thatsoluce:
Uma risadinha melodiosa, e provavelmente a mais feliz desde seu retorno, escapou pelos lábios cheios de Lucy. Os meses em que vivera na Austrália, aprendendo a lidar com o luto, com a ausência, e com o novo dom haviam consumido tanto de sua mente que esquecera-se da facilidade que existia em conviver com os parentes mais próximos. - Estou falando sério, Domdom! Se olhar mais de perto verá os pés de galinha no canto dos meus olhos. - embora soasse divertida não faltava com a verdade. Os primeiros meses após a descoberta da clarividência, atrelado ao luto por Percy, roubaram muito de sua capacidade de dormir. A ideia de migrar para o mundo dos sonhos a deixava tão tensa que até mesmo naquele instante sentiu sua musculatura tensionar enquanto tentava retribuir o empurrão sutil da mais velha. - Estou tão bem quanto se pode ficar transcorrido um ano de uma perda, acho. Quer dizer, não me sinto a mesma de antes, mas também não me considero afundada no luto. É um estágio de transição em que a dor da perda ainda existe, e provavelmente sempre vai existir, mas não é mais o que me consome o tempo inteiro. Imagino que com o decorrer dos anos se torne mais fácil. - concluiu mesmo tendo suas dúvidas a respeito. Embora todos os Weasley tivessem crescido sentido o impacto da perda de um tio que jamais conheceram, era diferente sentir o vazio de alguém com quem se convivera por uma vida inteira. Às vezes chegava a se esquecer que tratava de morte e que Percy não estava apenas mais uma vez atolado em trabalho. Tempo, pensou, era sua única resposta. - Você me parece muitíssimo ocupada o que me faz automaticamente perdoa-la por não ter aparecido antes. Mas, me diga, esse deadline é para o que mesmo? Poesias, poemas ou algum outro tipo de narrativa? - questionou genuinamente curiosa a respeito. Lucy crescera reconhecendo o talento de Dominique para as palavras, o que, como leitora voraz, sempre a deixava empolgada para o que viria em frente. - Acho que agora mais que nunca me sinto grata por ter acolhido a ideia de minha mãe em passar alguns meses longe. A Austrália é deslumbrante, apesar da quantidade bizarra de animais em grandes proporções. Foram meses de sol, calor, praias e reflexões sobre a existência. Acho que se tivesse ficado por aqui teria me tornado mais paranoica e triste do que normalmente já me sinto. Mas, bem, senti saudades de casa, de vocês, dos amigos que me restaram, de me sentir inserida numa rotina e não apenas em uma férias bem longa. E olha que estudei, viu? A faculdade bruxa da região é bem diferente do que rola nesse lado do mundo. - contou com certa riqueza de detalhes conforme voltavam para dentro da Toca. Diante da mesa da cozinha Lucy abriu a bolsa carteiro para tirar de dentro os ingredientes para que pudesse dar início a um jantar inspirado em receitas típicas australianas. - Você sabe que antes de ir estava em dúvida sobre o que fazer, certo? Estava ganhando um bom dinheiro modelando no mundo trouxa e me pareceu bobo apressar meu caminho no mundo bruxo. Mas quando a morte bate na sua porta meio que surge uma urgência em encontrar um caminho e vira uma mistura de emoções que é too much cansativa. Entretanto, assim que senti que estava com a cabeça mais próxima do fucking lugar percebi que havia apenas um caminho que sempre quis seguir: pesquisa histórica. Então estou devidamente matriculada no curso de História da Magia apenas esperando que as aulas comecem para que eu possa adentrar diretamente no terceiro período. - disse com nítida empolgação que se refletia no sorriso que afundava as covinhas em suas bochechas. Enquanto falava Lucy separava os utensílios domésticos dos quais precisaria e com um agitar de varinha começou os preparativos. - Acho que enquanto nossa família estiver comandando os centros de poder o alvo sempre estará direcionado a nós. Molly comentou comigo que todo mundo da família tem um auror no encalço, acho que só é pior para a família da ministra. Pobre Hugo! - e conhecendo o primo podia imaginar o que vinha planejando para recobrar a liberdade que tanto prezava. - Hum! Isso quer dizer que Teddy está namorando um auror? Ou entendi tudo errado? Jeez! Amo como a vida do menino Lupin facilmente renderia um filme, uma série ou um livro. Parece que nunca fica entediante! Aliás que cafeteria é essa? Tenho a impressão de que as coisas por aqui mudaram drasticamente em todas as direções. - o riso melodioso preencheu a cozinha da toca enquanto fitava com carinho e atenção a prima. - Nós podemos treinar juntas, DomDom. Se tio Harry sobreviveu com um expelliarmus a gente também consegue. - disse com uma piscadela cúmplice para a mais velha. - Mas, uh, a senhorita me disse muitas coisas, porém, basicamente sobre a vida alheia! O que está rolando na sua vida? Nenhuma namorada? Nem pretendente? Você sabe que espero que entre nós você acabe no altar um dia!
Foi um tanto irresistível não rir à menção de Harry Potter usando Expelliarmus para sobreviver aos duelos em tempos de guerra. Dominique considerava uma espécie de lenda urbana divertida, embora o fato nunca fosse contestado, nem pelo próprio parente distante. Era engraçado de qualquer maneira, especialmente para quem tinha conhecimento da própria insuficiência sobre a dominância de feitiços. Era esquecida, mais ao que notava, e decorebas em Hogwarts fora um dos seus grandes pesadelos. A salvação viera pelo fato de que era uma ótima ouvinte. Memorizava as palavras com grande facilidade, do mesmo jeito que as expressões corporais, o que foi revelando, pouco a pouco, a paixão por aqueles dois elementos que compunham o universo da poesia. Se não fosse apaixonada por esses dois elementos, certamente teria se dando bem em algum trabalho de fisionomista entre aurores, a fim de pescar alguém na contradição. Como muitas vezes acontecia quando estava na companhia de Edward. - O que sei é que não estou namorando, nem muito menos um auror. Mas, você deve imaginar que Teddy sempre teve a vida amorosa agitada. Ele é o espécime que não consegue ficar sozinho por muito tempo. Ele gosta de namorar. O dilema é que o tal do auror não me parece uma pessoa que gosta de namorar também, ou que tem habilidades de assumir certa responsabilidade emocional que Teddy vive de dar para outras pessoas. É pré-julgamento, eu sei, mas o tal do auror não tem necessariamente 5 estrelas na minha mente. Às vezes, não quero que esse relacionamento aconteça, pois Teddy é sensível e pega rancor rápido demais. E nem digo isso para jogar praga. Ambos já possuem um atrito anterior e começar as coisas com atrito nunca me pareceu bom. Mas, sou a pessoa da alma leve e calma, o que me faria enlouquecer com qualquer sinal de caos. Não gosto muito. Pode me chamar de cômoda. - Dominique encerrou o assunto com seu próprio riso e se acomodou em uma das cadeiras da Toca. Suspirou aquele senso de familiaridade, mesmo não se sentindo menos inquieta. Seus olhos flertavam com o andar de cima, criando um estado nublado em sua mente, distraindo-a com o início dos preparativos de Lucy sobre o jantar. Ficou tão absorta que, para variar, sentiu-se zonza ao tentar se reconectar ao fio da meada da prima. - Ma fleur, não tem nada acontecendo na minha vida, a não ser a publicação de um novo livro de poemas. En français, desta vez. Não tem como exigir uma vida social de quem é uma eremita e estou bem assim, acho. Fico brincando sobre não ter uma namorada, o quanto isso me traz bloqueios criativos devido ao pensamento machista de não ter uma musa curvilínea e com lábios marcantes para me deixar animadíssima, mas eu tenho comportamentos esquisitos demais pra um relacionamento fixo. Eu sumo com a mesma habilidade que esqueço. A pessoa teria que me lembrar o tempo todo de que estamos juntas. - disse ela, com um sorriso conformado sobre aquele assunto. Afinal, era de fato uma pessoa que se sentia deslocada por preferir altas doses de isolamento. Não sabia se isso influenciava diretamente na habilidade de esquecer, mas, indiretamente, a desconectava da realidade. Fleur sempre a forçara a interagir mais, avisando que precisava sair da própria mente, mas a imaginação era o que mais a servia de ajuda e de conhecimento sobre o próprio mundo. Criou-se, assim, um estresse desnecessário quando qualquer ser inteligente notaria que Vic e ela tinham nada em comum a não ser as habilidades de uma veela. Ao crescer, conseguiu se impor com relação àquilo, mas o preço era ser excluída do cerne dos irmãos extrovertidos. - Ah, mas História da Magia sempre me pareceu magnifique! Creio que é muito a sua cara e, com certeza, dará certo. Nessas horas que eu sempre apoio o isolamento geral, porque muita coisa pode vir até você. Ao menos, quando vem de escolha, pois, no seu caso, ainda teve um fator de peso e não me custa dizer que sinto muito de novo. - declarou ela, com honestidade. Abraçou uma almofada e suspirou, sem motivo aparente. - Vamos alardear Teddy em abrir a universidade. Aliás, fico ligeiramente confusa sem saber se ele faz isso porque é um mal necessário, definitivamente considerando as circunstâncias atuais, ou se ele faz apenas para irritar os Longbottom. Aposto que é um misto dos dois, pois, quanto mais perguntam, mais ele amplia o recesso. Confesso que não vejo a hora de retornar, sinto falta de estudar literatura, mas nada que uma biblioteca não sane esse anseio da minha pobre alma. - Dominique dramatizou, apunhalando o próprio coração com a almofada. Um sorriso sapeca se revelou entre os cabelos cacheados assanhados e, em um movimento gracioso, ela se levantou para se aproximar de Lucy. - Eu soube que tinha aurores no meu encalço por meio de Clarice. E nem noto a presença deles, por que será? Creio que devo ser a protegida favorita, porque frequento os mesmos lugares e nunca saio de casa. - e não se incomodava de ser a parente que não dava trabalho. Até porque prezava seus instantes de liberdade, o que a fez franzir o nariz, pensando que não deveria ser tão favorita assim. Afinal, perambulava, sem prestar atenção, e não havia um instante em que não se perdia. - Ah, mà cherie, você falando da sua viagem dá até vontade de desbravar o outro lado do mundo e creio que só conseguirei fazer isso a partir do instante que vender bem meus livros. Ser best-seller me levaria para outros países, mas ainda sou DomLocal. - ela riu fracamente, um pouco tímida pelos seus próprios números modestos e que a deixava na dúvida se realmente gostavam do que escrevia ou se era um ato de piedade por ser uma Weasley. - Sem pressa! As coisas acontecem como tem que ser, mas ao menos sei que pularei os lugares solares. Sou totalmente do outono! Mas, claramente, a potência solar te fez muito bem. Se houvesse algum fotógrafo aqui, pediria para que eternizasse o perfil descansado de mademoiselle! Livre de rugas. - Dominique lançou uma piscadela marota à Lucy, afastando delicadamente uma mecha cacheada para longe do rosto. - Tenho que dizer, ao menos, que essa maquiagem faz magia, pois, daqui, dá para notar nadinha. Pediria o nome, mas qualquer maquiagem é um pouco agressiva a minha pele pela quantidade de sardas. Consigo nem conceber a ideia de base. Agora, não me lembro de ter escutado sobre sua carreira de modelo. Mas o que Dominique lembra? Vai abrir mão por conta dos estudos? Acho que deveria continuar, me parece uma área que rende uma grana extra. - ela se curvou para apoiar os cotovelos na mesa e as mãos embaixo do queixo. Bateu as pestanas amorosamente, realmente apreciando a beleza que dissera ser parte da identidade de Lucy. - Eu estou muito contente de te ter de volta, pois, de todos os parentes femininos, você é a única que consigo conversar dignamente. E senti totalmente a sua falta e sem dúvidas vou te mostrar todos os cantos que descobri nos últimos meses. Vai ser meio boring, porque devo ser ainda mais boring perto de uma gata toda viajada. Contudo, prometo que serei uma ótima guia neste seu retorno épico. Agora, será que posso roubar um gole de café e bolo enquanto apenas a observo fazer magia na cozinha?















