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toda leitura, sobretudo, é uma invenção.
. . .
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@ciscozappa
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Ensaio em telas de afeto ~ 2mile16
»day for night« by laurel woodcock (+)
tocar é oco sem pele pelo músculo desejo troco-me, quando toco sou outro outrem, em mim quando toco
Buscar um lugar nunca visitado. Olhar no mapa. Ter apenas alguns pontos de referência e lá me voy. Dia nublado, melhor levar a sombrinha em caso de chuva, afinal tá no tempo dela, junho, início de inverno e em Recife chove de alagar. Na parada, o ônibus nem demora muito ainda que seja feriado, o bom é que não tem aquele trânsito infernal do dia-a-dia. O rumo? Casa Forte, Santana, arredores do Poço da Panela. Estava a procura de um parque às margens do Capibaribe. Desço na parada que considero a mais próxima, chove, abro a sombrinha e sigo andando, chego a uma grande praça, deve ser aqui, sim, o parque. Que agradável! Um pouco pequeno para ser chamado de parque, parece mais uma praça… “Praça Compositor Antônio Maria”, leio na placa.
Sim, não era o parque, ainda, mas estava próxima. Era uma dessas praças adotadas por uma instituição privada, bem cuidada e ao mesmo tempo selvagem, orgânica, sem muito traçado planejado, prefiro assim. Sigo caminhando sob as árvores, atravesso um pontilhão, lembro lugares que conheci na infância, a cena de algum filme, Amélie Poulain em Montmartre lançando pedrinhas no canal. Não tenho máquina de fotografar - ainda terei – mas registro imagens na retina, guardo em algum recanto da memória e de repente a imagem surge diante dos meus olhos, como a linha de trem na Vila Dois Carneiros, um lugar quase rural, as duas mulheres andando na linha do trem, o morro verdinho ao fundo, na curva da linha, o silêncio e eu olhando, fotografando.
Procuro um banco que não esteja molhado, não encontro. A chuva que havia cessado volta, fininha. Lembro uma moça que encontrei um dia no ônibus, uma moça do interior, simples e simpática, que disse: a chuva na cidade grande é diferente do interior, aqui ela chega de repente, depois para, volta, para. Na minha cidade não, lá a gente vai vendo chegar a nuvem que traz a chuva devagarinho, aí começa a chover e chove até acabar, depois num chove mais. Achei bonito aquilo, aquela imagem que ela me deu, a comparação com a chuva da cidade grande. Pra mim foi uma metáfora que as coisas no interior são mais simples, mais constantes e definidas e nos grandes centros urbanos não.
Fecho os olhos, sinto cheiro de sândalo. Na praça, poucas pessoas, uma mulher passeando com dois cachorros, outra fazendo cooper, um rapaz mais próximo de mim, cada vez mais próximo. Boa tarde, sabe se tem um parque aqui perto?
O rapaz parece alguém que conheci há algum tempo, ou talvez um personagem de algum filme. Eu sorrio pela coincidência. Ele retribui o sorriso mesmo sem entender. Eu vim parar nesta praça a procura de um parque, explico. A chuva engrossa, ofereço o abrigo da minha sombrinha, ele aceita. Saímos caminhando sob a chuva, ele me fala de viagens de trem, de trilhas e trilhos, moças andando no trilho do trem, na curva da linha, o morro verdinho ao fundo… Acho que chegamos, o parque é ali! diz o rapaz com um lindo sorriso nos lábios, fecho os olhos e o cheiro de sândalo entra pela minha boca.
Esculturas Musicais 18 - Carla Diacov
a leviandade por ser presença
fica
teu vulto evolui e se encrespa a ser novo vulto através das pontas dos meus dedos
há já algum resíduo
na inocência e na violência é minha
a pressa
envelheço me ajoelho tiro a sorte na posição dos dias
você vem?
na inocência e na acedência
a leviandade
você vem fica
há o resíduo penando no fundo do poço
você vem?
há um pássaro em repouso
se você não chega
como tudo que vibra por baixo do gesto
respira voa é violenta inda cisca
há uma ave que eu não
há alguns metros que eu não
há uma esferográfica e há um século e meio sobre
a mesa se você chegar antes
//////
é um milagre
fiz umas fotografias das ruas das gentes
nas ruas suas perucas suas roupas
suas décadas
cheguei a sentir saudade quando fiz
essa fotografia da mulher com berinjelas no colo
cheguei a sentir saudade de alguma coisa ali
tenho medo de voltar à fotografia
da mulher com as berinjelas
a vida toda vai ser isso de não voltar
nunca ao instantâneo
da mulher com as berinjelas no banco perto da praia
é muito bonita a imagem toda e cheia
de lembranças que não são minhas
a nuvem porém uma só nuvem miudinha e porém
se essa fotografia tivesse um nome chamar-se-ia nuvemporém
eu jamais voltaria lá nunca sozinha
ou desarmada
não eu jamais voltaria
o milagre é não voltar
a mulher estará
é um milagre
SE A MULHER BEIJA OS JOELHOS
ESPREME AS BERINJELAS
é um milagre ela saber e não fazer
eu não quero voltar
lá eu não volto
lá ela estará
não me obrigue a voltar
esse milagre é só meu
SE A MULHER BEIJA OS JOELHOS
//////
em noites mais quentes fazemos chás da primeira mansidão da noite quente chás ou então sopas das folhas imóveis das pedras agitadas mentira é que faz-me falta ter o homem do adubo é que faz-me falta ter a mulher do adubo nas noites mais frias faríamos sorvetes ou então mentiras é que eu estou só estou só conheço tudo pelo tato em noites amenas estou só e toco a campainha dos vizinhos e corro pra debaixo do lençol só
uns fios de estar só uns fios de cabelo na boca e só
o peso dessa espera me puxa pra cama a gravidade dessa espera faz-me mais longa me joga aos postes me empurra ao largo das borrachas infláveis
estou só conheço tudo pelo tato a mentira dos olhos ouvidos o truque nos joelhos dos poetas
faríamos chás sorvetes mentiras sopas
//////
MAÇÃ MAL CABIDA
faz já dois candelabros que ela não olha para trás uma mulher de olhar para trás mas então agora é o prato chinês os ossinhos do pato no canto perto da mão esquerda o garfo com seus dentes virados para o quadro onde um cavalo e sobre ele uma garotinha forçando o rosto num raio de sol muito mal pintado num tom de maçã mal cabida ali pobre pobre beleza pobre mal cabido ali faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás metodologia de sondar sem ver uma faca no assoalho de cupins uma vaca bordada no guardanapo novo uma mulher e um homem e uma roda de tortura uma vaca bordada na cara da mulher onde o homem maria de deus uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada uma vaca bordada na cara dela e se ela se botasse a cantar e se se ela botasse a querer lamber um peito marinho e se ela se botasse a pensar num estupro supracoreografado uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não ela usa um terno cinco tamanhos maiores faz treze luas que ela não faz treze náuseas que ela não olha para trás uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali se ela se bota a voltar a olhar para trás se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar se ela se bota a criar uma boa superstição com taças já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não olha para trás se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa se ela se bota a entortar o quadro uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura uma carcaça bordada na cara da mulher onde o homem maria de deus onde o homem se ela se bota a cruzar os ossos essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca se ela se bota a estranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas se ela se bota a pentear a franja com o garfo se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas se ela se bota a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal faz já onze moscas que ela não olha para trás
//////
o burro trota tão lentamente perdido do nome gritado carrega ovos nas mãos escondidas nas mangas do casaco extralargo coitado do burro com mãos perdido da moldura antiga pacífico de sua própria demência bonito tão bonito pacífico tão lindo lentamente ruma já a casa de fé nos olhos de burro parece um peixe coitado pacífico tem esse jeitão de aquário trincado gosta de cadeiras em geral mas é boa gente gosta de leite quente e de cadeiras em geral chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia deixa os ovos no altar faz carinho nos porcos pega o microfone e repete quase porque quase porque quase tudo empilhado quase porque quase porque quase porque
é mesmo um burro queria ser pianista tem muita fé quase porque tudo empilhado mas é mesmo um lento burro de carregar ovos pacífico todo pacífico demente e lindo tão bonito tudo empilhado
//////
entrega-me a palavra amanteigada
sou bem mais súcia sendo a louca da
rua da pamonha
doze ovos pelo preço de um cão
dopa-me despe-me carca-me
machuca minhas dobras atando-me reta
ata-me ao palavreado vicioso
tranca-me ao sanatorinho das sentenças que
não
sou mais louca falando jaula flácida
entupimento pela cor
meta no meu reto sua pose de cu
veja como em qualquer circunstância
tua boca besuntada em pink fica bem
meta na minha boca seus doze corações de abóbora
dobra-me a vista a crista
meta na minha cuia seus doze papos de anjo
lasca-me o nariz até fazer flecha
aponta-me o orifício
abóbada zinco lips coniforme mientras
eu nunca mais vou aprender a falar nó
eu nunca mais vou esquecer de te dizer mó
//////
mulher com galhos
cingida pelos teus próprios galhos
morrendo de medo de nada
nada é mesmo engraçado
mulher com galhos risonha
e a mulher com galhos passa atravessa a ponte de prata
ajeita os galhos
queima os cascos
e continua rindo abana o rabo égua
certa de que está no caminho errado
rindo
mulher de galhos
linda meio linda e metade égua
linda
rindo feito égua
tua língua é olho-d’água e gaiola
tecido que bordo
debrum da colcha onde quero me enrolar nos dezembros todos
tua língua d’égua
Poemas de Amanhã alguém morre no samba (Portugal: editora Douda Correria, 2015)
Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975) tem poemas publicados na COYOTE e em vários sítios na internet. Afora seus tantos blogues (http://nichosdamortaquasemenoria.blogspot.com.br/), tumblrs, plataformas digitais em geral, é uma devotada integrante do site Escritoras Suicidas, tem um bom apanhado na revista Germina Literatura, na Mallarmargens e publicou na Revista Usina, na Revista Ellenismos e através de seu selo, Ellenismos Livros, tem o e-book FAZER A LOCA. Também publicou no Jornal RelevO, nas revistas Diversos Afins, Elefante de Menta, Cruviana (terceira edição), Zunái, Musa Rara e no site Cronópios. Recentemente agregou poemas inéditos à Vida Secreta#2 e à eletrônica Portuguesa, Enfermaria 6. Integra as coletâneas 70 Poemas para Adorno (fruto do Festival Literário da Madeira/2015) e Antologia Poética 29 de Abril, O Verso da Violência (Editora Patuá/ 2015). Pela Douda Correria, Amanhã alguém morre no samba é a sua estreia universal em livro solo (Maio, 2015).
Here’re some progress photos of the latest painting. (:
🌐🔃🔛〽️
LIVE SPEAKERS FEEL FREE TO CONNECT #mindyourelanguage
Dimensions: 31.5 cubic meters
Cibelle Cavalli Bastos
Redman | Da Goodness
Mustang Bar Stela Campos
Pierre Boulez: a música como ar que se respira. http://youtu.be/HXJWHG_6KAI
nossa capacidade de aprender altera o problema de procurar um grão de areia no universo para procurar um grão de areia com alguém que te acompanha ou te avisa quando você está chegando perto. se deixarmos de perceber que esse alguém pode ser qualquer um que esteja próximo ou não, íntimo ou não, não apenas estaremos perdendo nossa capacidade de aprender e de nos relacionarmos, como também estaremos amplificando um antigo comportamento anti-social que estimula a exclusão pela anulação e morte do outro, independentemente das leis, direitos e princípios éticos.
entre a face e o sabor - instante A
o olhar de Jardel o olhar de Glauber sobre o olhar de Jardel o olhar negro menino espanto do Brasil não ser
não sei mais de onde tirei esse texto.
o papel estava dentro do livro "o cru e o cozido".
não sei e o tempo rói... escrever de um fôlego só ao ponto às vezes de terminar antes de ter começado provoca uma pequena angústia de terminar cedo demais. de se destruir por impaciência. angústia ligada ao eclipse do outro ao mesmo tempo que do conteúdo referencial. efeito de eletrocução. efeito de recuo como o de uma arma. instantâneo de uma coisa em via de desaparecimento. pois tudo sobre o que escrevemos está em vias de desaparecer. é a única necessidade de escrever além da própria obra, daquilo que sobra. impaciência milenar na escrita. dizer as coisas muito rapidamente de forma a não ocupar a linha, na espera de um telefonema excepcional, se livrar do que temos a dizer, não há mais tempo para explicar, para convencer. não há tempo para a previsão unicamente para a antecipação, a precedência do pensamento, que não tem outra finalidade que de precipitar as coisas e o que ele procura nunca é a prova, ele procura a evidência, implodir a evidência ao custo da verdade, ao desprezo da realidade. nada de escrúpulos com a realidade, temos de aproveitá-la criminalmente até que apareçam palavras para dizê-lo. tudo isso bem que sem fundamentos é de uma evidência flagrante. naturalmente se há efeitos de pensamento há também efeitos de compensação. para cada experiência de pensamento há milhares de compensações. quem achar o quem o outro a outridade diga quem é depressa antes que se desfaça a intenção da procura.
confesso que nego
todo ato é meu último enamorado do primeiro confesso
pra melhorar versos como vírgulas sacaneio ditongos respiro ansioso, causo danos ativo a gula, reativo um jogo um pula pula entre palavras só pra derrubar teclados, canetas, ideias toscas lambuzar corretos versos, vesti-los de puta eliminar rimas, tolos excessos só pra não ficar só
e ela
chegar ansiosa com meu telefonema aos gritos acariciar-me com a pergunta - o que foi?
e ver meu riso entre papéis rasgados molhados desconexos e um resto ofegante de inspiração atirado às lacunas de um hiato como se este fosse meu último ato confesso
para exortar pessoa em meus versos sequestro heterônimos em insones madrugadas sorvendo mel comendo Lisboa visto os fantasmas das frases do desassossego e assombro por toda a página cálidas metonímias. não amo a norma amo a curva e o abstrato não faço trato com o culto nem destrato o simples e inexato aposto no fim do impossível quando este atinge o ponto máximo pra acontecer não meço um livro por suas táticas o volume das vendas cegam e as vozes das ruas sem nenhuma solenidade continuam a queimar gramáticas
fernando cisco zappa
voz: fernando cisco zappa poema: os poetas elétricos. este poema está no cd: poemas eletri-ficados e outros que foram embora