Elas não fazem barulho, não deixam hematomas, não aparecem em exames. Apenas criam raízes. Vão ocupando cada espaço vazio dentro da gente até que um dia já não sabemos dizer onde termina a nossa voz e onde começa aquilo que nos machucou.
Passei tanto tempo tentando convencer o mundo de que eu era forte que esqueci de perguntar se ainda existia alguma parte de mim que não estivesse cansada.
É estranho como nos acostumamos aos próprios fantasmas. Eles deixam de parecer visitantes e passam a morar conosco. Sentam ao nosso lado enquanto tomamos café, caminham conosco na volta para casa, deitam ao nosso lado durante a madrugada e sussurram tudo aquilo que passamos anos tentando esquecer. E, de tanto ouvi-los, começamos a acreditar que eles têm razão.
Talvez a pior prisão não seja feita de grades.
Talvez seja feita de lembranças.
Lembranças de quem fomos, de quem perdemos, das palavras que nunca voltam para a boca depois de ditas. A mente revive tudo como um castigo silencioso, como se a dor precisasse ser repetida infinitas vezes até aprender alguma lição que nunca chega.
Mas existe uma parte de mim que ainda resiste.
Pequena. Frágil. Quase apagada.
Ela continua perguntando se a vida pode ser mais do que sobreviver. Se existe alguma versão de mim que não carregue culpa em cada passo. Se algum dia vou olhar para o espelho sem enxergar todas as pessoas que fui incapaz de salvar, inclusive eu mesma.
Não quero mais viver em guerra contra a minha própria consciência.
Não quero transformar cada erro em sentença perpétua, cada saudade em altar, cada arrependimento em identidade.
Porque talvez os fantasmas não desapareçam.
Talvez eles apenas percam a voz quando finalmente encontramos coragem para falar mais alto que eles.
E, se esse dia chegar, espero não me tornar alguém sem cicatrizes.
Espero apenas me tornar alguém que já não precise sangrar para lembrar que está viva.