Após receber a notícia de sua ida à festa de noivado de Celeste, Aurora ficou furiosa. Não apenas pela ação pura e simples, mas também devido à falta de aviso de sua parte. Se ele avisasse, ela o proibiria de aceitar o convite, lembrou-a Cedric, e tinha que ter algum controle da própria campanha política se ela desejava que ele desenvolvesse autonomia na própria carreira. Não se tornaria uma Matriarca, mas o mais próximo disso possível para um filho homem, e precisaria tomar as próprias decisões quando assumisse essa posição.
Essa era sua desculpa. Queria vender a imagem de um candidato temperado e conciliador, que dava tanto valor à sua ancestralidade que considerava Mechathins seus iguais, a quem devia algum nível de respeito maior do que aquele que costumavam oferecer entre as famílias. Desejava retornar à camaradaria que Morgana queria para suas filhas, quando ainda era viva. Não mentia, exatamente. Caso quisesse se aproximar de Celeste, seria infinitamente mais fácil se a relação entre os dois não fosse um tabu tão grande, passível de deserdação.
Aurora decidiu que fingiria saber de seu plano desde o início, certamente para evitar que parecesse não ter controle algum do próprio herdeiro, mas o avisou: não haveria próxima vez. Ele sofreria as consequências, sem sua proteção, caso saísse da linha novamente.
Bryce o acompanhou dois dias depois ao evento beneficente de Nico Hayashi, cidadão brigantiano de importância diplomática considerável e com conexões com as famílias Mechathin e Bondurant. Ao receber Cedric, Hayashi se fez perfeitamente educado e agradável e o convidou para a pequena festa que ocorreria após o evento, em uma de suas propriedades na cidade. Cedric aceitou o convite, mas não por estar no clima de celebrações, e sim por ter encontrado o olhar de Celeste diversas vezes durante seu evento.
Ele esperava seu contato desde o momento em que foi praticamente expulso do casebre de jardinagem onde se envolveram. Estava esperançoso, talvez estupidamente, e mantinha o celular próximo a todo instante. A Mechathin tinha admitido sentir sua falta e implorado para que ele satisfizesse um de seus desejos mais excitantes. Antes de mandá-lo sair, de uma hora para a outra. Ela desviava os olhos dos dele agora, embora os dela não contivessem a raiva daquela noite.
Esperaria mais um pouco. Daria o tempo que ela precisasse para digerir o que tinham feito. Rezava para que ela não precisasse de muito, contudo. Caso muitos dias se passassem, ela esqueceria o que sentira quando se beijaram depois de meses? Ele não conseguiria aguentar tanto tempo sem ela de novo.
— Não sei como você aguentou fingir simpatia. — Bryce comentou, a voz entediada ao vê-lo encarar Celeste. — Acho que Mechathins não são capazes de um sorriso sincero.
Ela levou uma taça de champanhe aos lábios e depois se virou para o palco onde uma orquestra juvenil se apresentaria. Cedric alisou o tecido suave da mesa à sua frente.
— A caçula ainda é. — Ele brincou, esforçando-se para parar de procurar o olhar de Celeste.
— Ainda é cedo pra ela. Espere uns cinco anos. — Bryce implicou. — Mas Celeste… Ela me olha como se tivéssemos uma rixa pessoal. Para todos os Bondurants, na verdade.
Cedric sorriu, já acostumado com a forma que Mechathins se portavam, em especial Celeste. Ele se perguntou, contudo, o quanto daquilo que Bryce relatava podia ser ciúmes por parte da maga de fogo. Seu sorriso se alargou minimamente.
Em certo momento, Bryce se encolheu um pouco, contudo, aproximando o corpo de Cedric para murmurar.
— Meus pais. Estão vindo aqui. Deusa, seja simpático, mas desvie de qualquer conversa de casamento.
Cedric olhou em volta até encontrá-los. Uma mulher ruiva se aproximava, com um homem mais velho alto e grisalho em seu encalço. Foi fácil reconhecê-los. Mesmo se já não os conhecesse por fotos, os cabelos da mãe e os olhos azuis amendoados do pai eram iguais aos de Bryce. O Bondurant se ergueu para cumprimentá-los e acenou com um sorriso agradável para suas reverências.
Alguns minutos depois, todos dividiam a mesma mesa e dispensaram grandes formalidades.
— Sabe, Vossa Graça, Bryce é uma menina incrível. — Adelaide Bondurant comentou e seu marido pegou em sua mão e balançou a cabeça, como se concordasse. — O núcleo principal tem muita sorte de tê-la por perto. Ela se formou com honras na Universidade de Victoria alguns anos atrás e tem muita facilidade com línguas estrangeiras.
— Sim, ela é realmente muito competente. A Matriarca a adora. — Cedric arriscou uma olhadela para Bryce, que parecia lutar contra a vergonha, ou talvez o nervosismo.
— Ela é uma menina de muitos talentos. E também é muito bondosa. Costumava ajudar animais feridos quando criança, sempre foi gentil. — A mãe continuou, o orgulho refletido em seus olhos. Cedric não pôde deixar de se sentir comovido com a visão, pouco familiarizado com ela na própria família. Ele imaginou que um namorado refletiria esse sentimento de alguma forma, então entrelaçou seus dedos nos de Bryce. Adelaide olhou o ato com um pequeno sorriso. — Espero que a tratem bem.
— Me tratam muito bem, mãe, não se preocupe. — A filha disse, apertando os dedos de Cedric nervosamente.
— Toda essa atenção da imprensa… Só vai se intensificar caso a relação siga seu curso natural… Peço que cuide dela, Vossa Graça. — Adelaide olhou em seus olhos e Cedric assentiu devagar. Entendia aquela preocupação melhor do que poderia admitir.
— Ela estará sempre sob meus cuidados. — Ele confirmou.
A ruiva mais velha o estudou por alguns segundos e seu marido riu baixinho ao seu lado, acariciando suas costas como se para fazê-la relaxar.
— Perdoe Adelaide, Vossa Graça. — Ele disse. — Ela anda preocupada com a Bryce, com a imprensa. E… com o que costumavam dizer de Vossa Graça também, se me permite a ousadia.
Cedric sentia que a conversa avançava para a pergunta clássica de pais sobre as intenções amorosas em um relacionamento.
— Pai… — Bryce usou um tom de leve aviso.
— Não teríamos assumido a relação em público caso eu não fosse respeitar Bryce ao máximo, senhor. Temos um compromisso.
— E eu não teria entrado nela, também. — Bryce ergueu as sobrancelhas para os pais.
— Certo, certo… — Seu pai riu suavemente, quase se desculpando. — Vossa Graça é um adulto agora, mas ainda lembramos do jovem dos tabloides. Espero que não o tenha ofendido.
— Entendo a preocupação dos dois. — Cedric o tranquilizou, o rosto perfeitamente diplomático. — Podemos nos encontrar novamente no Casarão Bondurant, em outra data? A Matriarca adoraria recebê-los.
Sua mãe deixaria claro o mesmo que ele: enquanto Bryce ocupasse o papel de uma possível futura consorte, ela teria a proteção e respeito Bondurant.
Despediu-se dos três antes de seguir para o after party de Hayashi, que reunia um número consideravelmente menor de convidados do que o evento anterior. Como ele suspeitava, Celeste também estava presente nele. Ela se manteve fugindo de seu olhar, contudo, aumentando o nervosismo interno que o acompanhava desde sua festa de noivado.
Mais tarde, o anfitrião voltou a trocar algumas palavras com ele, mas ao conversar com a Mechathin, Hayashi expressava um nível de intimidade que poucas vezes havia visto alguém ter com Celeste. Cedric franziu o cenho ao observá-los se reunindo ao longe em uma das varandas da festa. Lembrava-se de já ter visto o nome de Nico Hayashi associado à Mechathin, mas...
Usou o celular para pesquisar suas suspeitas e voltou a olhá-los quando elas foram confirmadas. Eram ex-namorados, da época em que Celeste morou por alguns anos em Brigantia. Naquele instante, porém, mantinham uma distância comum a amigos e não havia malícia em nenhuma de suas ações.
Cedric reavaliou todas as interações que tivera com ele naquele dia. Tinha gostado de Hayashi. Era um homem educado, tranquilo e ao mesmo tempo carismático. De certa forma, parecia com ele. Cedric não tinha os olhos estreitos dos cidadãos de Brigantia, mas compartilhavam a mesma pele pálida, olhos escuros e cabelos lisos negros, além do elemento que controlavam. Sentiu-se dividido entre o ciúme e a graça de perceber que Celeste tinha um tipo.
Ainda existia algum sentimento ali, perguntou-se? Não pareciam ter tido um término difícil, pois agiam como velhos amigos... mas era possível superar Celeste e desapaixonar-se de sua boca macia e olhos desafiantes? Aquele era um homem bonito, também, um que até mesmo Cedric convidaria para a cama, caso o outro se interessasse por homens. Ela recusaria caso ele quisesse se lembrar dos velhos tempos?
Após um minuto, percebeu que os encarava por tempo demais e suspirou, obrigando-se a voltar a conversar com antigos conhecidos. Mal tinha aceitado o noivado entre Celeste e Doyle, não precisava se preocupar com outro homem querendo se deitar na cama da Mechathin. Além disso, ele se lembrou, com amargor pesando a língua, não tinha relacionamento algum com a maga de fogo. Ela estava livre para conversar ou beijar quem bem entendesse. Noivo ou amante.