something to sing about
Okay... – Pausou para respira enquanto pensava no que dizer. O cenho franzido criava uma espécie de bitch face reversa, da qual nem mesmo ele estava consciente. Era óbvio que poderiam ser racionais e chegar a um consenso sobre aquela situação e o consenso se resumia uma resposta. – A cama de cima é minha. – Concluiu com o ar de juiz que dá o veredito final. Nem precisava fazer muito. Levando em consideração a diferença de altura entre ambos, qualquer “ameaça” que deixava os lábios de Sam não deveria ser ignorada. Ainda que não fosse uma ameaça, apenas um alerta ou uma ordem. Na última semana mergulhara no mais insano dos planos. E, agravando o problema, nos últimos três meses fora vítima de tragédia atrás de tragédia. O conglomerado das mesmas foi o que o levou até ali. Sinceramente, dividindo quarto com outros integrantes da banda. Não dividia o quarto com Dean há quatro anos! Por que precisava fazer isso agora? Ah, claro. De acordo com Bobby, “porque vocês idjits estão passando por uma séria crise. Se no ano passado estavam no topo das paradas, agora estão no fundo do poço de piche! E precisamos economizar dinheiro, então parem de reclamar!”. Apesar das palavras duras, o agente tinha razão. Da glória para a desgraça em um único passo. Foi tão rápido que Sammy mal conseguiu acompanhar. Lembrava-se do primeiro single, lançado no ano anterior. Topo das paradas durante semanas. Fizeram vários shows, ganharam até bonequinhos. E então, nada. O momento de fama passou. Voltavam agora ao status de banda de garagem. Ou melhor, banda de bar, uma vez que só conseguiam tocar nas roadhouses que estavam pelo caminho.
Dean foi o primeiro a sair. Talvez tenha sido esse o estopim, o que deu início à cadeia progressiva de problemas cujos degraus levam à desgraça e à vergonha. Não podia culpar o irmão. Apesar da excelente voz e de adorar a vida na estrada, o mais velho dos Winchesters nunca conseguiu enxergar o próprio futuro em uma banda. Na verdade, Sam até hoje duvidava a respeito do futuro do irmão, porém, quando o mesmo telefonou para ele um mês antes informando que havia começado um negócio de tortas em uma pequena cidade do Kansas, Sam pode notar a ponta de orgulho na voz do mais velho. Certo, culinária. É, Dean podia fazer aquilo. Preferiu esconder quando o loiro questionou sobre a integridade da Angels & Demons. Agora, com a saída do único que insistia em implicar com ele sobre a escolha das músicas, sentia-se mais livre para escrever e cantar o que bem entendia, sem precisar se ater ao rock dos anos 70 e 80 que o outro tanto amava.
Ainda restavam os outros dois integrantes, embora esses não tivessem muito a declarar. Pelo contrário, sentiam-se gratos por poderem mudar o estilo musical uma vez na vida e estavam mais do que dispostos a tentar reaver a fama perdida. O mesmo não podia ser dito sobre a criatura baixinha e irritante que agora estava parada diante de Sam; ambos no pequeno quarto de hotel de beira de estrada, encarando com firmeza a cama. Pelo menos (pelo menos!) não era uma cama de casal. Gabriel era…estranho. O Winchester ainda duvidava se podia realmente dizer que o loiro era um integrante da A & D. Foi um telefonema do próprio Dean, cerca de quinze dias atrás, que os levou até ali. De acordo com o mais novo gastrônomo do Kansas, Cas tinha um irmão muito, muito bom com instrumentos. (Nota mental: questionar depois o que diabos era um Cas). Uma coisa levou a outra e, depois que Bobby aceitou, dizendo que era exatamente o que queriam, Gabe acabou entrando pela porta traseira no grupo, tornando-se o quarto integrante, muito provavelmente para substituir Dean.
Certo, o baixinho era talentoso, isso Sammy não podia negar. Ele só era meio louco e irritante, extremamente viciado em açúcar. Iria morrer em breve se não parasse com aquilo. Nas últimas duas semanas haviam se falado muito pouco, não passavam dos limites que eram as questões da banda. Tocaram algumas vezes e – oh, sim, ele era bom – e nada além disso. E eis que ali estavam. Sob a noite tempestuosa, viram-se sem escolha a não ser dormir debaixo de um teto. Não havia nada em um raio de milhas, nada além daquele hotel de aparência estranha. Todos os quartos estavam lotados, exceto dois. Gadreel e Charlie saíram na frente, nenhum parecendo gostar da ideia de ter que dividir com Gabriel. Dessa forma restaram os outros dois. Foi uma agradável surpresa quando notarem o estilo de cama. Foi uma terrível surpresa quando Gabe tentou se adiantar e ocupar o colchão superior. Opa. Nada disso. Sam tirou proveito da própria altura e prostrou-se diante da cama, atuando como uma muralha. Ainda precisava checar os e-mails e redes sociais e descobrir se Becky ainda o stalkeava. – Desculpe. Eu fico em cima. Sem discussões sobre isso.
Sam deveria sem menos ingrato. Sim, a Angels&Demons fizera um grande sucesso no ano anterior, agregando um belo contingente de fãs. Gabe curtia o estilo da banda, apesar de ter uma pegada meio anos 70 demais para o seu gosto. Nunca dera muita atenção ao grupo, não mais do que dava a uma banda qualquer. Isso até algumas semanas atrás. Seu irmãozinho mais novo (quem poderia dizer que Cas tinha uma queda por caras de banda com carinha de modelo?) havia lhe dito que havia uma vaga na A&D e que ter alguém na guitarra era exatamente o que eles precisavam. Não era como se Gabe tivesse um emprego mesmo, então não pensou duas vezes em entrar para o grupo.
Agora com Gabriel no grupo, com certeza a perspectiva da banda era melhor. Sem querer se gabar, é claro, mas ele era bom. Mais do que bom. E, sem Dean, a A&D precisava de alguém exatamente como Gabe. Basicamente, ela estava ali para salvar o dia. Custava mostrar um pouco de gratidão?
Charlie gostava dele. Eles eram estranhos e nerds e, meu deus, Star Wars sempre era um bom assunto. Gadreel... Bem, o cara era meio estranho afinal. Sem falar que eles quase tinham o mesmo nome. Estranho demais. E Sam? Sam era... um caso a parte.
O garoto era ridiculamente alto. Ridiculamente. Isso não tinha nada a ver com o fato de Gabriel ser um pouco menor que a maioria das pessoas. Claro que não. Sam parecia um Simba gigante, praticamente um raio de sol superdesenvolvido. Gabe sabia que cada bitchface o julgava diariamente. Devia ser um sinal do quão estranho Sam achava que ele era. Claro que Gabriel não pensava assim.
E agora lá estavam os dois, dividindo um quarto de hotel e prestes a brigar pela melhor cama. "Só porque é um gigante não significa que precise estar perto do teto o tempo todo, Samsquatch.", Gabriel ergueu a sobrancelha da maneira zombeteira e desafiadora de sempre. "Sem falar que eu sou o mais novo por aqui, então vocês me devem uma.", completou com um sorriso. Não iria desistir tão fácil assim.















