consiglierelorenzo:
Em nenhum momento Lorenzo se preocupou em interromper o rompante de raiva de Clarice. Chegara até se perguntar onde estava a própria raiva em função daquela situação, mas ainda se sentia parcialmente catatônico. Sem contar que, a cada movimento da ex-corvina, outras preocupações ganhavam autoridade, como não deixá-la se arriscar em algum tipo de estupidez. Nem por ele, mas mais por ela e pelas pessoas que, feliz ou infelizmente, sabia que prezava. Em contrapartida, sentia certo deleite em vê-la perder a compostura, refletindo-se em ondas pelo ambiente, seja pelas faíscas da varinha ou pelos itens arremessados a cada reclamação da parte dela. Um deleite incoeso, pois, ao longo da sua experiência na famiglia, sabia que raiva era um grande motor para realizar as mais abruptas decisões. Era encantador, no mínimo, ainda mais da parte de uma mulher que, até onde acompanhara, nunca fora tácita, porém, não perdia o temperamento. Além de ser totalmente distante, a parte que os equiparava. Todo seu convívio era masculino e sabia de cor e salteado como os homens da máfia se comportavam uma vez consternados. Não se considerava dono de tais modos, especialmente quando fora afunilando o próprio modo de operação assim que compreendera o fundo do poço que era a máfia. Logo, delineando a própria personalidade. Limitada. Unilateral. Contida. Reservada. Racional. Não podia negar certa elegância da parte da ex-corvina até na raiva e era essa a parte que secretamente o entretinha. Rendendo novas tragadas no cigarro, que continuava a lhe oferecer ondas de relaxamento, enquanto sua atenção era completa na figura feminina pelo hábito de agir depressa em casos de contenção de danos. - E você quer que eu te chame como? Posso manter o Frozen? - ele perguntou, ignorando a rispidez de Clarice. Bateu, novamente, o cigarro no cinzeiro, observando-a tornar o ambiente à prova de som. - Você não convive comigo o suficiente para saber que, às vezes, consigo ser engraçado sem me esforçar. - e a afirmação saiu sem o esboço de um sorriso. Um olhar penetrante da sua parte foi direcionado à mulher irrequieta. - Aliás, seu sangue tem uma pitada de italiano e acho que terei que conferir o filme novamente, visto que você está justamente honrando a péssima atuação da Lady Gaga. Exacerbada e descontrolada. Acho que, em termos de cafonice, estamos quites. - ele devolveu a provocação oriunda da piadinha sobre a aliança. Foi naquele instante que esboçou um raro sorriso, moldado em presunção, que se apagou no instante que tragou o cigarro. - O que te faz pensar que eu sabia dessa maracutaia? Quando, de certo, eu esperava que, hoje, fosse o dia da minha libertação? - não havia um dia sequer que Lorenzo não esperara uma libertação da vigia de Clarice. E agora percebia a realidade de que a vigia se transformara em um matrimônio do qual nunca fora informado em toda sua vida. Era um treinamento e isso o fez sentir uma onda breve de consternação, pois começava a se dar conta de que tinha sido enganado. Como um soldado calejado, sabia que aquele não era o ambiente para expressar emoções. Tampouco expressá-las. Aprendera bem demais a aplicar indiferença. - Emendando todas as suas questões: você gostaria que eu reagisse como? Dando tiros pelas paredes? - ele perguntou, com a mesma calmaria que parecia inflamar mais os nervos de Clarice. Manteve-se em silêncio, pois, de fato, ela não pararia até soltar tudo que tinha para soltar, dando-lhe tempo de encerrar o cigarro. - Caso lhe fuja da compreensão, minhas escolhas não são minhas desde que ingressei na famiglia. Não é necessariamente uma novidade, a não ser o contrato com nossos nomes no meio dessa caótica situação. Disso, Frozen, não sabia. - ele se atraiu pelas faíscas mais longas da varinha dela e franziu a testa assim que o estrondo contra as pratarias atingiu o chão. Suavemente, deslizou a língua pelos lábios, antes de se oferecer o resquício de água da taça. Moveu-se na poltrona, de um jeito rígido. Não havia “tudo mais” quando o assunto era ser integrante de uma máfia conhecida internacionalmente e a mente de Lorenzo se educara muito bem para não ver além daquilo. Nunca se deu ao trabalho de questionar, nem mesmo ver uma chance para ter as próprias escolhas. Ainda assim, se viu meio incomodado com aqueles apontamentos. - Como disse, donna, não tenho escolhas desde que nasci. Isso não me abala nem um pouco. - ele retribuiu o olhar atento, líquido de honestidade que duvidava muito que Clarice acreditaria. Se detestavam mutuamente e poderia fazer a apresentação da vida e ela continuaria a questionar. O arrastar da poltrona anunciou que se levantaria. Passou por ela a fim de organizar com a própria varinha o caos que a ex-corvina causara no ambiente. Sendo clínico, como se limpasse a cena de um crime. - É bom quando você sabe das próprias respostas, pois não tem meios para você lutar contra. Isso do pressuposto que seu papà é quem comanda a famiglia, então, automaticamente, você é parte dela. Querendo ou não. E, sim, reportar quem faz parte do seu convívio é trabalho de praxe. Tanto pela possibilidade de serem elementos de outras máfias quanto porque podem ser meramente ilustrativos. - falar sobre a máfia não era um tabu diante de Clarice, porque ela sabia da verdade. Ela sabia das próprias origens. No entanto, não significava que podia distribuir informações aprofundadas, pois não era leal a figura que se mantinha em estado de alerta, extremamente irritada e pronta para quebrar a varinha ao meio se assim quisesse. Indo contra todas as suas regras pessoais, Lorenzo se aproximou, coicindindo com o timing do punho dela atingindo a mesa de madeira. Delicadamente, como se a pele dela fosse tão frágil quanto a prataria, retirou a varinha de sua posse e a colocou sobre o mesmo ponto atingido. Com um breve aceno de cabeça, indicou para que voltassem aos seus respectivos lugares. Ignorando o formigamento nos próprios dedos em efeito de tê-la tocado sem permissão. - Clarice, pare um segundo! - ele pediu, quase implorando, com o dedo indicador em riste para desviar a atenção dela. - Quebrar objetos não vai mudar a realidade, capisce? - a constatação, de certo modo, o atingiu sutilmente. Não pelo alarde do casamento arranjado, mas porque as informações sobre não ser capaz de mudar ou coordenar a própria jornada queriam tomar conta do seu organismo. E isso o faria oscilar quando não era o objetivo. O objetivo era controlar a ex-corvina. - Senta. - ele pediu, dando a volta na mesa para abrir a única garrafa de vinho lacrada. Por via das dúvidas, era sempre melhor beber alguma coisa para apaziguar o caos de dentro. Elegantemente, destampou-a e serviu dois dedos do líquido tinto em uma taça limpa para Clarice. - Você realmente soa como uma adolescente e estou fazendo de tudo para controlar meus nervos. - ele se pronunciou assim que serviu-se do mesmo vinho. - Ninguém precisará se atirar da ponte, não seja dramática. E também não posso colocar em discussão como você se sente. Por isso mesmo te pedi caridosamente que não se manifestasse e mantivesse a compostura. Agora, sei que você é temperamental e um perigo à sociedade. - ele argumentou, sentindo um mínimo prazer palátavel do vinho de origem italiana. - Eu disse, na primeira vez que a vi, que não posso dar um passo sem você. Então, creio que a única pessoa que pode me dizer como isso funcionará é você mesma. Afinal, para sua infelicidade, eu sei atuar. Como também sei manter as aparências. Ao menos nesse pedaço, o noivado será anunciado como se tivessem encontrado o coração do oceano da velha do Titanic. Quanto às pessoas ao nosso redor, podemos blefar. Não me importo de ser o canalha que largou a esposa e te pediu em casamento. Ou que éramos amantes até minha esposa morrer e eu herdar toda a herança. Não sei por quais motivos você se preocupa com essa parte, quando a humanidade é trabalhada para dar desculpas esdrúxulas e que são facilmente digeridas. Trabalhamos com construção e desconstrução de cenários. Logo, isso será a parte mais fácil. - um sorriso forçado aliviou as finas linhas de cansaço da expressão de Lorenzo só de pensar na cara de Elissa e de Ravi ao anunciar que de repente noivo. E de Clarice ainda por cima. Respirou fundo de novo, quase bufando. Checando se havia outro risco de rompante de raiva para conter. Apesar de ser completamente desconectado de suas próprias emoções, era fácil notar que ela se abalara com aquela nova informação que os condenavam um ao outro. Lidara com várias viúvas depois de seus crimes. Não que Clarice fosse uma, mas ela poderia ser analisada como tal na sua mente para que elaborasse um pouco mais de empatia. - Como você é auror, domina estratégia, e a prioridade a partir de agora, donna, não é mais como você se sente. São as pessoas que você se importa. Por essa parte, mi dispiace davvero. - apesar de Clarice já ter as próprias conclusões sobre sua pessoa, ele estava sendo honesto de novo. Tinha uma família e sabia que teria que pensar além do que normalmente já pensava para que sua posição não respingasse nas poucas pessoas que importava. Contrafeito, ele deslizou a mão na testa. Sentia-se agitado. - Sei que não confia em mim, do mesmo tanto que não confio em você, mas, neste primeiro momento, essa é a melhor forma de externar o fato. Depois, torná-lo mais adequado ao que você precisa, visto que não sou a parte mais importante da equação. Pela lógica da famiglia, você é meu mais novo produto, o acessório, e gosto de andar sozinho. Não tenho a menor intenção de te transformar em oferta de zoológico. - o olhar atencioso de Lorenzo podia dizer muitas coisas, mas a principal delas é saber que todas as pessoas ao redor de ambos acabaram de ter um alvo nas costas caso vacilassem. E era importante que ela se sentisse segura ali. Não necessariamente com ele, já que era uma bomba desembrulhada. - E como ainda temos um pouco de humanidade para querer que ninguém morra por nossa causa, é bom que alinhemos um plano eficiente, em que você não precisará sorrir o tempo todo, e nem se comportar como uma adolescente apaixonada por mim. Creio que, nesse primeiro momento, você ainda consegue exigir algumas coisas e imagino que queira privacidade. É um benefício que você pode usar, como a futura noiva. - ele se anteveu ao novo movimento dela e, por reflexo, segurou-a pelo pulso suavemente. - Essa é a hora mais importante da sua vida, onde é possível barganhar. - o sussurro era um alerta que ele esperava que Clarice entendesse. - Assim como você, eu também não quero isso. A parte calamitosa é que teremos que pensar nisso juntos até que chegue algum momento que esse trato não seja mais necessário. - ele a soltou, confiando de que ela não quebraria mais nada. Ajeitou a postura e as abotoaduras douradas da camisa azul-claro. Serviu mais vinho para os dois, resignado. - Tratos não duram para sempre. Em algum momento, eu posso ser dispensado da função. Se você estivesse no cerne da famiglia, poderia indicar um noivo mais adequado. Ou, quem sabe, você pode indicar seu novo affair, Patrick Dickinson Lupin, para mantê-la dentro do reinado italiano. - as sobrancelhas dele se arquearam minimamente em sinal de deboche. - Se queremos que esse pseudocasamento funcione, não tenho motivos para reportar suas palavras ao seu papà. A não ser que sejam extremamente alarmantes. O que não é caso. É uma situação que dá para resolver. Veja bem, Clarice, você pode pedir uma grande casa em que possamos dormir em quartos separados, porque você é instável de manhã e não fala com ninguém até a hora do café. - ele sugeriu, com um Q quase omisso de entretenimento. Elegantemente, apoiou os cotovelos sobre a mesa e nivelou o olhar, como se fosse dar a última palavra de esperança. Definitivamente, não era o caso. - Eu não posso te controlar. Só seu papà pode, de certo modo. E reconheço que, se fui imbuído nessa situação, é porque ele já projeta um futuro para a famiglia e, provavelmente, saberei mais adiante. Já que você abriu tanto seu coração, nada como dar informação em troca para que tenhamos um nível frágil de confiança: nunca foi minha intenção ser nada mais que um conselheiro. E, ao contrário da passividade que você acredita que tenho, uma hora pode ser que você me veja brigar. - ele bateu o maço na palma para pegar um novo. - Enquanto isso, se preocupe em estourar o cartão de crédito. Garanto que isso será divertido, donna. E não se preocupe com meu pau frígido também, ele não tem a menor intenção de reagir na sua presença.
Embora o caos ainda dominasse grande parte de seus sentidos, fortificando a incomoda sensação de que se encontrava em uma situação derradeira de onde não via formas de escapar, Clarice aos poucos recobrava algum controle sobre a maneira que agia. Tanto era que sequer permitira que o instinto natural de repelir o toque não solicitado a fizesse agir de maneira agressiva com Lorenzo, pelo contrário, o contato dos dedos frios com sua pele quente parecia ter incitado uma espécie de choque térmico eficiente em fazê-la centrar-se um pouco mais. Não o impedira de tomar-lhe a varinha, embora detestasse a ideia de estar distante de seu único objeto de defesa naquele ambiente que considerava completamente hostil ainda que, tecnicamente, fizesse parte da realeza da máfia italiana. Como filha do Don era da cobiça dos homens, do escrutínio das mulheres e suas ações eram muito mais estudadas do que de qualquer outra pessoa, especialmente por não ter feito parte daquele mundo - condição que gostaria de continuar mantendo. - Tenho um nome e você o conhece. Não custa usá-lo. - resmungou recobrando a habitual antipatia apenas para fingir que não estava tão abalada quanto se sentia. Queria mesmo era fugir daquele ambiente de forma desabalada e não voltar nunca mais, mas infelizmente estava ciente que era impossível. - Não tenho uma pitada de sangue italiano, sou italiana. Nasci nesse inferno de lugar, mas desde que minha mãe foi assassinada pelos inimigos do seu chefe fui criada pelos meus avós maternos; minha avó era turca e meu avô irlandês, por isso domino os dois idiomas. Se você vai fingir que está apaixonado por mim o mínimo é saber detalhes da minha vida. Isso não consta na minha ficha? Imagino que o mequetrefe do seu chefe não goste de lembrar do que tem culpa. - bradou sentindo novamente a irritação arder em seu cerne. A relação com a figura paterna era total e completamente fragmentada, nas poucas vezes que estiveram juntos o distanciamento entre ambos demonstrara-se óbvio e sua falecida avó acreditava que devia-se à sua semelhança a falecida mãe, explicação que apenas tornava sua percepção dele ainda mais negativa. - Você é o homem de confiança do Capo, era de se imaginar que compartilhasse os planos para o futuro da organização, o seu mais especificamente, com a sua pessoa. Mas, bem, isso envolveria acreditar que aquele senhor dá qualquer importância a opinião a alheia. Seu cargo é puramente fantasioso, imagino. - uma breve careta pontuou suas feições. Não tinha intenções de continuar em contenda com Lorenzo, mas como era ele a única pessoa em seu caminho acabava sendo muito simples despejar todo seu descontentamento sobre ele. Entretanto, disposta a agir com maior civilidade a ex-corvina prontamente moveu-se em direção a cadeira indicada por ele e aceitou a oferta de vinho. Os dedos finos envolveram a taça e a acariciava delicadamente. - Nenhuma opção em que serei sua amante é válida. É humilhante para qualquer mulher. E eu jurei naquele maldito grupo que não tinha achado minha boca no lixo. Tudo bem que não haverá contato físico mas o restante do mundo achará que sim, então ao menos quero preservar minha decência, me poupe! Além do mais, isso implicaria em colocá-lo no clube dos cornos já que me relacionei com Lupin quando supostamente já estaria também envolvida com você. Não queremos isso, queremos? Pegaria mal demais entre seus coleguinhas. - disse rolando os olhos de maneira exasperada logo antes de bebericar o saboroso vinho escolhido pelo mais velho. - Eu me preocupo em ser crível, Lorenzo. Orgânica, para dizer o mínimo. Duas pessoas que se tratam mal o tempo inteiro não passam a ser noivas da noite para o dia sem levantar suspeitas. Não quero que ninguém saiba quem são meus parentes e imagino que você queira preservar a origem de seu negócio de vinhos. - um breve arquear de sobrancelhas marcou sua expressão. Clarice estava ciente que algumas pessoas ao seu redor desconfiavam da riqueza e excesso de seguranças de Lorenzo e o modo de agir de ambos poderia dar margem para curiosidade ir além do que deveria. - Ao menos estamos na mesma página quanto a falta mútua de confiança, contudo, precisaremos trabalhar nessa porcaria se quisermos fazer funcionar razoavelmente bem. E não estou falando isso por você ou por mim, mas pelos possíveis efeitos colaterais. Sabe o que é engraçado, Lorenzo? Eu nunca tive pessoas fixas na minha vida. Nunca. Sem amizades permanentes. Sem relações amorosas. Dominique é a única exceção a regra e me confiei no fato dela ser uma Weasley e ter uma boa proteção. Eu sempre soube que era vigiada. O produto, o ativo, a moeda de troca do meu pai, e por mais que tenha tentado não deixar fios soltos para que ele pudesse me puxar, bem, aqui estamos. - um sorrisinho debochado ganhou o canto de seus lábios e expressava parte de sua frustração, parte de seu cansaço e provavelmente o início de sua história de origem como uma completa insana. Com a taça na mão esquerda a ergueu como se a oferecesse em brinde ao seu então noivo. - Você está maluco se acha que colocaria Patrick no meio dessa insanidade. Além do que, não temos um affair, conhece o conceito de one night only? É o único que vivencio até aqui dada a chance de pessoas virarem alvos ao entrarem no meu caminho. Nesse momento me sinto mais italiana que nunca, extremamente dramática, só falta a bebedeira e as lágrimas soluçantes. - uma careta breve pontuou sua expressão. Entretanto não mentia ao dizer que não queria levar seu caos para a vida de Patrick assim como para a de mais ninguém. - Se vou ser obrigada a casar com alguém menos mal que seja você. Nossa antipatia é mútua, mas é inegável que nunca me desrespeitou como metade dos presentes aqui essa noite fizeram apenas com o olhar. Homens são nojentos. Mafiosos exalando testosterona são ainda mais repulsivos. - e eram realmente. Em determinado momento chegara a sentir-se despida pelo olhar insistente de um dos funcionários de seu pai. - Apesar de tudo sinto muito que você esteja nessa. Para ser honesta, sua família é adorável, sua prima e seu irmão ao menos, o que me faz pensar que você nunca deveria ter entrado nisso aqui, não só por eles, mas pelo seu direito de ter uma vida própria. Ou será que somos dois condenados pelo nascimento? Bom, assim vou começar a acreditar que nascemos um para o outro. - embora a princípio estivesse sendo honesta, o restante de sua sentença carregava uma sutil ironia. Era cética demais para acreditar em destino e se tal conceito existisse só podia supor que era escrito por um grande filho da puta sádico. - Se tenho direito a barganhas, bem, que fique claro que não pretendo morar em solo Italiano, muito menos abandonar meu trabalho agora que serei promovida. - um risinho contrafeito, exasperado, escapou por seus lábios. - Uau. A arruaça que Skeeter faria se fizesse ideia de que uma funcionária do Departamento de Leis da Magia é esposa de um Criminoso italiano! Ao menos vocês dariam cabo dela e pela primeira vez fariam algo de positivo em favor da humanidade. - resmungou em óbvia zombaria. As emoções de Clarice ainda pareciam espalhar-se para todos os lados, nada de positivo, mas ao menos o desespero em seu âmago parecia ter estabilizado o suficiente para não dominar seus sentidos. Em silêncio a ex-corvina observava Lorenzo, o movimento repetitivo do maço de cigarro contra a palma da mão era o único indicativo de que nada estava tão bem quanto ostentava. Clarice jogou os cabelos ondulados por cima dos ombros enquanto curvava o corpo para a frente de maneira que sua face estivesse próxima a dele. Sua mão direita envolveu a dele com a maior delicadeza que conseguiu reunir em meio a sua impaciência, seus olhos castanhos concentravam-se nos dele cor de uísque, enquanto discretamente tomava o maldito maço de cigarro. Tão perto tudo o que sentia era uma ponderosa mistura de perfume e nicotina, atraente a sua própria maneira. - Com o tanto que você fuma realmente não vai galgar outros cargos. O câncer de pulmão vem antes do velho maldito bater as botas. Pegue leve futuro marido! - arqueou brevemente as sobrancelhas num trejeito artimanhoso, o sorriso no canto de seus lábios era quase gentil e afetuoso, mas perfeitamente calculado. - Você ainda vai me privar da única parte divertida do matrimônio, como posso ser feliz assim? - voltou a rolar os olhos, exasperada, conforme voltava a posição de origem com as costas apoiadas ao espaldar da cadeira. - Não faço questão de gastar um centavo. Nunca usei o dinheiro que ele me mandou por uma vida inteira, imagina se vou começar a usar agora. Eu só quero ter direito a uma vida normal, ordinária, e entediante, Lorenzo, é pedir muito? Aparentemente sim. - murmurou tirando um cigarro de dentro do maço antes de devolvê-lo ao dono. - Farei o meu melhor para que sejamos convincentes mas precisaremos de termos de convivência caso essa desgraça se concretize. Por ora prefiro que não saia desse nicho italiano, não quero criar mais desconfianças do que já existem sobre nossa relação. - trincou o maxilar recordando-se de quantas vezes fora abordada a respeito do outro e como desgostara de cada uma dela simplesmente por odiar dar satisfações. - Agradeço sua paciência comigo hoje, sei que não sou fácil, especialmente com o temperamento aflorado, já me faz considerar que não precisarei ser uma viúva negra. - disse pensando na sorte do pequeno aracnídeo que tinha a sorte de poder livrar-se do macho logo após o coito. - Aliás, se terei que usar uma aliança espero que você também use. Não serei a única morta para o mundo. - concluiu, novamente curvando o corpo em direção a ele, mas dessa vez com o cigarro entre os lábios para que o acendesse.








