O abraço veio de forma inesperada. Não somente por ter vindo de Cloé Muniz, mas também pela certeza que acabaria sendo socado ou estapeado mais uma vez pela besteira feita. Ainda que estivesse tão assustado quanto ela pelo ocorrido, não tinha pensado em canalizar o medo em um toque físico e num ato que demonstrava puro afeto entre as pessoas envolvidas. O afeto que, acreditava ele, não existia. Pelo menos, não até o momento que firmou mais os seus dedos na cintura dela, passando-lhe o tanto de segurança que precisava. Desta forma, o corpo frio e trêmulo tão próximo do seu não passou despercebido. Não era capaz de se colocar numa situação dessas, portanto o mínimo que podia demonstrar ali era uma possível compaixão e arrependimento. Abraçou-a de volta, ainda que com apenas um braço, e soltou um longo suspiro, como se isso fosse tirar a tensão sob seus ombros.
Por mais que fosse tão novo, Pierre tinha noção de várias coisas que poucas pessoas sabiam e tinha diversas histórias de aventuras com aleatórias experiências – boas e, em sua maioria, ruins – para contar. Por isso ele não conseguia se pôr no lugar de Cloé. Não conseguia pensar em algo que o fizesse ter medo, pânico ou fobia; quando se via em uma situação de risco, vencia o temor ou acabava transformando tudo em pura diversão ou prazer. Era simples para Pierre, uma vez que a maioria das coisas que fazia era por conta e vontade própria. Ele pensou que ela talvez tivesse um episódio traumático sobre a água para contar – se este próprio já não tinha se tornado o primeiro. De qualquer forma, o abalo de Cloé era palpável e, assim, se viu tão junto dela que mesmo com uma camada de água sob o pescoço, conseguia reconhecer o perfume suave que emanava fracamente de sua pele – algo que o fez se sentir no mínimo confortável naquela posição.
Ainda que tivesse sentido a cabeça dela assentir o seu pedido de desculpas, não se sentiu firme com a atitude. No entanto, entendia que ela ainda poderia estar inerte e incapaz de mencionar algo sem pensar duas vezes. Com isso, Pierre acreditava que ela tinha o feito por força do hábito, apenas para fazê-lo calar a boca naquele instante, e a tristeza diante da constatação ficou evidente em seu olhar mesmo que ela não o encarasse de volta – portanto, Pierre apenas aceitou o fato, já que era sua única opção. Absorto nos próprios pensamentos, ele levou um certo tempo para perceber que analisava cada mínimo detalhe do rosto de Cloé. O nariz fino e que era tão acostumado a vê-la empinar com deboche, os olhos pequenos e enviesados, os lábios cheios e ainda trêmulos, a pele marfim coberta por gotas d’água; Pierre nunca tinha reparado que a junção de cada parte que observava com atenção transformavam Cloé em uma das meninas mais bonitas que já tivera o prazer de pousar o olhar. Mesmo trêmula, apavorada, sem toneladas de maquiagem na face e com os longos fios escuros molhados, mesmo na sua maior representação simples e natural, ele conseguia enxergar de longe a beleza dela. Logo, sentia-se no privilégio de vê-la em uma distância de centímetros.
Um imperceptível tremor surgiu em seu braço quando sentiu a testa dela encostar na sua e ela abriu seus olhos. Ainda que tivesse se distraído mais uma vez, não esperava ser pego analisando-a com tanta ternura de uma forma tão brusca. E também não esperava algo que escutava 24 horas por dia, cinco dias na semana, soasse agradável naquele cenário. Não depois dos incontáveis erros que tinha feito com Cloé, contando com o incidente da madrugada no jogo da garrafa. Por um momento, sentiu-se acanhado com o pequeno sorriso dela, pois tinha o pressentimento de que, por algum motivo, acabaria magoando-a mais uma vez, mesmo que este nunca fosse a sua meta. Via-se num estágio delicado, e à vista disso, desculpou-se novamente. A resposta silenciosa dela não fora de todo confiante, mas poderia servir por algum tempo até que ele conseguisse pedir desculpas mais uma vez com suas pupilas totalmente contraídas, uma distância de no mínimo três metros e com a ausência do calor de mil incêndios.
Pierre apertou os dentes de imediato e fez uma leve careta de desconforto quando Cloé enfiou as unhas em seu braço sensível. Tentando disfarçar, umedeceu os lábios e em seguida tocou no rosto dela com o braço livre, segurando-o para que pudesse olhar diretamente para ele. Ao mesmo tempo que ela negava, ele também o fazia com a cabeça; seu mais simples intuito era pará-la com a relutância de soltar-se dele enquanto estavam na água. A despeito da voz doce e suplicante e o olhar de desespero de Cloé, ele sorriu fraco com o único intuito de garantir que nada de ruim aconteceria com ela. — Ei, relaxa — disse com um tom de voz tranquilo e calmo. — Eu não vou te deixar, certo? Só quero te ajudar — afirmou olhando nos olhos dela, o sorriso de lado presente em seu rosto. — Confia em mim, coração — pediu com honestidade. De alguma forma, sentia-se grato por poder falar qualquer coisa e não ter o medo constante de levar um tapa no rosto de Cloé – merecia a paz pelo menos por alguns minutos.
Um simples franzir de cenho, junto com um sorriso gracioso, foi a resposta dele para o reconhecimento de Cloé sobre seu braço. Não sabia o que pertencia às unhas dela ou às pedras, mas não se importava – era um mínimo detalhe diante de um problema tão grande. Podia perceber pela pouca altura do Sol que passaram mais tempo perdidos do que imaginara, e isso significava que sua avó deveria estar louca à sua procura. Revirou os olhos mentalmente com o pensamento; agora só se preocupava em fazer com que Cloé atingisse o propósito se manter equilibrada na água sem o seu apoio. — Você consegue, hein — murmurou, observando a tentativa dela de fazer como havia dito e soltando lentamente o seu braço da cintura alheia. Um leve e puramente sincero sorriso surgiu em seu rosto com a visão de Cloé também sorrindo por ter alcançado seu objetivo. — Viu só? Nada é tão difícil quanto parece — constatou, a animação evidente em seu olhar por vê-la se arriscando em sua presença. Não sabia quando poderia ver isso de novo.
Quando pôde ter certeza que ela ficaria flutuando sem seu apoio, ele soltou a mão da sua cintura, apesar de ter hesitado em fazê-lo. Passeando suas íris claras pelo ambiente, Pierre tentou não focar no corpo submerso de Cloé diante de todas as coisas bonitas que haviam ao seu redor. Desde o Sol se pondo até ao balançar leve da água, queria ter conseguido prestar atenção em qualquer outro detalhe do cenário panorâmico, realmente queria. Em meio ao sorriso que dava, umedeceu os lábios e abaixou a cabeça, gritando consigo mesmo – também achando graça – por ter realmente pensado levá-la até a borda e, sem mais nem menos, beijá-la. Pareceu algo tão absurdo que ele teve encolher os ombros enquanto ria fraco; a tensão posta sobre ambos certamente tinha afetado algum parafuso no seu juízo. Em que mundo pensaria isso? E em que mundo ela retribuiria? Pierre pigarreou, tentando espantar a risada e manter-se sério para que não causasse mais problemas do que já havia feito.
Balançando a cabeça para tirar o excesso de água de seu cabelo, foi até a margem e sentou-se com uma careta. Estendeu a mão para que pudesse ajudá-la a subir, e assim que levantou-se junto a ela, colocou as mãos na cintura e semicerrou os olhos, tentando procurar pelo horizonte algum sinal da saída da bendita trilha. — Hm… Talvez saída? Ali, digo — engasgou por um momento, franzindo o cenho ao constatar a estranheza. Sem querer olhar para ela, pegou o seu boné entre as pedras e colocou-o da mesma forma que estava quando encontrara Cloé mais cedo. Depois, tentou se lembrar do caminho que havia feito para chegar ali novamente, mas não conseguiu. Bufando, começou a caminhar e o fez por quase uma hora, depois notando que estava andando em círculos. Prendeu um palavrão na ponta da língua; imaginou de que forma Judite o mataria assim que voltasse para o hotel – se voltasse para o hotel. — Nós vamos morrer aqui — soltou em um suspiro, deitando-se no chão com os braços abertos.
Nunca sentiu ou demonstrou ser tão frágil na frente de alguém e nem em um milhão de anos apostaria ser Pierre Martins o expectador de cena tão sem filtros da parte de Cloé. Agora, usava o corpo do rapaz como um grande escudo de toda aquela água e nada mais tinha em mente além do fato de não querer soltá-lo tão cedo. Não sabia o porque de estar sentindo aquilo quando tinha consciência em ser o colega de sala implicante quem estava abraçando. Talvez fosse a adrenalina que ainda corria pelo seu corpo molhado ou mesmo a sensação de quase morte lhe trazendo sentimentos que nunca soube ter. Essa dúvida deixaria para mais tarde, quando estivesse cem por cento segura em sua cama, sozinha e com os pensamentos vagando soltos e sem controle por sua mente.
Definitivamente, separar o corpo do de Pierre estava longe de sua escolha ali, mas o fez quando ele pareceu preferir de tal modo. O toque em seu rosto a fez inclinar a cabeça instintivamente, apoiando-a na mão do rapaz. Fechou os olhos e respirou fundo, ouvindo as palavras encorajadoras de Pierre. Seu corpo ainda tremia e era algo que não conseguia controlar. Nem mesmo acreditava que estava submersa em águas onde não tinha a segurança de um chão tocando seus pés. Quem a conhecia verdadeiramente, não acreditaria naquela cena sem provas concretas. Mas algo no olhar brilhante do rapaz, naquele pequeno sorriso que mostrava e nas doces palavras que agora não pareciam tão provocativas quanto em seu dia a dia, fizeram-na encarar o medo, mesmo que com muito receio, mesmo que com um grito preso em sua garganta, ela batia as pernas descontroladamente, sem nem mesmo saber se fazia aquilo certo.
Até então, a segurança ainda estava presente, pois sentia o braço de Pierre lhe envolvendo pela cintura. Um pequeno sinal de pânico se instalou em seus olhos ao ver que eles já não mantinham contato nenhum, fazendo-a bater os braços mais desesperadamente a procura de um apoio. O que não havia percebido é que afinal estava sim boiando, e quando deu por si, um sorriso triunfante apareceu, mesmo que sentisse que a qualquer momento iria afundar novamente. Aquele já era um enorme avanço na barreira que criou aos ensinamentos do nado. Não sabia exatamente o porque, mas seu medo era de nascença. Algo no desconhecido das águas a assustava de tamanha forma que não conseguia descrever. Gostava da segurança, do palpável e concreto que a terra lhe trazia e não conseguia nem imaginar como estava ali, encarando as orbes desatentas de Pierre e sorrindo, deslumbrante com aquilo.
Ainda assim, sentia precisar do apoio daquele corpo masculino. Algo nele a chamava para perto e se arrependia por não ter relutado a separação entre os dois. Queria mais, queria que aqueles trinta segundos anteriores nunca tivessem que acabar. O cansaço a fez procurar pelo apoio da borda de pedra, segurando-se no local. Foi então que pôde observar com clareza o rosto do rapaz que parecia determinado em não olhar para ela. O nariz perfeitamente definido encaixava igualmente com o seu maxilar reto. Os olhos azuis brilhantes, os lábios rosados e cheios. Tudo em Pierre parecia ter sido minimamente calculado para não ser nada menos que perfeito e agora se perguntava como não conseguiu ver isso antes. Achava que podia passar horas apenas olhando para ele e contando infinitas vezes o número exato de pequenas sardas que lhe ocupavam o rosto, mas algo a impedia de fazer aquilo no momento. A expressão de deboche que o rapaz demonstrara em seguida, fizera Cloé abaixar a cabeça e respirar fundo, tentando trazer a realidade daquela relação de volta para sua mente ansiosa. Como podia pensar que Pierre Martins alguma vez na vida tentaria beijar uma garota como ela. Aquele momento fora claramente algo criado por sua mente devido ao trauma. Tinha imaginado tal coisa. Claro. Estava longe de ser alguém que despertaria qualquer interesse num rapaz como ele. E tudo que ele havia sentido era a mais pura pena e nada além disso. Agora entendia.
Mesmo discreta, a expressão do moreno era vista atentamente por ela, fazendo-a respirar melancolicamente e fechar os olhos por alguns segundos, não mais se permitindo ver ou sentir o que aquela cena estava provocando em si. Ao abrir, já se proibia de encarar os azuis alheios que se moviam para fora da água. Apenas esticou o braço, aceitando a ajuda, pois não conseguiria fazer aquilo sozinha. Assim que pôs os pés em terra firme, toda a vergonha que antes estava submersa, voltou a si, sabendo que novamente estava completamente exposta na frente do rapaz. Cruzou seus braços, encolheu os ombros e juntou as pernas quase como se pudessem virar uma só; olhando para o chão, ela agora voltava a ser a velha Cloé tímida de sempre. Seu corpo tremia, não mais pelo medo, mas sim pelo frio que começara a fazer no fim de tarde paulistano. Na tentativa de se cobrir, tirou a toalha que trazia na mochila e se enrolou nela, mas não ajudou muito.
Ainda continha a vontade de encarar Pierre, sabia que fazer seria errado e só acarretaria em consequências dolorosas para si e rapidamente pôs-se a segui-lo por entre a mata, sem nem mais uma palavra trocar com ele. Nem mesmo sabia para onde iam, o chão era seu conforto e perdeu as contas de quantas vezes bateu num galho ou outro unicamente para não ter que olhar as costas definidas do menino a sua frente. Assustou-se a vê-lo parar. Por pouco não bateu seus corpos, parou bem a tempo. Uma risada contida escapou e ela logo se arrependeu por ter se permitido, ao ver Pierre se jogar no chão. - Levanta daí, criança, ta sujo, cê vai se machucar - foi tudo que falou, logo voltando aos olhos inquietos e a limpar a garganta, desejando não ter falado. Correu os olhos pela mata, analisando cuidadosamente cada pequeno espaço entre as árvores e talvez, se sua atenção não estivesse inteiramente focada no chão durante todo o caminho circular que eles percorreram, podiam ter saído de lá muito antes, pois rapidamente Cloé avistou pequenas luzes um pouco distante de onde estavam. O sol já deixava seus últimos raios à vista e ela agradeceu aos céus por aquela luz no fim do túnel, pois já não sabia o que seria de si se tivesse que passar a noite ali com Pierre. Apontou para o grande achado que havia feito e finalmente se rendeu a olhar o rapaz jogado ao seu lado. - Vamo logo. -
Inúmeras piadas, provocações e xingamentos surgiram para usar naquela situação com o colega, mas nada pareceu certo dizer. Estava contida, triste e visivelmente exausta e tudo lhe parecia diferente em Pierre agora, era como se aquela relação de brincadeira entre eles há muito tempo já havia acabado, quando nem mesmo horas podia dizer fazia que estavam se provocando como loucos. Começou a caminhar por entre os galhos na frente do rapaz. A cabeça baixa concentrando-se para não cair, estava ainda enrolada na toalha, a pequena mochila em apenas um ombro e os cabelos longos molhados e bagunçados desciam pelas suas costas. Tudo que queria agora era se trancar dentro do quarto e algo em si trazia uma enorme angustia onde só as lágrimas conseguiriam aliviar. Talvez o medo, o episódio extremo para sua fobia, até mesmo Cadu passou em sua cabeça naquele momento como o culpado para aquilo, mas a verdade é que aquela sensação se devia unicamente a uma pessoa. Virou a cabeça apenas para ter certeza que ele estava lá, seguindo-lhe. Juntou os lábios numa reta e levantou as sobrancelhas, voltando a olhar para frente.
De repente, seu sangue esquentou. Um pouco de medo surgiu por questionar como se despediria de Pierre depois de uma tarde como aquelas. Apressou o passo e logo estavam na recepção do hotel. Parou, respirou fundo e virou, encarando o rapaz como um todo agora. Sua mão foi ao cabelo, levando a mecha molhada para trás da orelha, exatamente como fazia quando com vergonha. - É... - seus olhos escaparam para o chão e sentiu-se frustrada por não conseguir falar olhando para ele - obrigada - sorriu, sem mostrar os dentes, quase tão pequeno quanto era grande sua vontade de correr dali - sabe? Por salvar minha vida. Eu vou... - apontou com o polegar para os quartos - preciso de um banho. Então... - Finalmente se obrigou a olhar para o rapaz - te vejo mais tarde. - Suas palavras saíram em tamanha naturalidade que nem mesmo percebeu o problema que seria encarar Pierre na festa, enquanto muitos outros olhares estariam ali presentes. Suas orbes se arregalaram por um instante, percebendo o que teria que enfrentar.
O que não havia percebido é que passara tanto tempo perdida com Pierre, que eles haviam chegado justamente na hora em que todos estavam se reunindo para dar inicio a festa. Um certo pânico invadiu o corpo da morena só com a ideia de ter que explicar algo que nem mesmo sabia como. Tudo ainda era um borrão de fatos jogados em sua mente. Olhou para o lado e percebeu alguns olhares familiares encarando os dois ali parados, um de frente parar o outro.e mais uma vez deixou o nervosismo tomar conta de si. - Tchau! - falou por fim e rapidamente. Para sua infelicidade, o caminho até seu quarto a obrigava uma breve passagem pela festa e com um sorriso envergonhado no rosto ela foi, tentando manter a cabeça levantada e agir o mais triunfante possível, mesmo que por dentro sua vontade fosse apressar os passos até o conforto e segurança de seu quarto onde poderia finalmente externar tudo que aquela tarde a fizera sentir.