Saudade
Sinto falta de existir. É uma maresia incomoda no peito, que muitas vezes, na calada da noite, quando minhas praias já estão desertas e turistas presunçosos não usufruem das minhas águas, quando a maré dos pensamentos é alta e a sonolência baixa, insiste em tentar escalar as dunas do meu olhar, escorrer pelas ruas e declividades do meu rosto.
Saudade que pinica o ego, de ser além da utilidade, da função. Não mais humana, máquina, robô, só sirvo para o propósito de ser personagem secundário, figurante no filme da vida alheia. Sou colega, amiga, aluna, funcionária, filha, ouvido, saco de pancada, mapa, informação, plano de fundo. Quem eu sou? Um nada. Sou aquilo que serve ao outro, o vento que muda com as estações, com os dias. Sou desembocar de um rio no oceano, em que as águas fluviais perdem seu rumo, seu sentido, ao se deparar com a imensidão das possibilidades da linha do horizonte, se misturando e desaparecendo com a paisagem aquática do ônibus lotado pelas sardinhas do alvorecer.
Sinto saudade de ter significado além da obrigação. Vivo em eternos deveres, constantemente devendo para o próximo o que não tenho e devendo para mim o eu que um dia tive, mas que vendi por mixaria de aprovações e sorrisos rasos. Derrubei o tempo da mesa dos afazeres, tão ´pequeno, microscópico, não consegui encontrá-lo no piso do meu desespero, sempre correndo atrás de mais, alucinada, como o Coelho Branco, pés em carne viva sangrando a alma pelo asfalto implacável da luta pela sobrevivência.
A vida já se foi, perdida no País das Maravilhas, não importa quantas rosas brancas pinte de vermelho, o fogo alaranjado da minha consciência continuará me queimando e consumindo pela incapacidade de ser além de minha eficiência.














