Os Museus na Revolução Francesa
The Luxembourg Palace, Paris/France. © Clara Ungaretti
Sobre esse tema, foi-nos sugerido em sala de aula as leituras de alguns autores: Philipp Blom - Ter e manter: uma história íntima de colecionadores e coleções; Dominique Poulot - Museu e Museologia; Cícero Almeida - O "colecionismo ilustrado" na gênese dos museus contemporâneos.
Partindo da primeira leitura, Philipp Blom - Ter e manter: uma história íntima de colecionadores e coleções, é abordada a transição das coleções antes privadas ou reais, para museus públicos. Um processo, aliás, lento na Europa. Foi apenas a partir da concepção de Estado Moderno que foi possível mudar o pensamento sobre as relações de âmbito privado para público. Com a consolidação do Iluminismo, governantes europeus começaram a disponibilizar suas coleções acessíveis para o povo. Um exemplo que o autor traz é o antes palácio real do Louvre que deveria ter se transformado em museu durante o reinado de Luis XVI. Inclusive arquitetos foram contratados para fazer essa conversão. Porém, burocracias praticamente pararam com todos os projetos para viabilizar a construção do museu. Quase uma semana após a queda da monarquia francesa (1792), um repositório de obras de arte foi transformado em museu público. Infelizmente, as salas/repositórios não dialogavam com a sociedade revolucionária, então em 1794 foram feitos reparos para sintonizar as exposições com os ideias revolucionários. Exemplo: obras de cunho religioso foram trocadas por pinturas com foco em bravura, heroísmo e história. Uma das grandes mudanças foi a nomeação de um novo diretor do museu pelo Napoleão Bonaparte, o colecionador Dominique Vivant Denon. Foi a partir de uma revolução (francesa) que foi possível criar o primeiro grande museu que não ficasse focado aos caprichos de curadores e nobres.
Denon arranjava objetos seguindo ideias e metodologias históricas (cronologia, escolas nacionais, evolução dos estilos) e de acordo com o gosto do curador (o que antes era o que somente acontecia). As seções de pinturas eram organizadas segundo um espírito racional conforme gênero, espécie, subespécie.
O museu do Louvre não durou por muito tempo conforme os moldes de Bonaparte e Denon, pois com a guerra de Waterloo, muitos países confiscaram seus objetos que outrora foram adquiridos (espólio de guerra, por exemplo).
Com sua nova função, os museus europeus assumiram o papel de educadores públicos e orientadores do gosto e do conhecimento. As coleções se tornaram objetos de conservação (dedicadas à classificação, à representação, à prevenção) e não mais de exploração.
Por fim, vale acrescentar o que o curador de zoologia do Museu Britânico descreveu como planejamento de um novo museu (vale para nós futuros museólogos):
Primeiro é preciso ter um curador. Ele deve examinar cuidadosamente o objetivo do museu, a classe e a capacidade das pessoas para cuja instrução está sendo criado, e o espaço disponível para conseguir esse objetivo. Dividirá, então, o assunto a ser ilustrado em grupos, e levará em conta suas proporções relativas, e de acordo com elas planejará o espaço. Grandes etiquetas serão preparadas para os principais temas, como os capítulos de um livro, e etiquetas menores para as subdivisões. Certas proposições a serem ilustradas, tanto em estrutura, classificação, distribuição geográfica, posição geológica e hábitos como em evolução dos assuntos tratados, serão apresentadas em linguagem clara e concisa. Por último, virão os espécimes ilustrativos, cada um ocupando o lugar para o qual foi preparado (BLOM, 2003, p. 145).
A jornada, portanto, de um proprietário nobre para uma administração profissional e finalmente para uma propriedade do Estado é o processo que se deu em toda a Europa para a formação de museus.
Nossa segunda leitura, Dominique Poulot - Museu e Museologia, em seu capítulo IV sobre os museus da França, o autor afirma que as suas origens são revolucionárias, sendo uma gênese caótica e uma relação única com o Estado, baseando-se no confisco de bens do clero e da nobreza durante a Revolução Francesa.
Focando primeiramente nas artes, o autor aborda os salões de arte e o declínio de sua forma tradicional - dos procedimentos de compra e venda das obras, por exemplo, em que havia uma recompensa pública aos artistas que eram protegidos pelo rei. Inclusive, as obras ilustravam as glórias do rei. Com a Revolução, há contestação sobre a utilidade de conservar um legado - do rei - que era visto como execrável.
Outro movimento mencionado é as espoliações (espólios de guerra). A ideia é o museu justificar todas as espoliações, evitando o repatriamento das obras-primas para os países de origem. Uma das justificativas está com relação à organização das obras no museu: durante a década de Império (1804-1814), os conservadores do Louvre organizavam as obras conforme uma ordem cronológica a fim de contribuir para os estudos sobre a história da arte, do percurso e desenvolvimento humano ao longo da história. Agrupar, portanto, todas as obras e não separá-las em cada país contribuiria para os estudos, segundo os moldes imperiais franceses. Particularmente penso que essa questão de repatriação precisa ser muito analisada: existem diversos casos em que o local de origem dos objetos sequer existe mais, outros não possuem um local seguro para salvaguardar, sem falar em locais que estão atualmente em guerra (Síria, Iraque etc.). Como se poderia preservar e tornar público (para visitas) para as pessoas objetos oriundos dessas regiões, por exemplo? Creio que nesses casos específicos, é melhor estar em local acessível e que se possa proteger/preservar. Agora, qual local 'escolher' e por quê? Enfim, não é uma tomada de decisão fácil.
A terceira leitura feita foi do artigo de Cícero Almeida: O "colecionismo ilustrado" na Gênese dos Museus Contemporâneos. Os museus, como identificamos atualmente, começaram a se desenvolver a partir do século XVIII com a urgência dos estados nacionais em preservar seus patrimônios e heranças. A ideia em si de museu como atualmente conhecemos começou a ser definida a partir do Renascimento e do Iluminismo (acentuada prática colecionista), com força total com a Revolução Francesa, instituindo-se o conceito de "patrimônio nacional”. A experiência revolucionária francesa se deu pelos confiscos primeiramente dos bens da Igreja, seguindo pelo dos nobres e da Coroa, incitando uma nova reflexão da Assembleia, esta focada no papel do Estado na escolha dos bens que deveriam ser preservados para simbolizar a nação e outros que deveriam ser destruídos.
Assim como Poulot, Cícero Almeida menciona o jovem artista Alexandre Lenoir, responsável pela guarda de um depósito que continha peças de um convento - muitas esculturas inclusive confiscadas pela Igreja. Obteve posteriormente a autorização para oficializar a mudança de deposito para museu (o Museu dos Monumentos Franceses).
Aqui no Brasil, o movimento de criação de museus surge em 1818 com o Museu Real, depois Imperial e atualmente Museu Nacional no Rio de Janeiro (sim, infelizmente o que pegou fogo recentemente e praticamente toda a sua estrutura fora destruída, além das coleções) aos moldes dos museus europeus, já que o Brasil era dominado pelos portugueses (D. João VI).
O autor faz alguns movimentos no texto de recuo e avanço temporal, chegando a mencionar momentos históricos como o Antigo Egito e a Antiguidade Clássica que já tinham práticas de colecionismo, de espólios de guerra etc. E reforça que a partir do Renascimento essas práticas colecionistas sofrem intensas alterações. Muitos papiros, por exemplo, continham informações que serviam de inspiração e de estudos para o artista Michelangelo. Esse é um dos motivos, entre tantos, pelos quais é preciso preservar a história, os objetos, os documentos. O estágio da “curiosidade" e/ou “raridade" mudou para conhecimento histórico e científico.
Sugestões de museus para visitar referentes às leituras:
https://www.louvre.fr
https://www.mnhn.fr/fr