Acham-me exagerada quando abro a boca, ridícula quando me calo, malcriada quando dou uma resposta, manhosa quando tenho uma boa ideia, preguiçosa quando estou com sono, egoísta quando me sirvo mais. Uma tudo ou nada, estúpida, covarde, interesseira, etc., etc....
O dia inteiro tenho de ouvir que sou uma criatura insuportável, e acredite: embora ria ou finja não dar importância, nada daquilo me é indiferente.
Eu queria pedir a Deus uma outra natureza que não irritasse tanto os outros. Mas é impossível. E, de resto, se sou assim, sinto, no entanto, que não sou má. Faço muito mais esforço para agradar a todos do que eles imaginam. Rio só para não lhes mostrar a minha dor íntima. Mais de uma vez, quando discutia com a mamãe e ela era injusta comigo, dizia: " Tanto faz como tanto fez. Melhor é não se preocupar mais comigo. Sou um caso perdido."
Dizem que sou malcriada e me ignoraram durante dois dias. De repente, tudo é perdoado e esquecido. Mas eu não posso ser um dia muito simpática e carinhosa com alguém para o odiar logo no dia seguinte. Prefiro não me aproximar dos extremos, guardar os meus pensamentos e tratar as pessoas com o mesmo desdém com que me tratam. Ai, se eu fosse capaz disso!
Sua Anne.
- O diário de Anne Frank










