FLASHBACK, UM ANO ATRÁS. 01h24mim, NY.
Milo fungou, não conseguindo cessar as lágrimas que não paravam de escorrer de seus olhos. Maldito, maldito Phillip. Ele estragara sua vida inteira com o medo, fazendo-o se esconder, não revelar quem realmente era, o que realmente queria. E assim que descobriu, isso o que recebia? O homem não merecia a vida que tinha. Não merecia o dinheiro e não merecia a adoração de pessoas que, ingênuas, mal conheciam sua verdadeira personalidade. Não merecia a mulher incrível que tinha ao seu lado e muito menos o filho que tinha. Tinha, no passado. Nunca mais Milo seria associado àquele homem. Preferia ser um ninguém do que admitir que Phillip Bourgeois era seu pai.
Mas pelo menos ele havia ganho alguém incrível em sua vida. Não conhecia Christopher muito bem - afinal, antes daquela noite, os dois só haviam se cumprimentado poucas vezes em jantares políticos e coisas do tipo - mas era fácil observar que o homem tinha um enorme coração, que realmente se importava com o bem estar de Milo e que queria ajudá-lo. Ele também queria o abraçar, mas o receio de se machucar ainda mais o impediu. Tinha lágrimas em seus olhos, mas essas vinham agora por conta das palavras do mais velho. Nunca tivera alguém que se importasse tanto, alguém que o ajudasse. Parecia cedo, mas Milo já o amava com todo seu coração. “Okay” ele assentiu, conseguindo colocar um pequeno sorriso em sua expressão. “Chris….” ele deu-se a liberdade de chamá-lo pelo apelido, acreditando que já poderia ter essa intimidade. “Muito, muito obrigado…. Eu não sei o que teria acontecido se você não tivesse aparecido. Você é realmente a melhor pessoa que eu já conheci” o menino provavelmente estaria congelando nas ruas geladas de Nova York agora se não fosse pelo Underwood. Isso o fez pensar ‘como ele consegue me chamar de anjo, se ele foi o meu anjo da guarda todo esse tempo?’. Tal pensamento conseguiu arrancar um pequeno sorriso em Milo, que agradeceu mentalmente pelo outro existir.
Com a ajuda dele, conseguiu tirar todas as suas roupas, não tendo vergonha em ficar nu na frente do outro. Sabia que ele iria cuidar de si, e não fazer qualquer outra coisa. Com isso, entrou de prontidão na banheira de água morna, que provocou uma enorme ardência em seus machucados. Ainda sim, nada foi comparado a dor que sentiu ao lavar o corte no ombro, o que provocou um grito baixo. Não queria acordar o noivo de Christopher, mas a dor não o ajudava. A água já levava um tom avermelhado por conta do sangue, e o cheiro de ferro, característico do sangue, infiltrou-se rapidamente no ambiente. Milo comprimiu seus lábios para que pudesse conter suas suplicâncias à dor enquanto passava suas mãos pelo corpo, fazendo o sangue desgrudar de sua pele. Quase sem ar, ele soltou os lábios, respirando fundo. “Eu não consigo. Não consigo” ele exclamou com a voz embargada por conta do choro que voltara com força. Sua respiração era cortada pelos soluços, e ele só deseja que tudo acabasse. Não imaginava que cuidar de seus machucados fosse tornar-se um momento tão difícil, mas acreditava que aquele momento fosse o qual sua ficha caída. Ele não tinha mais casa. Não tinha mais nada. Meu Deus, ele não tinha mais nada. “Eu perdi tudo, Christopher. Eu perdi tudo…. por que isso? Por que eu não podia ser normal?” ele nunca lamentara tanto sua sexualidade quanto naquele instante. Se fosse hétero, talvez fosse feliz. Nada daquilo teria acontecido. Era a única coisa que conseguia pensar naquele instante, enquanto abraçava os joelhos em busca de conforto.
Também não sabia o que haveria de ter acontecido, apenas a possibilidade de Susan não o ter chamado, de Milo ter permanecido sozinho, o amedrontava. Vendo a gravidade dos ferimentos, imaginando quanta dor aquilo causava ao menino, Christopher não encontrava forças para conter seu próprio choro. As lágrimas silenciosas escorriam pela sua face, os olhos embaçados tentavam enxergar um pouco a face alheia enquanto engolia o nó que em sua garganta se formou. Milo sentou-se na banheira e imediatamente, o moreno se ajoelhou no chão para ajudá-lo a limpar do corpo todo aquele sangue. Mas a coragem de tentar colocar água nos machucados, essa não existia então apenas molhou a mão para levar um pouco de água para os cachos sujos do cabelo dele.
Os barulhos que o menino tentava abafar era de partir o coração. Em silêncio, passou a mão livre nos próprios olhos para limpar as lágrimas e em Milo se concentrou. O menino precisava de sua ajuda e chorando, não conseguiria para ele passar algum tipo de força. ‘ --- Respire pelo nariz, devagar.’ instruiu. Manter a calma era essencial e respirando apressadamente pela boca só iria dificultar. ‘ --- Você consegue sim, meu anjo. Falta pouco, okay? ‘ murmurou, olhando para aquele corte imenso que cada vez mais parecia-lhe precisar de pontos. Mas como faria aquilo? Não fazia ideia de como cuidar de um corte daquele tamanho, torcia para que quando este se encontrasse limpo, ambos vissem que não precisaria de tais remendos.
Mas tudo o que bem ali fazia, parou. Parou ao ouvir a frase escapar dos lábios machucados do menino. Christopher tinha uma ideia de que aquilo era apenas a dor falando, de que era a confusão da noite caindo sobre os ombros dele, mas a intensidade que aquelas palavras foram ditas foi pior do que se ele tivesse levado um soco na face. ‘ --- Pare com isso. ‘ repreendeu-o, o cenho franzido. Agradecia aos céus por agora não estar mais chorando pois para falar aquilo, precisaria manter-se firme. ‘ --- Não diga isso, Milo. Nunca. Você é normal, não há nada de errado com você. Eu não admito que alguém diga algo assim em minha presença, muito menos você. Ainda mais você. Parece o fim, não é? Mas não é. ‘ a cada palavra que dizia, seu peito apertava mais. Depois de expor o relacionamento para a família, demorou tanto para acreditar naquilo que agora, não importava quem viesse dizer o contrário, Christopher batia de frente. ‘ --- Não há nada de errado com você. Comigo. Eu estou em um relacionamento com um homem, Milo. Eu o amo. O amor é errado? Eu estou errado em amá-lo? ‘ indagou, buscando o olhar dele. ‘ --- Não. Eu não estou. E sabe por quê? Porque não é uma escolha, não é uma opção. É o que eu sou, é o que você é. E isso não é errado. Essa frase não é sua, é do imbecil homofóbico, do lixo que aquela criatura é. E quem disse que você perdeu tudo? Deixe-me perguntá-lo, aquilo era vida? Esconder-se? Mentiras? Fingir ser alguém que você realmente não era? Sofrer calado?’ maneou a cabeça em negação, novamente tendo que enxugar as lágrimas. Parecia não mais estar falando da vida do menino, mas da sua. As situações eram tão semelhantes que o destruía por dentro. ‘ --- Não perdeste tudo, Milo. Muito pelo contrário. Você acabou de ganhar. Acabou de ganhar o mundo inteiro…‘ murmurou mais suavemente, subindo a mão para esbarrar o indicador na pontinha do nariz dele. ‘ --- … uma vida, uma vida de verdade pela frente você acabou de ganhar. E eu sei que ver isso agora parece impossível, mas eu vou te ajudar. Vai ver que ‘