Let's start over — Sand Castle
Só um louco ficaria surpreso em descobrir que Brandon odiava as aulas de Educação Física, e o próprio havia sido apelidado de muitas coisas, mas por sorte insano não era uma delas. Tinha motivos suficientes para detestar qualquer atividade física, em especial aquelas que o faziam conviver com pessoas que detestava e dava-lhes novo material com o qual atormentá-lo. Não gostava muito de pessoas em geral, certamente não das suadas, e mesmo reservando-se ao mínimo de interações possível (fossem verbais ou corporais) durante o jogo, ainda se sentia obviamente desconfortável. Não era bom em esconder suas emoções, que transpareciam de forma irritantemente perceptível em sua expressão e linguagem corporal, e qualquer um que entendesse o mínimo de seres humanos e o visse correndo atrás de uma bola de formato bizarro no meio de um exército de brutamontes classificá-lo-ia como um sinônimo de desajustado, o que não seria de forma alguma uma descrição incorreta. Não se encaixava em Harrison High. Nunca o havia feito, e uma grande parcela da culpa por sentir-se um magricela bizarro e rejeitado pelos demais estudantes devia-se aos jocks, que o haviam atormentado desde que podia se lembrar com termos como vara-pau e seus semelhantes e tornado sua pré-adolescência o inferno na Terra.
Mesmo agora, depois de muitos anos e com alguns quilos a mais, o que Brandon via em seu reflexo era a mesma criança esquelética que havia sofrido com as provocações dos colegas e se isolado por conta disso. Estava diferente, e as pessoas que com ele conviviam certamente haviam notado, mas o próprio continuava ignorante ao seu novo tipo físico e aos milagres que a puberdade havia operado em sua vida. Talvez fosse esse o maior motivo para sua grande aversão à prática de esportes na escola: o fato de que se enxergava como o mesmo garoto desajustado e de ossos pontiagudos de quatro anos atrás. Como em qualquer outra escola pública, os vestiários pouco ofereciam em termos de privacidade, o que fazia com que Don sempre acabasse diante de uma escolha desafiadora: ficar fedorento ou mostrar-se nu na frente dos colegas? De um jeito ou de outro, a certeza de que ouviria gozações pelo resto do dia era inabalável, de modo que com o passar do tempo, acostumou-se ao ritual de esperar pacientemente junto à parede, os ladrilhos gelados provocando-lhe arrepios quando se encostava contra eles, e aguardar até que todos os demais houvessem terminado com sua higiene, tentando permanecer invisível e torcendo para que esquecessem momentaneamente de sua existência, caso contrário sabia que o perturbariam até que cedesse e se enfiasse debaixo de um chuveiro, somente para receber zombarias como retribuição.
Naquele dia em particular, seu plano de misturar-se com a paisagem e passar despercebido havia falhado miseravelmente, e os jocks o haviam escolhido como vítima. Tentava seu melhor para ignorar o que diziam enquanto remexia os conteúdos de seu armário nervosamente, mais para manter as mãos ocupadas do que para realmente procurar por algo. Quando novo, o que sentia quando aquele tipo de coisa ocorria era vergonha. Agora, o ódio que preenchia-lhe as veias, e precisava de muito auto-controle para não fechar os punhos e extrair alguns dentes do jeito mais difícil. Conter os impulsos violentos exigia esforço não por ser um rapaz impulsivo, mas por não ter motivos bons o suficiente para convencer a si mesmo de que aqueles marginais não mereciam uns supapos. O que repetia mentalmente como um mantra era que seria expulso caso arrumasse confusão e então teria que trabalhar no McDonald’s, condenado a uma vida de cabelos oleosos e atendimento a gordinhos mau-humorados, tendo cuidado de não pensar no fato de que ganharia lanches grátis pois podia ser um peso pena mas ainda adorava comer.
Daquela vez, sua estratégia parecia estar dando errado. Lembrava-se de uma expressão que parecia adequada para descrever o que estava acontecendo-lhe. Isso foi a gota d’água, foi o que quis dizer, mas não o fez. Sua respiração estava alterada demais para que pudesse articular frases coerentes, e ele sabia que estava prestes a afundar os nós dos dedos na cara de um daqueles filhos da puta. Estava ansioso pela oportunidade, e virou-se para encarar seus agressores, pronto para desferir alguns socos, quando uma voz interrompeu seu pequeno surto raivoso. "Não é como se o garoto fosse virar o Hulk só porque vocês estão rindo dele", havia dito o desconhecido, debochando dele com sua pequena amostra de piedade, mesmo que o fizesse sem perceber. E estava enganado, também. Virar o Hulk era meio o que estava lhe acontecendo naquele exato momento. Empurrou um dos jocks contra o armário, pressionando-lhe o pescoço sob o braço de forma a roubar-lhe o ar. “Vá à merda, seu filho da puta." Foi só o que disse antes de se afastar, recobrando a consciência a tempo de evitar um encontro com o diretor. "E você," Prosseguiu, dirigindo-se agora ao rapaz que acabara de se juntar ao comitê dos jocks, mesmo que parecesse ter intenção de defendê-lo. "Não preciso da sua ajuda. Fique longe de mim." Sibilou em sua direção antes de se afastar do pequeno grupo que se formara ao seu redor na base dos trancos. Sem dignar-se a dá-los mais um segundo de sua atenção, chutou os tênis e meias para longe, despiu a camisa, o short e então a cueca e, nu como veio ao mundo, enfiou-se sob um chuveiro que havia vagado no meio tempo. "Posso ser magrelo, mas pelo menos meu pau tem mais de dezessete centímetros." Acrescentou em voz alta, fazendo-se ouvir sobre o barulho do jato d’água.
Não esperava particularmente uma reação do garoto. Acostumara-se com o silêncio dele nos últimos anos de provocações; ou, no máximo, um olhar atravessado. Para ser honesto, sequer sabia o nome do loiro. Sentia-se culpado por aquilo, mas preferia disfarçar aquele sentimento com a mesma velha desculpa esfarrapada de sempre: jamais conseguiria mudar a mentalidade dos jocks sozinho. Por isso, não restava muita opção além de tentar ao máximo ficar longe das brincadeiras de mau gosto dos colegas. Obviamente, nem sempre seus planos funcionavam, e quase sempre Christopher era arrastado para aquelas situações contra sua vontade. Não queria admitir, mas não tinha a coragem necessária para enfrentá-los. Assim como não tivera para enfrentar seu pai, e adiara o confronto até ser inevitável. A experiência não fora das melhores, afinal, agora era obrigado à viver na casa de um amigo para não acabar nas ruas de San Diego. De qualquer maneira, nada mais poderia fazer, além de ser um mero expectador durante as agressões alheias proferidas por seu clique - ou, na melhor das hipóteses, acrescentariam-lhe mais alguns apelidos desagradáveis à lista de nomes a qual já circulava pelos corredores. Aqueles boatos sobre sua orientação sexual haviam fugido completamente ao seu controle, e sua esperança era torcer para que não aumentassem ainda mais. Bem, não conseguiria aquilo enquanto defendesse o mesmo garoto o qual zoara durante todo o ensino fundamental; então, depois de ter feito sua mínima colaboração, voltou à seu estado vegetativo, enquanto aguardava um dos chuveiros ficar livre.
A princípio, demorou a perceber a reação do loiro. Seu cérebro precisou de alguns segundos para processar a cena ao seu redor. Quando finalmente entendeu o súbito ataque, o outro já empurrava um dos jocks contra os armários. Ficou muitíssimo surpreso ao notar que os outros atletas não o haviam atacado ali mesmo no meio do vestiário, como um bando de leões famintos caindo sobre a última zebra da savana. Levantou-se, sem ter certeza de como proceder; se apartaria uma briga, ou se simplesmente iria para o chuveiro e ignoraria. Por sorte, nenhum conflito físico pareceu despontar no meio da raiva do freak. Ao menos, ele não havia realmente virado o Hulk. Não precisava ter de lidar com algum garoto zangado - e sem roupa - naquele momento. Tão logo soltara o outro, o loiro virara-se para Chris e fizera sua ameaça. O jock surpreendeu-se com aquela atitude. Não fizera exatamente grande coisa por ele, mas um pouco de gratidão seria ótimo. Tornou a sentar-se no banco, com as mãos erguidas em gesto de inocência - Então tá - murmurou, inexpressivamente. Não tinha a menor obrigação de ir atrás dele ou sequer de ser gentil com ele. Defendera-o por impulso, e não surtira muito efeito com aquilo. Realmente, constatara nos últimos anos como nenhuma das vítimas dos atletas precisava de ajuda, é claro. Porém, guardou seu pensamento irônico para si e desviou o olhar enquanto o outro rumava para o banho. Ouviu o último comentário e revirou os olhos, tentando ao máximo não se mostrar interessado no tamanho daquela parte anatômica em especial do corpo do menino.
Demorou mais alguns minutos até outro dos chuveiros ficar livre. O vestiário encontrava-se muito menos movimentado agora, e a maioria dos alunos já saíra para as próximas aulas. Apressou-se em despir-se e entrar debaixo d'água gélida. Aquilo fazia bem aos seus músculos doloridos. A simples perspectiva de ainda ser obrigado a enfrentar uma tarde inteira de treinos sob o sol escaldante. Queria acender um cigarro, mas não era estúpido a ponto de infectar o ambiente com o cheiro de nicotina. Era o único dos jocks a fumar, e o treinador sabia perfeitamente sobre aquilo. Já fora expulso de casa, não precisava repetir a cena com o time de rugby, também. Permitiu-se demorar alguns segundos com o jato do chuveiro em suas costas, tentando expulsar todos os pensamentos confusos os quais permeavam sua mente. Eram tantas pontas soltas em sua vida, sentia-se cansado apenas de pensar nelas. Não fazia a menor ideia de como faria para atá-las novamente, ou de como nortearia aquela pilha colossal de problemas a serem resolvidos. Desde criança, costumava desperdiçar seu tempo de banho a pensar sobre a vida, e aquilo não mudara. Pouco importava-se com a próxima aula; suas médias eram boas o suficiente para permitir uma folga de vez em quando. Fechou a torneira, e ocupou-se em secar-se e vestir sua roupa de baixo. Enquanto colocava as calças, ouviu uma série de batidas vindas de algum dos armários. Ergueu a cabeça, curioso - Mas que diabo...? - perguntou-se, mas antes de ir atrás, terminou de calçar os tênis e puxou sua camiseta de cima do banco.
Com a camisa em mãos, andou alguns poucos passos pelo vestiário até encontrar o armário do qual provinham aquelas batidas. Precisou de alguns segundos até reconhecer a voz abafada do mesmo garoto de antes. Um leve sorriso ergueu o canto de seus lábios, sarcasticamente. Os jocks realmente haviam trancado o pobre coitado dentro de um armário? Aquilo era baixo, até mesmo para os padrões dos atletas desmiolados com quem convivia em seu clique. Ainda assim, não deixava de achar graça na situação; afinal, o menino fora extremamente estúpido anteriormente ao falar com Chris. Novamente, ocorreu-lhe que não possuía obrigação alguma de tirá-lo dali, mas o faria simplesmente para não precisar conviver com a culpa. Apoiou-se no armário ao lado, e com uma oitava de ironia na voz, começou - Já que você foi tão simpático comigo antes, suponho que eu deva te deixar aí até o próximo treino. O que deve acontecer daqui - consultou o relógio de ponteiros sobre a porta de entrada do vestiário - à umas duas horas - concluiu, sem fazer o menor gesto em direção à porta do armário. Ouviu os protestos roucos do garoto por mais alguns instantes antes de apiedar-se e destrancar o compartimento. Afastou a porta o suficiente para que o loiro pudesse vê-lo. Com as sobrancelhas arqueadas e uma expressão de poucos amigos, jogou a camiseta por sobre o ombro, ainda apoiado na fileira de armários - Ainda bem que você não precisava da minha ajuda, não é mesmo? - perguntou em um tom leve, como se falasse do clima; e não com um garoto o qual acabara de, mais uma vez, ser subjugado por um clique inteiro do qual Christopher sentia o mais puro nojo.












