Tell your friends that you’re mine, I’m yours (POV)
A noite da festa de noivado não foi fácil para ela. Celeste tentou ser simpática ao máximo pelo restante do tempo, após sentir o alívio de vê-lo ir embora com Lucien ao encalço, mas foi muito pouco vitoriosa em sua tentativa. Felizmente, logo estavam em casa.
Lance pareceu entender rapidamente que a maga não estava no clima para uma comemoração mais íntima e após um abraço por trás e um beijo em seu pescoço, se afastou. Como poderia dormir com ele, de qualquer forma, se ainda sentia o… Celeste fechou os olhos e foi tomar um banho.
Nos dois dias seguintes, também não conseguiu fingir que não pensava nele constantemente. Nem mesmo se afogar em tarefas ajudava e sentia-se cansada. Não era mais a culpa que a comia viva, mas a tristeza da situação que se encontrava. Por que isso estava acontecendo com ela? A saudade que sentia era esmagadora, e por mais que o nó em seu estômago não sumisse, o que mais queria era vê-lo.
Um evento beneficiente para a orquestra de Nicholas foi feito dois dias após sua festa de noivado. Havia conversado tanto com ele quanto com Hana brevemente durante a festa, mas não tivera tempo para colocar a conversa em dia ainda. Gostava de vê-los sempre que estavam em Sarin ou quando ia a Brigantia, mas não estava exatamente no clima de ser uma boa anfitriã.
Não podia perder eventos por isso, contudo, especialmente aquele. Era uma das principais financiadoras dos projetos beneficentes da Orquestra fazia anos, não podia deixar de ir.
Cedric também não, aparentemente. Por respeito, Nick havia chamado as duas famílias e até mesmo no pós-evento, ele estava lá. Não havia tido a decência de poupá-la de sua visão nem mesmo então, quando sua mãe já havia ido para casa. Encontrava seu olhar de vez em quando, mas Celeste os desviava rapidamente, sem dar-se chance de ler o que havia nele.
Pegava-se olhando para ele quando o mago não estava vendo, entretanto. Tão bonito estava. Não que fosse uma surpresa, claro, mas seu coração doía tanto sempre que o via, parecia que não podia respirar.
Celeste se afastou para a varanda solitária, à sombra das grandes árvores do quintal, um canto mais escuro que achava que a deixariam a paz um momento. Bebericando seu champanhe, não demorou muito para que a encontrassem.
Não precisou se virar, pois reconhecia aquela voz. Precisava de ar, precisava tanto de ar desde que deixara de beijar um mago desse elemento.
— Um pouco. — Respondeu. Hana chegou ao seu lado rapidamente e a porta já abafava o som da festa novamente. — Desculpe por ainda não ter tido tempo para vê-los.
— Está tudo bem. Não viemos aqui roubar seu tempo, sei o quanto é ocupada. — Ela sorriu, mas ralhou:. — Mas vamos ficar aqui até próxima semana, então arranje tempo.
Celeste riu, mas a risada não chegou a seus olhos. Hana já era mais alta que ela e com o salto que usava, ficavam com quase uma cabeça de diferença. Com o cabelo liso cortado reto nos ombros, tinha os olhos característico da população de Brigantina, sua angulação realçada com uma maquiagem no estilo felino.
— Desculpe não poder barrar o Bondurant, também. — A maga de fogo a olhou de lado, curiosa. — Mas ele apareceu no seu noivado, então acho que isso é o de menos.
Hana a olhou também de canto, checando sua reação. Reconhecia a malícia sutil no olho da maga, a que tomava seu olhar quando queria provocá-la, e Celeste teve que se segurar para não franzir o cenho.
— Uma afronta. — Falou apenas, tentando passar uma raiva contida, mas tudo que conseguiu foi uma reposta monótona. Deuses, estava tão cansada.
Era uma felina, a Hana. Um tipo diferente da onça que existia dentro de Celeste. Ela pouco se importava com a rivalidade que acontecia em Sarin.
Celeste virou-se para a amiga, apoiando-se no guarda-corpos. Iniciaria uma conversa se a outra não perguntasse.
— Como está sendo para você?
— Tudo isso. O noivado. — Celeste manteve o rosto neutro. — Lembro que você não queria casar tão jovem. Nem tão rápido.
Não havia julgamento na voz de Hana.
— Foi… rápido. — Confirmou. Não adiantava mentir, seria estupidez mentir para ela, pelo menos nesse tópico. — Mas era o esperado.
— Está apaixonada? — Perguntou e Celeste notou a falta de um tom curioso real. Uma pergunta de quem sabia a resposta.
— Eu… — Naquele instante, Cedric entrou em seu campo de visão, bem a frente à enorme porta de vidro que separava os dois espaços. Celeste suspirou. — Estou. — A admissão saiu sem que permitisse. Seu coração doeu e a maga pouco se importou se Hana entenderia errado, se achasse que estava apaixonada por Lance. Estava tão cansada.
Hana seguiu seu olhar, um angustiado e triste para a visão que tanto almejava, dia e noite. A visão de um homem que ainda esperava uma ligação sua.
— Mas não por ele. — A outra completou.
Celeste saiu de seu torpor e olhou para ela sobressaltada, sua reação entregando de bandeja a confirmação.
— Você não olha para seu noivo assim. — Ela explicou, indicando com a cabeça o lugar onde Cedric certamente estaria. Celeste não ousou olhar novamente. — Eu sei que provavelmente não estou ajudando, mas você é mais fácil de ler do que você quer ser, Celeste.
O coração da maga de fogo bateu mais forte. Era, verdadeiramente, tão transparente assim? Estava colocando tudo em risco porque não conseguia controlar seus olhares, suas expressões? Lucien havia falado uma vez que o desejo estava óbvio nos olhos dos dois e isso a levara a loucura, na época. Colocara a culpa no conhecimento que ele tinha do caso.
Hana, por outro lado, sempre havia sido melhor em lê-la que qualquer outra pessoa, junto a Nick e Maddie. Celeste já havia se questionado se ela tinha algum tipo de dom extra que a fizesse perceber coisas que ninguém mais via. Era extraordinariamente boa em captar nuances que passara despercebidas.
Nem adiantava negar ou discutir, reagir agressivamente como costumava. Hana sabia a verdade. Não dissera o nome de Cedric e a herdeira Mechathin não tinha a confirmação sobre quem ela falava, mas não tinha como ser outra pessoa, tinha?
Ela não teria como provar se resolvesse contar a alguém, entretanto.
A maga de água se aproximou ainda mais, os ombros das duas se encostando levemente.
— Você merece ser feliz. Todas nós merecemos. — Ela disse, apertando sua mão por um segundo e dando-lhe um sorriso simpático. Saiu, entretanto, sem falar mais nada. Ao passar da porta, Nicholas tomou seu lugar na varanda.
Celeste tinha bom gosto. Nick tinha cabelos pretos e curtos, estilizados com leves ondas para aquela noite; usava uma blusa leve branca e calça preta, sem grandes detalhes. O relógio que a maga de fogo dera a ele tantos anos antes descansava em seu braço direito.
Ela sorriu ao vê-lo. Não sentia nada mais por ele, seu coração não se agitava com sua vista como costumava fazer; alegrava pela companhia de um amigo, apenas.
— Não tive muito a chance de conversar com você naquela noite. — Disse, aproximando-se dela. Nick não era uma pessoa muito extrovertida, diferente de Hana, nem mesmo expansiva; mas iluminava os cômodos que entrava, por isso, às vezes, parecia ser. — Seu noivo me observa como se eu fosse roubá-la debaixo do nariz dele.
Algo fácil, aparentemente. Celeste deu uma risadinha.
— Se forem brigar, levem isso para o jardim, por favor. — Brincou, sem sentir vontade.
Nick riu, alcançando finalmente o guarda corpos.
— Ah, eu não ousaria machucar ele tão perto do casamento.
A morena sorriu e ele retribuiu, mas o sorriso sumiu aos poucos. Ele a observou intensamente e disse, mais sóbrio:
— Espero ainda te ver nos concertos.
— É claro. — Celeste disse. — Não perderia.
Aquele era um pedido agridoce. Agora que estava noiva, os encontros anuais entre os dois acabariam definitivamente. Nenhum deles alimentava a esperança de voltarem, claro, mas ainda assim era esquisito pensar que aquele capítulo havia terminado. Não que pensasse em voltar a sua cama, estando tão apaixonada por Cedric.
Desde o término dos dois, Nick não se envolvera oficialmente com ninguém e Celeste chegara a se perguntar se havia machucado o mago ao terminar com ele logo após a menção de casamento. Achava que não, entretanto; Nick era apenas muito seletivo. Ele havia parabenizado a maga quando a notícia do noivado saíra e presenteado os dois com broches de ouro.
Não achava que restava sentimentos para ele, também.
— Está feliz? — Perguntou.
Devia ter esperado isso tanto dele quanto de Hana. Ambos sempre haviam demonstrado preocupação com o que ela sentia e não tinha porquê ser diferente daquela vez.
— Estou contente. — Ela respondeu. Honrar o compromisso com sua família sempre a deixava contente, afinal. Ou deveria deixar.
Nick assentiu e não a pressionou mais. Celeste bebeu mais um gole de sua taça.
— Como eles estão esse ano?
— Temos uma menina, a Emma. Um prodígio com apenas 12 anos. — Ele disse, ainda com sorriso no rosto. — Ela é uma refugiada de Aldoria.
Celeste assentiu, levando o champanhe aos lábios novamente. Aldoria era uma país vizinho de Sarin, destruído pela guerra civil que se desenrolada há anos.
— É para isso que fazemos isso, não é?
Conversaram um pouco sobre a situação do país, da menina e sobre a orquestra. Poucos minutos depois, Nick olhou pela porta ao sentir a aproximação de Lance. O mago de ar se aproximou, deixando um beijo em sua testa.
— Espero que seja feliz, Celeste. — Disse e saiu.
Muitos desejos de felicidade naquela noite, e estranhamente, nenhum deles parecia feliz.