Eu não sou exemplo de como começar da forma correta na feitiçaria e reconheço isso. Tenho consciência da gravidade espiritual e material desse comportamento que me trouxe até aqui hoje. A verdade é que eu não consigo achar a minha casa ou o meu lugar para permanecer; significa que talvez eu queira tantas coisas que acabo não tendo nada, que me afogo no ego de querer possuir tudo que posso acessar.
Eu crio guerras ao meu redor em busca de viver os meus desejos e me torno escrava do que eu mais quero. Alguns se sentem ameaçados porque eu lembro o que eles gostariam de esquecer por remorso ou vergonha. Os insultos passam cada vez mais dos limites toda vez que questiono a coerência entre o que dizem e o que praticam.
- O que você quer dizer com isso? Que eu não tenho caráter!? - gritou.
- Não. Eu disse pra você analisar sua moralidade e os princípios aos quais você é fiel, mas que nunca praticou.
- Quem você pensa que é para colocar o meu caráter em dúvida?
- Não estou questionando o seu caráter. Estou fazendo você analisar sua fala e suas atitudes, que são desconexas.
- Você é uma vagabunda. Não te criei para isso.
- Sexualidade não tem a ver com falta de caráter e nem com ser uma vagabunda.
- Não faça eu mudar minha opinião sobre você.
- Você realmente acredita que eu me importo com o que você pensa sobre mim?
- Tô vendo que não. Você é uma vergonha e ainda diz que trabalha com espiritualidade.
- Eu trabalho com feitiçaria. A sexualidade faz parte e ela não precisa ser demonizada nem motivo de vergonha.
- Você querendo normalizar prostituição, trabalhei a vida inteira para você se tornar isso.
- Não estou normalizando a prostituição. Estou falando de sexualidade. Eu faço porque gosto. Prostituição e sexualidade não são a mesma coisa.
Eu escrevo sobre isso porque, ao estar em contato com as suas sombras e seus desejos, exala liberdade de regras morais e culturais. É perceptível que quem está em volta ataca por inveja inconsciente. As pessoas partem para a agressão porque odeiam lidar com o que realmente gostam, mas escondem por pressão social porque é "sujo" e imoral. O ataque gera reação e, assim, o caos se instala, podendo levar a agressões físicas e até mesmo à morte.
Se analisar os assassinatos contra mulheres e homens trans, é um bom exemplo - assim como gays e lésbicas também. Quando as pessoas se deparam com as sombras que estão reprimindo, nasce a violência. Existe uma necessidade de matar tudo que força a pessoa a olhar para dentro de si mesma, mesmo que isso custe a vida de alguém.
Não lidar com as sombras e não viver seus próprios desejos com responsabilidade e consciência pode adoecer sua mente, seu corpo e seu espírito. Resumindo: o caos faz parte de qualquer vertente mágica e até mesmo do nosso dia a dia; está presente no todo. Lidar com a própria sexualidade também faz parte do processo de desenvolvimento espiritual. Eu preciso falar de mim e dos meus dias para que consiga identificar isso em você e assim possa olhar para quem você é, para a sua prática, analisar a si mesma.
Não se engane: isso não é uma tristeza para mim, e não quero que seja para você. Mas queria falar sobre a sobrevivência no caos também. Eu lembro da minha primeira feitiçaria pesada. Foi a Rosa Caveira que me ensinou. Tudo aconteceu muito cedo, e não me foi passado porque era o tempo, mas por necessidade de sobrevivência. Estar aqui não foi uma escolha; eu não escolhi a feitiçaria. Eu fui jogada aqui sem tempo para me preparar.
Não tive tempo de aprender da forma correta. Aprendi aos trancos e barrancos. Demorei muito para encaixar os conhecimentos que adquiri durante o processo. Eu não sabia as fases da lua, mas sabia fazer magia de defuntaria por necessidade. As coisas não eram justas, nunca foram e provavelmente nunca serão. Quando me dei conta de que não sabia o básico, mas sabia o "complexo", eu me escondi completamente, porque com certeza eu era uma farsa.
A realidade é que alguns processos não são organizados, e eu fui moldada no caos, no medo e na insegurança. Não quero que leve isso como incentivo, porque, se existe a possibilidade de você aprender com calma, aproveite, pois as chances de não perder tempo são maiores. Eu precisei dar alguns passos para trás e voltar ao início. Reconhecer a falha não é simples, porque mexe no nosso ego - e o ego dói.
Eu não consigo me moldar em uma prática que não seja a minha. A minha prática é confusa e, quando me perguntam sobre ela, não sei explicar, porque eu só sei fazer. A realidade é que todos que nascem no caos não permanecem em lugar algum e sempre serão criticados. O caos é perigoso, e ninguém gosta dele, principalmente as entidades. Ele é confuso e não existe começo, meio e fim.
É uma prática que pode levar qualquer um à ruína, e eu quase fiquei de exemplo. O caos é silencioso. Eu não consigo sentir medo ou arrependimento; eu tenho vontade de gargalhar. Eu nasci dele sem saber. No momento em que fiz amizades com outras bruxas, comecei a entender melhor.
Afinal, para mim, eu não era feiticeira. Eu só fazia o que queria e testava minhas ideias. Ou seja, agia completamente por instinto. Foram outras bruxas que me disseram que a minha prática era totalmente caótica, e foi assim que surgiram realmente os meus estudos, para que eu pudesse identificar. Eu fazia feitiçaria sem saber o que era, porque não fazia sentido estudar algo que eu não sabia que era. Certa vez, no meu antigo grupo de bruxas, decidimos que eu ficaria responsável pela proteção do grupo. Mas a entidade da minha amiga Thainá me barrou, dizendo que ela não precisava de mim e que minha mão era podre. Eu chorei escondida por dias; não sabia o que era mão podre.
Eu sempre penso muito sobre o que as entidades me dizem, levo tudo em consideração e tento tirar algum aprendizado. E realmente: minha mão era podre. Eu só sabia destruir. A sensação que eu tinha era de que outros feitiços não funcionavam nas minhas mãos, mas a realidade era falta de prática com outros feitiços. São poucas as entidades que gostam de magistas do caos, porque é uma prática arriscada; até as minhas entidades não gostam e costumam me barrar.
A realidade é que estou em constante despedida de quem eu sou. Quando estou fixando o entendimento sobre mim mesma, sou aconselhada a mudar. Então, eu resisto. Falam como se fosse fácil entender os processos humanos, mas poucos reconhecem e olham com essa perspectiva. Eu consigo ver claramente esse processo nas pessoas e busco, dentro do possível, não deixar que interfiram. Eu entendo seus comportamentos, compreendo suas limitações, reconheço sua verdade e o que você acredita - desde que ouça outras perspectivas também.
Entenda que, para os conhecimentos de magia, você precisa olhar para si verdadeiramente. Isso é brutal; é uma forma de moldar o seu caráter. Desde a época milenar, os conhecimentos de magia eram fechados, porque nas mãos de uma pessoa de caráter doentio e perverso são perigosos para a sociedade. Nós não atacamos; nós nos protegemos e cobramos o prejuízo.
"- A moça é uma máquina, mas uma máquina estragada. Não sabe dizer se você é boa ou ruim."
Não pude responder de imediato. Mas, se o bem e o mal não existem, isso indica que existe somente a culpa, e cada um se baseia nos comportamentos de acordo com a sua balança pessoal? Como faço para não lidar com a culpa? Por isso, a grande maioria age na crueldade sem remorso: a culpa nunca é deles, é sempre terceirizada.
Se você observar, existe uma contradição entre o penúltimo e o último parágrafo. É isso que existe dentro da minha mente: a contradição. Como faço para ter acesso a esses conhecimentos sem viver numa culpa eterna? Mas, se a culpa é uma balança pessoal, como vou saber se sou boa e se estou apta para esses conhecimentos? E se os meus desejos forem muito pesados para a minha balança e eu decidir não fazer? Estou sendo responsável ou me culpando? A bondade é uma percepção? Um ponto de vista? Uma régua? Medimos de acordo com a educação estruturada pela nossa família? Estou confusa.
Mas, se observar, vai perceber que existe lógica nessa dúvida. Existe um ditado famoso: "Só é cobrado por Exú quem tem." Será? As entidades tiveram caráter, crenças, e carregam isso após a morte. Significa que, se o médium é compatível com o caráter da entidade e com o que cabe certo para você, pode não caber na ancestralidade dela, e assim pode não existir cobrança. Sendo assim, quem garante o que é bom e o que não é? O que pode e o que não pode? Eu não sinto raiva; sinto uma revolta silenciosa. Eu sei que vou deixar essa prática guardada em algum canto, porque existe outro caminho agora. Talvez eu esteja triste - não uma tristeza dolorida, mas eu estou.