"Karan." Olhos escuros eram fixos aos dela, mesmo quando vacilavam para qualquer outro canto que não a própria face. Uma pequena parte de si desejava ouvi-lo dos lábios de Maryland, ansiava--- a necessidade em esconder a identidade dissipada trazia um novo sentimento à superfície: de revelar-se. Ele deixou com que a musicista falasse, estóico, pés irrevogavelmente colados ao chão por ouvir as batidas descompassadas e o cheiro inconfundível de medo. Mas o vampiro sabia ter mais por trás daquilo. Afinal, o vivia também. O silêncio durou até a deixa da última pergunta--- passos femininos em sua direção, fechando a distância, outrora convidativos para encontrarem-se em puro afeto. E então, Karan balançou a cabeça de um lado para o outro, a genuína e forte honestidade contida no olhar compenetrado. Sério. Resoluto. A linha dos lábios sem a curva característica do sorriso que lhe parecia sempre presente dava lugar a uma de suas faces mais realista, desconhecida por Maryland. A face de um homem cheio de profundidades e certezas. "Meu nome é Karan." Frisou. Iria explicar-se, dada a oportunidade, com frases curtas e movimentos humanos em fluidez. "Maryland..." A destra percorreu os fios cacheados, enquanto Karan escorava-se pelo quadril na mesa do escritório. Depois, juntou-se com a esquerda e por fim pousou aos lados do corpo nas bordas amadeiradas, indicando que não sairia dali. Que se demoraria, que não atentaria contra a mulher. "De fato, há muito sobre mim que lhe é desconhecido. É... Algo necessário para a sobrevivência minha e de meu clã. É algo que desejo partilhar com você, quando o momento for oportuno. Serei brutalmente honesto, para que não pense estar lhe escondendo nada--- mas peço que me ouça em integridade." Karan apertou os lábios por dois instantes, clara e cuidadosamente escolhendo as palavras seguintes. A dificuldade em confrontar aquilo se traduzia na sutilidade da sobrancelha franzida e o tom de voz tingido de paixão. "Quando lhe conheci, estava cumprindo meu papel como Nikhil. Havia encontrado os funcionários do teatro no clube, e resolvi me arrastar após todos saírem. Pensei em fazer algo que eu e Nikhil compartilhamos em termos de prazer: dançar. Beber. Conhecer pessoas interessantes." A sombra de um pequeno sorriso apareceu nos lábios, mas não se demorou. "E então nos esbarramos. Nunca havia lhe visto antes, pois eu saberia. Sim, Maryland, seu sangue é cheiroso, mas não foi o principal motivo para querer lhe conhecer melhor." Dedos tamborilavam na madeira. Se tivesse um coração funcional, este estaria ligeiramente acelerado ao revirar tantas memórias. "Você me fez sentir algo que há muito não... Sentia. Pense o que quiser, mas há espontaneidade em seu jeito. E beleza em como você vê a vida, e seus desafios. Foi refrescante por um momento ser apenas um homem cortejando uma mulher." Karan umedeceu os lábios. "Jamais alterei suas memórias. Se são o que são, é porque assim aconteceram." Fazia menção também ao sentimento compartilhado. O olhar divagou por dois instantes, como se estivesse incomodado com tamanha sinceridade saindo dos próprios lábios. "Curiosamente, também nunca menti nas pequenas trivias compartilhadas. Gosto de calor. Gosto de ler, ainda que há pouco que não tenha ao menos folheado... Gosto de música. Da sua voz. Do seu cabelo. De como olhava para mim. Nunca menti sobre isso--- e quanto ao sangue: jamais me ocorreu que você não entendesse o que estava acontecendo. Meu afeto é genuíno." Karan falava sério, e ainda que parecesse outra pessoa, talvez exalasse ao fundo as semelhanças com Nikhil. Inspirou pela primeira vez desde que começara a falar, deixando-se inebriar pelo cheiro da mulher. "Me perdoe, Maryland. Talvez fosse algo mais fácil se em outra vida, com um corpo como o seu. Mas sou grato à minha condição por diversas coisas... Inclusive, por poder lhe conhecer."