Sete de Setembro
-Chega, João! Quase que eu mato a mãe do Abel! Acode, aqui!
-Como foi isso, seu Euclides? Óia, o braço dela tá inchado. Terá quebrado?
-Bota ela pra calçada. A peste desse jumento do diabo! Chiiih! Ôoooh! Te aquieta! O bicho se espanta por nada.
-O braço num quebrou, não. A valença dela é que a rua ainda é toda na areia. Que foi que esse jumento viu?
-E eu sei?! Ele vinha escoiceando, escoiceando, bem aqui já rente com a quitanda. Foi ver ela e deu um pinote que quase que me derruba. Chiiih! Chiiih! Eu vou te amarrar aqui, peste!
-Amarre naquele mourão, ali. Agora eu tou com pena é desse braço dela.
-Eu ten’ mastruz, aqui. Peraí, tá nesse cofo aqui que eu vou levando lá pra Dedé. Chiiih! Óoooia! Humm! Num tou dizendo! Quieta!
-Pois traga que eu vou pegar um mulando pra amarrar no braço dela com o mastruz.
-Me dá aí o mulambo que eu mesmo amarro. Traz um pouquim de cachaça pra passar nas fronte’ dela.
-Taqui.
-Agora eu vou é a pé, vou deixar esse peste de castigo aí no mourão.
-Pois o se’or num vá por ali, não. Vá mesmo pelo campo do Fabril que o se’or sai quase em cima da casa da Dedé. Por ali num vá não, é um areial medonho. Óia, ela tá tornando!
-Dona, a se’ora tá boa?
-Oh, seu Euclides, o se’or me desculpe! Eu num vi quando o se’or ia passando com o jumento, eu vinha de cabeça baixa e atravessei na sua frente.
-Se a se’ora quiser pode pegar um remédio aí na quitanda pra se’ora, na minha conta. Dê pra ela um guaraná, João. Na minha conta.
-Foi Deus que mandou o se’or, seu Euclides! O guaraná vai servir pro aniversário do meu menino Abel. Deus lhe dê muitos ano’ de vida!
-Pois eu já vou, precisando… João, qu’é do Chaga? Tá viajando?
-Tá.
-Por isso que a amplificadora não tá tocando esses dia’.
-E a Dedé teve foi outro menino?
-Foi, agora é três. Tudo homem. Deixa eu ir indo que eu vou a pé.
-Seu João, me ajude aqui a levantar.
-A se’ora ia comprar alguma coisa?
-Ia, sim. Me dê uma quartinha de farinha branca. E uma colherzinha de sal.
-A se’ora não quer da puba, não? Tem uma caroçuda que chegou agora, a bicha é boa.
-Não, eu quero é da branca, mesmo. Hoje é aniversário do Abel, vou fazer pra ele uma paçoca de gergelim. Ele gosta. Faz é dia que eu tava guardando esse gergelim pro aniversário dele.
-E qu’é do ele?
-Hum, se eu lhe contar… Ele arrumou um emprego.
-E foi?
-Foi.
-Pois ele já tá é homem! Quantos ano’ ele tem?
-Dez, completa hoje.
-E qu’é do pai dele, que faz é tempo que eu num vejo?
-Tá lá pra capital do presidente. Construindo a cidade. Faz bem uns dois ano’ que ele num dá notícia.
-E a se’ora num tem medo, não? Sozinha com esse menino.
-Eu por mim a casa tava era cheia, mas Deus não quis. Tive sete antes do Abel, nasceram tudo morto. Eu já num tava mais nem acreditando que ia ter mais filho. Fiz até promessa.
-E foi?
-Foi.
-E como foi?
-Foi faz é tempo. Na inauguração dessa igreja aí, essa de São Sebastião. A bicha parecia assim uma Matriz, grandona. Eu convidei o Custódio, mas ele não gosta de igreja. Mas mesmo assim eu convidei. E fiquei convidando, convidando. Passei o dia todim convidando ele…
-Mas a se’ora disse pra ele que era por causa da promessa?
-Não, que promessa ninguém diz pros outros. Pois bem, eu fiquei convidando, convidando, e nada dele ir comigo. O Custódio não gosta de igreja, o se’or sabe. Sabe sim, o se’or sabe. O se’or sabe porque o se’or conhece o Custódio. Aquele ali, hum! Quando diz uma coisa …
-Mas aí, a se’ora foi?
-Fui, mas já fui quase no finzim. No caminho eu ia dizendo assim “oh, meu Deus, eu quero ter um filho” (porque a gente já era casado mais de três anos). Eu ia repetindo isso todo tempo, todo tempo. A promessa era essa “o primeiro nome que o padre falar vai ser o nome do meu filho”! E aquilo foi me dando força, me dando força, até que eu cheguei na igreja. Era aquele mundaréu de gente. Todo mundo escutando o sermão do padre, aquelas palavra’ bonita’! Eu fui me chegando mais pra perto pra puder entender a voz dele. Até que entendi: “Abel foi morto por uma pedrada…”
-Ah, eu sei, foi o irmão dele que matou ele. O irmão dele mexia com animal, e ele mexia com plantação. Os dois tiveram uma zanga...
-E o se’or foi também na missa nesse dia?
-Não, é que essa história é antiga, todo mundo conhece. Eu nem vou em missa.
-Ah, o se’or é igual ao Custódio. Pois bem, eu fiquei com o nome gravado na cabeça. E no outro ano eu já tava com barriga. Aquilo foi uma alegria danada lá em casa, nesse tempo a gente morava lá noutra casa, num era nessa aí não. Mas o menino nasceu morto. Aí passou-se, passou-se, quando foi uns dois pra três anos depois nasceu outro morto. E assim era quase todo ano. Foram sete, como eu lhe disse. Eu já tinha era me esquecido da promessa quando o Abel nasceu, mas aí quando ele nasceu eu me lembrei logo da promessa! E taí o menino, hoje faz 10 ano’. Já até tá trabalhando. Hoje é o primeiro dia dele no serviço. Foi um colega dele do colégio que arrumou o emprego pra ele.
-E como é esse serviço dele?
-Ah, é um serviço muito bom! Ele só trabalha no sábado e nos feriado’, igual hoje. Só nos dias que não tem aula pra ele. E é numa bicicleta, óia! Ele é doido por bicicleta.
-E dá dinheiro esse serviço?
-Hum, pois se eu num tou lhe dizendo que o serviço é bom. O dono da bicicleta só tinha uma bicicleta no começo. É assim, a bicicleta fica lá na Praça da Graça. Ele me contou tudim. Ela fica lá, e eles lá pastorando as bicicleta’. Os menino’ (que agora é dois, o colega dele e ele). Pois bem, chega uma pessoa lá na praça, essa pessoa pode ser uma que foi só comprar alguma coisinha numa loja e quer logo ‘ir pra casa ligeiro’ ou pode ser uma que tá em algum hotel lá da praça e precisa ir pegar o ônibus pra viajar pra cidade dele ou pro interior dele. Essa pessoa não pode pagar um táxi que é muito caro, tem ‘as pessoa’ que pode pagar táxi mas essas não são freguês deles, são freguês dos taxista’. Aí a pessoa paga a bicicleta-táxi pra ir até a casa dela ou até a paragem dos ônibus. O serviço é tão bom que o dono agora já tem duas bicicletas. E uma é a que o Abel tá trabalhando hoje. O cliente vai pedalando até a casa dele ou até o lugar dos ônibus e na volta o menino vem sozinho na bicicleta, o se’or quer serviço melhor que esse, passar o dia passeando de bicicleta? A corrida é dividida, metade pro dono da bicicleta e metade pros dois menino’. O dinheiro é pago na hora. Se furar um pneu o menino tem que consertar, mas o meu Abel é muito cuidadoso, ainda mais com uma bicicleta.
-Óia a arrumação, eu já ia esquecendo seu guaraná. A se’ora quer o de laranja ou o de guaraná mesmo?
-E o seu Euclides tava falando sério mesmo? De mesmo-mesmo?
-É sério. O velho não é de mentir, não.
-Pois eu quero é o de guaraná mesmo que é melhor. Eita, que quando ele chegar pro almoço vai ser uma festa!
-Leve logo sua farinha e seu sal antes que a se’ora esqueça.
-E eu tinha esquecido mesmo, hoje acordei toda atarantada. Deve ser por causa do aniversário dele. Eu venho deixar a vasilha do guaraná de tarde pro se’or, seu João.
-Trague só amanhã, mesmo. ‘Tou pensando em fechar de tarde, o movimento tá fraco hoje. O vuco-vuco tá todo lá no centro por causa do feriado. E a mulher lá em casa anda ruim, tava até baldeando de madrugada. Deve ser bem arrumação de menino de novo, a Teresa num é de adoecer assim.
-Já vai ser dois, seu João?
-Era pra ser três, o primeiro morreu assim que nasceu.
(…)
-Seu João, me dê mais uma meia-quarta de farinha. O gergelim rendeu que só!
-Vou pesar logo é 150 grama’ no lugar da meia-quarta. Deixa que eu anoto só meia-quarta no caderno da se’ora, confira aí.
-Ah, seu João, eu num sei lê não. O se’or falou eu confio. Agora se o se’or mostrar pro Abel ele lê tudim. O menino é inteligente que só. E agora é que ele vai longe, doença ele já pegou de tudo em quanto! Num tem mais doença pra pegar, todo ano era uma doença nova, era um sofrimento medonho!
-Eu me lembro mesmo quando ele pegou papeira e catapora quase que uma em cima da outra. Passou foi tempo sem vir aqui na quitanda, o bichim sofreu mesmo.
-Ah, mas antes da gente vir morar aqui perto o se’or precisava era ver! Era cada doenção que fazia era medo. Parece que as doença’ vinha era escolhida pra ele. Mas esse ano, não. Esse ano ele vai passar o aniversário dele sem doença nenhuma, com fé em Deus! Só vai faltar o pai dele.
-E a se’ora já fez a paçoca com esse braço doente?
-Ora, e eu tenho é dois braço’. Graças a Deus que a pancada foi no braço esquerdo. Já pensou se eu tivesse sainda da quitanda, num ia ser bem no meu braço direito? E ainda ia derrubar minhas compra’. Deus é tão bom que foi na hora que eu vinha vindo pra cá.
-E o sal deu?
-Deu, ainda tinha uma sobrinha lá em casa. Deixa eu ir indo que ainda vou cuidar no almoço.
(…)
-Seu João, o seu Euclides disse pra eu levar o jumento dele.
-Leva, mas deixa aí a bosta dele que eu vou fazer estrume.
(…)
-Bença ti’ João.
-Deus te abençoe.
-Ti’ João me dê um copo chei’ d’água que eu fui correndo pegar o cofo do seu Euclides lá na dona Dedé. Ele esqueceu.
(…)
-Seu moço, se eu for direto aqui nessa rua vai dar lá na Guarita?
-Pode ir.
-É longe?
-É não.
(…)
-Bom dia, mestre. Qu’é do Chaga?
-Só chega daqui uns dia’ mas sua mercadoria taqui. O se’or num é o Zé Fausto?
-Sou sim, taqui o dinheiro dele, confira. Mas o se’or já me conhecia?
-Não, mas do jeito que ele disse é o se’or mesmo. Com essa barbazona e esses cabelo pelas orelha’, os ombrosão’ graúdo, é o se’or mesmo.
(…)
-Seu João Barbinha!
-Barbinha é tua mãe fi’ duma égua!
(…)
-Seu João, o se’or troca pra mim aqui?
-Rapaz, hoje o movimento tá fraco, o dinheiro que eu ten’ é tudo moeda.
(…)
-Seu João, me bote um quarteirão da tiquira que o se’or tem debaixo do balcão.
-Ela é pesada.
-Pois eu quero é dessa mesmo!
-E pra tira gosto? Quer uma sardinha dessa do cambo?
-Oh, porra! Esqueci meus peixe’ tudo!
-Que peixe, rapaz?
-Peraí que eu vol lhe contar, peraí, deixa eu ir cuspir aqui na calçada que eu sei que o se’or num gosta quando a gente cospe perto do balção. Bote só uma sardinhazinha mesmo que eu vou já almoçar. Óia, o se’or viu aí? Tou conheçendo mas num tou me lembrando de onde.
-Vi, é o segundo hoje que passa de bicicleta por aqui. Ind’agora um todo malamanhado passou perguntando onde era a Guarita. Respondi, fiz cara feia e ele saiu pro rumo de lá.
-Pois eu fui pescar hoje… Onde é que eu deixei os peixe’?… Lá no Sossego, bem cedim… E agora se eu deixei foi lá na delegacia?… Ahhhh, essa é da boa mesmo, seu João!… Pois eu pesquei foi muito, era peixe de todo tipo… O fi’ duma égua que ficou com meus peixe’ vai ter uma dor de barriga tão grande que ele vai ver!… O se’or sabe que eu só ando é caminhando, ora se era d’eu vir por ali eu vim mesmo foi pelos trilho’ que é mais ligeiro, quando a gente se espanta a gente já tá na dentro da cidade. Aí eu vi um brilho bem nos dormente’. Como fosse um relógio. Corri, me abaixei… Deixa pra lá, sábado vou pescar de novo… Era um farolzim de bicicleta, tava novo mas tava quebrado da queda. Deve ter caído da bicicleta. Aí eu rebolei o farolzim no mato. Lá longe vi um bêbo deitado nos trilho’ do trem. Depois me arrependi, podia ser que o foquito tivesse. Se eu lhe disser que num era um bêbo, seu João? Era um menino! Tava com a cara toda quebrada duma pedra. Quem fez deve ter deixado lá pro trem passar por cima. Saí correndo feito um doido, o se’or sabe que dia de hoje o trem só chega lá pras onze hora’. E isso era cedo, num era nem 9 ainda… E agora será que eu fiz foi derrubar os peixe’ quando saí correndo desembestado?… Fui parar lá numa fazenda onde eles criam uns boizão’ preto, o se’or conhece? Pois foi lá. Dei a notícia, eles foram chamar o delegado, um dos vaqueiros foi prestar atenção no menino morto. E eu fiquei sentado lá, me tremendo todo, nunca tinha visto um negócio daquele… É, eu acho que eu deixei cair foi quando saí correndo… O delegado chegou, levaram o menino. Eu tive que dizer a história todinha na delegacia, aí eles me liberaram. Cheguei agorinha-agorinha de lá. Seu João, de Deus! O menino parecia muito com o…
-Seu João, seu João! O Custódio chegou de viagem agora-agora. Comprou até uma bicicleta pro Abel, lá na Guarita, o se’or acredita? Diz que foi um homem que tava vendendo bem baratinha a bicicleta…
-Don…
-É verdade, num tou brincando não. Ele passou aqui em frente da quitanda mas num falou com vocês porque tava avexado pra mim ver. Ele trouxe foi muito dinheiro lá da capital…
-Mas…
-Taqui, eu num tou lhe dizendo, risque aí meu caderno todim. Ainda vai é sobrar troco pra mim. Deus é bom! Bote aí mais duas garrafa’ de guaraná que hoje vai ser o melhor aniversário do Abel. Amanhã o Custódio mesmo traz as vasilha’ do guaraná aí o se’or conversa com ele. A bicicleta que ele comprou tá nova, só tá faltando um bichim da frente mas tá nova…
Parnaíba, 10 de junho de 2020










