Hoje o dia começou com aquela pitada de saudade. É estranho como quando vivemos com uma pessoa, mesmo que não a vejamos durante um ou dois dias por motivos aleatórios, o seu cheiro na casa, o seu quarto bagunçado após uma saída atrasada pro trabalho, a sua xícara suja de café na pia ou o seu chinelo jogado no canto da sala fazem com que você sinta a sua presença mesmo não presente. Pode ser criminoso ou frio dizer que essas pequenas coisas “substituem” a sensação de estar, de abraçar, de beijar ou de dizer o simplório, mas forte, “eu te amo”. Sim, é um crime. É um crime porque o clichê “dar valor quando perde” é tão clichê quanto verdadeiro. Não digo morte, porque a morte, inicialmente, é uma mistura de sentimento de perda com o medíocre remorso. Eu falo de saudade, aquela verdadeira. Aquela que não existe xícara suja, o quarto está sempre arrumado, o chinelinho está ali naquela posição triste sempre e o cheiro na casa, na verdade o resquício dele, torna-se nostálgico. Aquela que não mantém conexões fisiológicas possíveis. Aquela em que um oceano e mais alguns punhados, e ponha punhados nisso, de terra os afastam. Quando você chegar ganhará um demorado abraço, não lembro a última vez que fiz isso com você, um beijo no rosto, não lembro a última vez que fiz isso com você, e um singelo “Eu te amo”, não lembro a última vez que disse isso a você. Será que você morava comigo realmente? É uma vergonha. Pensando bem, a saudade tem lá suas qualidades. Hoje o dia começou com aquela pitada de saudade...