Ontem, eu peguei um ônibus para voltar para casa depois de uma longa prova. Eu não tinha certeza sobre meu desempenho nela, mas estava até que tranquila. Muitas pessoas não gostam de andar de ônibus e devo admitir que, em alguns momentos, eu mesma me pego pensando isso. Mas acontece que eu vivo em uma cidade pequena, então os ônibus quase nunca estão cheios e eles são bem confortáveis, na verdade. Por isso, eu gosto bastante do trajeto e até fico meio triste quando vejo que meu ponto se aproxima. Mas este texto não é para ser sobre os momentos que eu desfruto nesse meio de transporte subestimado.
É para ser sobre uma coisa que ocorreu e que me chamou a atenção, suficientemente para que eu nem prestasse atenção na paisagem duranto o restante do caminho. Do outro lado do ônibus, um pouco a frente de mim, havia duas senhoras, que estavam juntas. Eu nem havia percebido que elas estavam ali até que uma delas desceu em um ponto e a outra continuou lá, achando que a primeira havia descido no ponto errado.
No momento que ela percebeu que, na realidade, era ela quem estava equivocada, tentou apertar o botão para solicitar a parada, mas ele não estava funcionando. Eu, sem falar nada, apertei o botão perto de mim, mas ela nem percebeu e ainda tentou puxar a cordinha. Então, o ônibus parou em um semáforo e ela pediu para descer ali mesmo, na faixa central da rua. O motorista, logicamente, disse que não poderia abrir as portas naquele lugar e esperou o sinal verde para ir à outra faixa e deixá-la na calçada, ainda antes do próximo ponto de ônibus.
Ao invés de agradecer pela gentileza do motorista, ela saiu do ônibus o xingando, para Deus e o mundo ouvirem. Claro que várias pessoas no veículo ficaram indignadas e começaram a conversar entre si. Mas eu estava sozinha, o que me permitiu refletir um pouco sobre essa situação.
Eu não sei o que aconteceu no dia ou na vida dessa senhora para ela agir daquela forma, mas sei que ela com certeza teria algo para me dizer caso eu perguntasse. De qualquer forma, eu sei que dificilmente a verei de novo e, mesmo se isso ocorrer, eu não lembraria de seu rosto. Por isso, fico aqui me questionando: não seria eu como essa senhora? Ela havia acabado de ser ajudada por duas pessoas e não se sentiu grata em nenhuma das ocasiões. A primeira, porque nem percebeu e, a segunda, porque as coisas não saíram exatamente como desejava.
Quantas coisas têm que acontecer todos os dias para que minha vida siga o curso esperado? Quantas pessoas têm que acordar muito mais cedo que eu, para que haja alimento na minha casa? Para que eu possa me transportar de um lugar a outro? Para que eu possa estudar na biblioteca, para que eu possa desfrutar uma tarde em uma praça pública? A maioria dessas pessoas nem sonha com a minha existência, mas o mais triste, na minha opinião, é o contrário. Todos os dias, o universo se alinha de forma que eu possa ter mais 24 horas de vida, mas eu nem reparo nisso. Acho que eu não dou a devido valor a tantas coisas.
Além disso, quantas pessoas não tentam me ajudar, embora não consigam me dar o que, na minha ansiedade clássica deste século, espero? Por que eu não tenho sido grata a todos que tentam me ajudar, mas apenas àqueles que me entregam o que eu busco? Quantas vezes eu briguei com minha mãe quando ela só queria o meu bem? Quantas vezes eu reclamei de algum funcionário ou de algum amigo que não agiu como eu queria, mas tanto tentou me agradar?
Como eu poderia me considerar uma boa pessoa sendo tão ingrata? Como eu poderia descansar minha cabeça em um travesseiro à noite, sem nem me perguntar quem tanto contribuiu para que eu estivesse deitada em uma cama quente e confortável às 22h? Como podemos continuar em uma modelo de sociedade que não nos leva a refletir acerca dos demais? Acerca de todos que fazem funcionar as grandes engrenagens deste mundo?
Só sei que me sinto muito mais motivada a buscar por um mundo mais justo quando penso em tudo e em todos que são necessários para que eu possa completar cada respiração.