Reflexos de uma quase vida.
Depois de mais uma tentativa fracassada de suicídio eu sentei para pensar na minha quase vida. Eu estava em uma praça de alimentação de um shopping. Olhei para o lado e pensei em todas as coisas que eu sentiria falta, como por exemplo: o cheiro de terra molhada quando chove, o cheiro de livros novos recém comprados, o cheiro da lasanha que minha mãe faz de domingo, o cheiro dessas batatas do Mc Donald's que estou comendo. Saudades da minha família então nem se fale. Vou sentir falta de ouvir as músicas das minhas cantoras favoritas também. Percebi que vou sentir falta de muita coisa. A risada das minha amigas quando eu contava uma piada idiota só para ver elas sorrirem, mesmo estando morta por dentro, eu gostava de vê-las felizes. Claro que eu não poderia deixar de dizer que sentirei falta dos meus cachorros, mas acho que eles vão entender quando não me ver mais voltando para casa todo dia de noite. Vou sentir falta de muita coisa, mas não há nada que eu possa fazer para melhorar essa dor aqui dentro. E como dói. Não existe um remédio ou fórmula que faça isso passar. E a cada dia que eu passo vivendo assim a depressão e a ansiedade vão me engolindo aos poucos, cada vez mais.
Voltando a praça de alimentação onde estou, eu olho para o lado e vejo um casal com a sua filhinha brincando bem próximo de mim. Talvez poderia ser eu em uma realidade alternativa. Talvez nessa mesma realidade eu teria escolhido ficar e não acabar com a minha própria vida como estou planejando fazer. E ainda sobre essa mesma realidade eu poderia ser feliz. Mas ela não existe. O que existe é isso aqui, uma garota quebrada. Uma garota com o lápis de olho todo borrado de tanto chorar. Uma garota que teve o coração magoado mais de um milhão de vezes, uma garota que conhece o amor, mas não consegue senti-lo mais, uma garota que cansou de lutar e sofrer todos os dias e que decidiu dar um fim a tudo isso. Uma garota com uma cicatriz no pulso que vai ficar marcada para sempre em seu corpo.
Voltando ao meu suicídio, decidi então deixar a vida me levar e seguir os dias normalmente. Depois de quatro meses, tentei até desistir buscando a tal fé que todo mundo sempre falava, foi aí que eu pensei: Se realmente existe um Deus, porque ele não me ajuda? Quero dizer, se Deus fosse realmente tão bom como dizem não me deixaria aqui sofrendo tanto assim. Então eu decidi! Me mataria em um dia chuvoso e bem triste para combinar com a minha alma fria e triste. O estranho é que faz mais de seis meses que não chove nessa merda de cidade. Caralho universo! Me deixa morrer. Enquanto a chuva não chega fico pensando, sei que vão dizer que meu ato vai ser covarde, mas eu não ligo, não mais.
Eles não sabem o quanto que eu aguentei até aqui, não sabem o quanto eu lutei e o quão cansada eu estou agora. Eu só quero que a dor pare... Levanto da cama. Mais um dia de merda, mas eu me sinto melhor assim que olho para a janela. Depois de longos seis meses de seca e de sofrimento, eu me olhei no espelho e sorri. E olha que engraçado, hoje o dia amanheceu chovendo.
Certamente Perdida, Trechos de um suicídio.











