voz: fernando cisco zappa poema: os poetas elétricos. este poema está no cd: poemas eletri-ficados e outros que foram embora

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voz: fernando cisco zappa poema: os poetas elétricos. este poema está no cd: poemas eletri-ficados e outros que foram embora
Original Sin by Richard T Scott, 2010
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no buraco do outro
do outro lado do corpo
oro por oriqui fictí...cio
(cisco zappa)
um de mim, um eu que outro sou, uns como eus
traça humana
traça humana
romeu ganhou o primeiro diário de sua tia virgínia, a loba, como ficou conhecida entre os boêmios e literatos da cidade. aos oito anos romeu fingia leituras e inventava sinopses para os colegas de escola e jornais. passava horas a escrever seu diário. organizava suas anotações por datas e temas. os filosóficos eram divididos em 3 grandes categorias: filosofia dedo em riste (ou moralista), filosofia da preguiça e filosofia franca. pertencente a esta última categoria, escrita em seu nono diário, estava uma das suas frases prediletas: o problema do paraíso é que a gente só chega lá morto.
romeu comeu página por página da novela "bóris e dóris". uma torta de tinta e celulose se alojou no estômago. uma profusão de sentidos cirandava, amplificava, rolava pela corrente sanguínea até pipocarem em seu cérebro. saiu do seu solitário cômodo de guardar diários. entrou no quartinho de tampinhas e deixou lá mais uma. sua alma relicário suspirou. sentou-se à mesa, tonteou a cabeça, abaixou-a sobre os braços sobrepostos na mesa. segundos depois levantou sem mais nove horas, rodopiou a cabeça alongando o pescoço, serviu o café e reparou no rosto absorto de emily. pegou o jornal, franziu o cenho e disse: seu maior problema é o excesso de romantismo e a total ausência de ambição, dóris. com um susto estampado na voz emily bradou: que dóris romeu? tá louco?! emily, no instante seguinte, já carregava além das dúvidas, pensamentos confusos: romeu falando, romeu reclamando, romeu lendo jornal enquanto toma café. bateu a mão na mesa e saiu. romeu, tal qual bóris, não manifestou nenhuma reação, manteve-se calmo e com indiferença falou alto para que ela ouvisse onde estivesse: ao longo da minha vida eu aprendi muitas coisas. uma delas é: as grandes alegrias, assim como as grandes tristezas, são solitárias.
doutor o desgraçado comeu novamente um livro. venha logo, venha antes que ele saia.
diferentemente de zelig que não sabia muito bem quando tudo começou, marcada em seu diário, romeu podia ler a data de sua transformação em traça humana. o início de uma espécie de metamorfose literária que o acometeu. a ruptura da linha tênue que mascara e separa o real e a fantasia. romeu partilha com o infame inseto de pouco mais de 1 cm, a enzima celulase que possibilita a quebra das fibras para a absorção do amido e da proteína da celulose. as semelhanças param por aqui, pois romeu não se transformava no inseto tal qual fez gregor samsa. sua transformação era outra. romeu dava vida aos livros com o próprio corpo. abril, 1973, segundo dia do mês, quinta-feira. a professora margareth estava lá com aquele decote impronunciável, um impostado tom íris lettiere na voz e aquela implacável e dura exigência de perfeição: romeu quero a leitura das duas primeiras páginas do alienista na ponta da língua. mas romeu não podia. romeu gaguejava. romeu estava apaixonado pela maravilhosa helena. romeu tinha medo de falhar diante de helena, de matar seu sonho-batalha-erótica com helena. romeu não queria se expor e ser destroçado por cícero, o melhor leitor da turma e, pior ainda, o namoradinho de helena. romeu não suportaria a derrota por não conseguir ler na frente de helena, diante daquele perfume de rosas brancas matinais de helena. cícero aproveitaria o vexame e triunfante faria uma exuberante leitura. seria o lastimoso ponto final.
romeu sentia um tédio imenso quando tinha que dizer qualquer coisa ou uma das dessas idiotas locuções corriqueiras. era um sistemático convicto. seu sistema era o sumamente imprescindível. o mundo já era miserável demais. para não dizer acenava com a cabeça e com o movimento fazia se entender. nunca teve a pretensão de dizer tudo. escrevera no 11º diário: aquele que diz tudo não é apenas um arrogante presunçoso, é sobretudo um impostor. emily, dona eurídice sua mãe, mercucio, benvolio e julieta seus irmãos, e sua velha tia conheciam e interpretavam todo o seu repertório de gestos. que eram, como ele, simples, sintéticos e comunicativos. seu pai, william, batia na cabeça de romeu, fala menino! não tinha paciência para leituras corporais. dizia que o filho primogênito não tinha doença, tinha um dom enviado por shakespeare. suicidou-se logo depois que romeu comera "os irmãos karamázov". deixou uma carta dizendo que o ato era uma forma de salvar-se perante deus e resguardar o filho de pecado maior.
romeu nasceu em um domingo, 400 anos depois que shakespeare. gostava de chuva, de escrever diários e, há uns dez anos começou a colecionar tampinhas, quaisquer tampinhas. em seu livro de registro de tampinhas somava 2.293 unidades, catalogadas e distribuídas em 2 estantes de aço. tudo começou quando comeu "o crime de sylvestre bonnard", no entanto, por alguma razão não foram as caixas de fósforos seus objetos de devoção. em seu diário existia inúmeras reflexões sobre o ato de colecionar e o de escrever diários, ordenadas em duas outras categorias básicas: o ato de colecionar, a escrita do diário. sobre os diários ele escreveu no dia 9 de setembro de 1999: os diários devem ser lidos com calma. muita calma. nossos olhos devem estar em estado de lesma para percorrerem com lentidão as vagas das páginas e suas ondas de sentimento íntimo.
a primeira vez que romeu foi internado ele culpou a professora margareth, mais tarde escreveria em cima do seu nome a alcunha: professora de ferro. foi naquele perturbado dia 2 de abril de 1973. pouco antes de entrar na sala, comera todas as páginas do livro. fez mais romeu, comeu todas as páginas dos cinco exemplares do alienista que existia na biblioteca da escola pouco antes de começar a aula da professora de língua portuguesa e literatura. o fato é que já não era romeu, era simão bacamarte que suava o calor de 34º que fazia na turma 3ªA. diante de todos, com uma voz que não era a sua, disse: todos vocês serão meus hóspedes na casa verde. olhou fixamente para a professora e a agarrou pela cintura com uma força descomunal e disse: a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas, eu sei onde uma começa e a outra acaba, pra que transpor a cerca? a turma percebeu que algo de anormal acontecia e vários saíram correndo pelos corredores. o inspetor serra entrou com seu peito musculoso sala adentro e tomou logo uma pesada - dizem que ficou casto. o grito foi ensurdecedor. o grito de romeu foi silencioso. a família de romeu em prantos aguardou por 17 longos dias a volta do rebento.
a tarde começava a se confundir com a noite quando romeu entrou no carro de emily, saía de sua décima primeira internação. emily já quase não suportava, dona eurídice, como sempre, também estava lá, com um terço na mão e um patuá na outra: romeu meu filhinho. romeu tinha perdido à visão. romeu comera “o ensaio sobre a cegueira”. ao chegar em casa ganhou de sua filha penélope um gravador. aproveitou a situação e proferiu uma de suas últimas frases: deixem-me ir e só.
romeu passou a viver trancado dentro de um quarto-cela no meio do quintal, insulado. todo branco com uma cama branca, uma pia branca, um vaso sanitário branco, um piso branco debaixo de um chuveiro branco, uma mesa e uma cadeira brancas e o gravador preto. o quarto era pequeno, com uma pequena janela de madeira que nunca iria abrir. fora seu último desejo quando ainda estava internado: um cômodo único sem divisórias. uma pequena janela e uma pequena porta, sem a possibilidade da entrada de luz. a única luz que em alguns momentos iluminaria o cômodo seria a ínfima luz de uma vela. não suportava a vida exposta, nem à luz, nem ao mundo dos outros.
romeu sentia o cheiro dos diários e uma dor fria se alojava em seu peito. o cômodo onde guardava os diários fora trancado. os diários se tornaram inacessíveis. romeu pensava diariamente nos diários, lembrava detalhes e frases de cada um deles. era como se os diários fossem uma espécie de hd externo. sem eles, sem a lembrança deles, romeu estaria completamente vazio. romeu silenciosamente esfriava o calor do sentimentos intensos. sentia pra dentro procurando um rumo para se perder de vez. dia após dia percebia suas lágrimas secarem. com o tempo a frieza do sentir foi se transformando em riso. o riso se transformou em desejo de escrever. ele tateou, abriu a gaveta branca da mesa e alcançou uma caneta e escreveu sua última e definitiva frase em um guardanapo esquecido no bolso, leu em voz alta: por causa de mal-lidos livros, aprisionei minha vida. por ironia e coerência com esta mesma miserável vida feito uma traça sumirei pelas frestas do mundo. fez sua única gravação no aparelho digital que penélope havia lhe dado. com um gesto abusado, com se um personagem novo descesse de algum esquecido livro, escreveu em uma das brancas paredes: indecifrável é a vida que permanece em silêncio e imóvel. lembrança menor que desaparece junto com a velha mobília da casa. no dia seguinte, ao redor da ilha de romeu, uma indescritível bruma se formou. emily chamou por julieta, penélope e dona eurídice. todas sentiram um arrepio. chegaram até a porta, não conseguiram tocar a maçaneta. um silêncio imenso. ao abrirem a porta uma forte luz iluminou inteiramente o cômodo: a cama, a pia, o vaso, a mesa branca e sobre ela uma caneta, o gravador, a frase na parede e mais nada.
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cisco zappa
belo horizonte
eu sou o meu reino inteiro desde a medida epicurista desde o céu de wenders desde o invertido sinal matemático desde o imemorial nascimento da palavra desde antes da morte de deus desde o início e o fim das ruínas ao precipício
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cisco zappa
eu ando tão download que baixei a velha guarda.
debaixo do ver adulto surge uma nova praça
direto do viaduto santa tereza dos arcos, entre a rua da bahia e a sapucaí: grito, cuspo na propaganda: a questão não está no conflito ter e ser. veja! somos redondamente enganados.
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cisco zappa
estou absorto absurdo absolto absclaro.
estou muitos.
somados ponto a ponto sou os pontos dispostos de modo
absorto absurdo absolto absclaro
numa curva. quando assim fico,
impermaneço na contracorrente da pedra de toque dos tempos modernos:
a velocidade.
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cisco zappa
nesse banquete descontínuo onde a lua nunca finda e o sol não está só lamentamos ausências jogamos pedras pétalas livros nesse banquete eu traço me desfaço em riscos linhas tortas e linhas curvas vi.veremos as mil e uma noites de uma atitude sem lastros nem castros apenas em companhia uns dos outros
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cisco zappa