainda Assim Me Levanto - Maya Angelou)
Francisco de Goya
Pintor espanhol, Francisco iniciou seus aprendizados aos 14 anos e desenvolveu grande olhar para pintura tornando-se único com suas proposições, até que suas obras finais tornaram-se um marco para a história da arte. Goya contraiu uma doença que o deixou completamente surdo, temporariamente paralítico e parcialmente cego. Através dessas mudanças drásticas em seu corpo Goya desenvolveu uma depressão profunda e suas obras tornaram-se sombrias e carregadas de seu desprezo pelo mundo e ações dos homens em sociedade. Porém, apesar de todas essas problemáticas que atingiram seu corpo, Goya desenvolveu um olhar profundo sobre o gesto a expressão física aplicadas em suas pinturas, tornando-as mais viscerais e tão potentes como se fossem pesadelos.
Frida Khalo
É quase impossível falar de dor e depressão e não se lembrar da trajetória de Frida Khalo, que a partir de um acidente em um bonde teria sua vida completamente mudada e seu corpo nunca mais seria o mesmo. Além disso, podemos mesclar os abortos por conta do estado físico em que se encontrava e ainda todas as traições que sofreu por parte de Diego Rivera. A arte de Frida revela a força, as dores e também toda a intensidade da artista no decorrer de sua vida.
Carolina Maria de Jesus
Uma das primeiras e uma das mais importantes escritoras negras brasileiras, que traz em seus escritos a vida como mulher negra e da favela. Além disso, usou sua escrita como forma de denúncia sobre a vida que ela e muitos se encontravam como catadores de lixo de vida miserável. Carolina anotava tudo o que via e sentia sobre sua vida na favela, como catadora de lixo juntando tudo em textos publicados no livro Quarto de despejo. Carolina usou papéis de suas coletas, suas experiências, e fez disso um compilado que viraria o livro que a levaria a fama, no entanto, como uma moda passageira, Carolina foi esquecida e assim voltava a sua rotina de catadora, usada e depois rejeitada como o próprio lixo que coletava.
Muitas fugiam ao me ver
Pensando que eu não percebia
Outras pediam pra ler
Os versos que eu escrevia
Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava livros para ler
Quantas coisas eu quis fazer
Fui tolhida pelo preconceito
Se eu extinguir quero renascer
Num país que predomina o preto
Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
(Muitas fugiam ao me ver - Carolina Maria de Jesus)
Amor Fati
Notem que destaquei nos textos algumas passagens da vida de cada artista, esses acontecimentos me levaram a uma expressão usada pelo Nietzsche denominada Amor Fati.
- Leitores de Nietsche não me crucifiquem! (aaaaa)
Amor= Vontade Criadora, relação afetiva com os acontecimentos, de certa forma aceitar os fatos e a realidade da pessoa e de sua vida.
Fati = Jogo de Forças Naturais que acontecem ao nosso redor, gerando diversos acontecimentos. Acontecimentos que estão além da nossa existência, sem aquela consciência de que tudo acontece para aprendermos algo, às vezes o que acontece estava premeditado universalmente a acontecer e está muito além de nós.
Amor Fati = Postura Afirmativa, aceitar nossas condições para continuarmos a viver, por que muitas vezes o que acontece ao nosso redor não dependeu de nossa escolha particular. Porém, a maneira como reagimos a isso é total responsabilidade nossa. Ou seja, encarar a realidade sem sofrer demais com ela dependendo do contexto (risos de nervoso).
De forma bem crua, podemos interpretar esse Amor Fati como “Ordem Natural das Coisas”, algo que tem seu resultado a partir de acontecimentos anteriores, e está além de uma visão positiva ou negativa. É como se estivéssemos fadados a nossos destinos sem um viés divino, mas sim, como viver o que precisa ser vivido além de expectativas. Portanto, seria não escapar de quem somos e assumir nossa real identidade diante dos problemas e escolhas, como se buscássemos um equilíbrio, aceitando nossa condição na vida, e de quem somos. (bem no raso mesmo por que filosofia é tenso!).
- É como aquela prática, para, respira e conta até 10!
Trago essa questão de Amor Fati como um espelhamento sobre a depressão que mencionei acima. Quer dizer, esses artistas com todas suas proposições acharam na arte e na literatura uma forma, muitas vezes inconsciente, de expor seus sentimentos, seja de forma abstrata, com imagens ou textos mais diretos. De certa forma esses propositores estavam ou estão contando suas histórias através de seus trabalhos, livres de certo ou errado, culpa ou vitimismo, essas proposições artísticas são suas essências, e nós como curiosos do saber, temos em mãos diversas perspectivas da vida para nos debruçarmos, estudarmos, pesquisarmos e até mesmo criar métodos de estudos. E não falo sobre Arte Terapia, e sim uma arte que nos mostra essa essência humana poética, que sofre e ao mesmo tempo encontra sua poesia na dor. Estou longe de romantizar a dor desses artistas, mas sim encontrar uma forma de olharmos o mundo e nos inspirarmos a contextualizar nossa própria existência sem nos culparmos por nossas inconstâncias, medos e desejos e sim aceitarmos nossas condições sem despejar toda nossa esperança no dia seguinte, é meio aquela regrinha de “viver o agora” que na teoria é bem complicado e depende muito da rotina, criação e visão de mundo de cada um. Contudo, é importante que busquemos uma centralização, um viés expositivo de nossos turbilhões de sentimentos, seja na arte ou outras formas de estudos e até mesmo hobbies, é importante que entendamos nossa identidade no mundo e como podemos viver cada momento de forma única, sem uma visão romântica ou trágica.
Atualmente temos um apoio muito presente em questões de saúde mental, e não devemos nos envergonhar de nossas condições e sim buscar ajuda caso não estejamos dando conta de toda uma carga. Porém, mesmo com ajuda essas questões farão parte de nós, a diferença é que acharemos formas de lidarmos com elas sem que precisemos entrar em ebulição e acabar no fundo do poço. E novamente trago essa questão artística e de contextualização sobre a época que tais obras foram criadas e quais suas histórias, esses artistas estavam apresentando ao mundo suas visões, crises, e suas essências, porém o mundo era outro e questões de saúde mental não eram tratadas com uma devida atenção e de forma humana (já ouviram falar de tratamentos com eletrochoques?). Contudo, não trago aqui que esses artistas deveriam encarar suas realidades sorrindo e apenas seguindo em frente bem good vibes, mas sim como exemplos para entendermos que mesmo com todos esses contextos que variam de guerras, traições, e problemas mentais, esses propositores não se privaram de suas dores e angústias.
E assim eu finalizo essa fala, seja pelo Amor Fati ou pela Arte, ou por diversas formas que escolhemos viver é importante que estejamos presentes conosco para podermos encarar esse mundão de meu deus.
Texto: [email protected]
Revisão: [email protected]













