The way she tells me I'm hers and she is mine (celric)
Cedric se sentou no chão do caminho estreito entre arbustos e árvores que circulava sua propriedade. Ele enxugou o suor da testa com a manga da camisa, tentando recuperar o fôlego após a corrida. Dessa vez, o exercício não tinha feito muito para retirar seus pensamentos do convite de envelope elegante que recebera mais cedo. Uma cerimônia de noivado aconteceria em duas semanas e oficializaria o compromisso firmado entre Celeste e Lawrence Doyle, acabando com qualquer chance de Cedric sentir os lábios da maga de fogo contra os dele novamente.
Ele lutou contra a vontade de se deitar ali mesmo e, após alguns breves minutos, levantou-se. Teria que se permitir sentir o peso no peito de saber que seria assim, dali em diante. Poderia apenas assistir de longe enquanto a vida de Celeste seguia em frente sem ele.
Ela parecia perfeitamente bem na televisão. Embora evitasse toques públicos, era pega por fotógrafos conversando com Lance nos mais diferentes eventos e sempre trazia um leve sorriso no rosto. Não eram os mesmos sorrisos que via quando estava a sós com ela, mas…
Era inútil pensar assim, ele se censurava, quando pensamentos como esse apareciam, sorrateiros. Mesmo que Celeste já houvesse insinuado que não sentia por Doyle o que sentia por Cedric, mesmo que ela precisasse evitar seu rosto em público para não desviar os olhos para seus lábios, mesmo que não parecesse tão feliz ao lado do outro homem quanto quando estava com ele… Ela tinha terminado tudo. Ele deveria respeitar seu pedido para que não a procurasse.
Apesar de saber disso, contudo, e de fazer o possível para calar a própria mente, Cedric ainda se perguntava se Celeste também se pegava revisitando as memórias que tinham juntos. Ela sentia uma dor parecida com a dele quando se viam? Também acordava ofegante com sonhos em que haviam voltado a se encontrar e beijavam cada centímetro da pele um do outro? Ela o beijaria de volta caso ele colasse a boca na dela?
Tais possibilidades o assombraram com inútil esperança pelas duas semanas que separaram o recebimento do convite e a festa, mas somente na noite anterior à data ele finalmente admitiu para si mesmo que considerava ir ao evento. Aquele não era um convite real. Tratava-se apenas de uma formalidade que servia para manter a ilusão de respeito entre as duas famílias. Nenhum Mechathin ou Bondurant comparecia de fato a comemorações como essas. Eventos culturais e públicos contavam com a presença de ambas famílias e, por vezes, exigiam que interagissem em diferentes níveis, mas aniversários, noivados e funerais eram pessoais demais. Não conseguiam fingir que se importavam quando os eleitores não estavam olhando.
A etiqueta exigia que as famílias se convidassem, mas também que enviassem uma recusa educada como resposta. Cedric não havia enviado a dele. Dispensou a assistente mais cedo na tarde em que recebeu o convite em sua mesa e o encarou por quase uma hora sobre a madeira, antes de guardá-lo na gaveta. Apesar disso, provavelmente os organizadores imaginavam que a ausência de resposta havia sido mero esquecimento.
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Seu motorista não discutiu quando o Bondurant entrou no carro de smoking preto e leu o endereço escrito em caligrafia inclinada no final do convite. Ao chegarem na Mansão Mechathin, os repórteres posicionados na entrada se esforçaram para fotografar o interior do automóvel, mas Cedric sabia que as janelas escuras os impediam de vê-lo. Não que não fossem todos saber sobre sua visita no dia seguinte, de qualquer jeito.
Assim que deixou o carro, após passarem por seguranças e pelo portão alto de ferro com belos detalhes retorcidos, não precisou mostrar o convite para mais ninguém. Os olhos dos convidados presentes e dos funcionários se arregalaram cada vez mais ao reconhecê-lo e Cedric encarou o edifício imponente onde a família Mechathin se reunia com interesse velado. Nunca havia estado ali e, apesar de se comparar em tamanho com o Casarão Bondurant, a morada Mechathin era radicalmente diferente. Os Bondurants preferiam construções belas, mas que demonstrasse praticidade ou inovações da engenharia. Os Mechathins, por outro lado, pareciam valorizar as minúcias do prédio, cuja fachada de três andares trazia detalhes delicados nas paredes, grades e colunas.
Cedric desviou os olhos negros para a entrada da festa rapidamente, no entanto, sentindo o coração se acelerar finalmente com as possíveis consequências de sua escolha de ir até ali. Enquanto caminhava em direção ao jardim iluminado, sorriu para os presentes, que o receberam com murmúrios e diversos “Vossa Graça”, pareados com pequenas reverências, algumas feitas de claro mal grado.
A festa de noivado era uma tradição para mostrar a comunidade que a época do cortejo acabara e um — ou mais de um — parceiro fora finalmente escolhido. Para os Mechathin, isso significava uma festa grande, como tudo costumava ser, com direito a convidados célebres. Era uma festa ainda menor que a de casamento, porém.
O jardim, previamente vazio, estava infestado de mesas, luzes e flores. Uma festa de primavera, ela diria, abençoado com um clima morno que permitia que usassem vestidos mais leves que os que se acostumaram nos últimos três meses. Celeste, naquele ponto, já tinha conversado e recebido congratulações de praticamente todos do jardim e estava ao lado de seu noivo quando o viu.
— Puta merda. — Ela falou, em voz alta, encarando o homem que entrava. Seu coração se acelerou e sua respiração falhou. Puta merda. Ele não estava fazendo isso. Cedric não era maluco a esse ponto.
Contrariando sua afirmação anterior, entretanto, o herdeiro Bondurant desfilou graciosamente pelo jardim, com rostos e rostos virando-se para ele conforme percebiam sua presença. Lance olhou para onde ela encarava, erguendo as sobrancelhas em uma surpresa mal contida.
— O que ele está fazendo aqui? — O mago perguntou, sem esperar realmente uma resposta, pois sabia que ela não teria. Não uma que poderia contar para ele, de qualquer forma.
Aquilo era sem precedentes. Não lembrava de alguma vez sequer qualquer membro de uma das famílias prestigiar a outra em eventos pessoais assim, nem mesmo como afronta. A tolerância em casamentos era por puro protocolo, já que era praticamente um evento público. Qualquer outra coisa era impensável.
O que ele estava fazendo ali? Celeste procurou se recuperar e sumir com o choque do rosto, permitindo apenas uma emoção se manifestar em sua expressão, uma que teria mesmo se não fossem ex amantes: raiva. O que diabos Cedric estava fazendo ali? Que gostava de provocá-la já sabia, mas não assim, não naquele ponto em que tinham se despedido de forma tão melosa. Estava tentando puní-la, de alguma forma?
Encarou-o por alguns segundos, ainda sentindo o sangue ferver. Qualquer emoção prévia que sentira ao vê-lo em eventos pós término sumiram. Lance já tinha virado-se para ela e a observava.
— Quer que eu dê um jeito de retirá-lo?
Celeste olhou para seu noivo, raiva ainda presente em seu olhar, e foi mais rude do que ele merecia:
— Está maluco?
Um Bondurant estar ali já era um escândalo por si só, mas expulsá-lo seria um ainda maior. As duas famílias tinham que fingir uma cordialidade e respeito que todos sabiam que não existia e nunca existiria.
E Lance não tinha poder o suficiente para expulsar um herdeiro de lugar algum.
Isso a irritou ainda mais, mas Celeste respirou fundo.
— Desculpe. Vamos apenas ignorá-lo e torcer para que ele vá embora quando se entediar.
Tentou voltar ao seu tom normal, firme mas simpático, e procurou Lucien com o olhar. Ele parecia ter percebido a presença do amigo há pouco tempo, pois parecia tão chocado quanto ela estivera segundo antes. Ele olhou para ela, provavelmente procurando sua reação, e o olhar duro da maga fez apenas um pedido — ou uma ordem. Faça com que vá embora.













