Em seus pensamentos, agradecia secretamente ao hábito de correr várias voltas em torno do campo que o treinador mandava-o fazer para melhorar seu físico e velocidade todos os dias, só assim conseguiria correr tão rápido na mesma hora em que avisado para fazê-lo. E também agradecia ao fato de que aquela briga não iria mais à frente do que já havia ido, se caso piorasse e alguém o visse metido naquilo, seria uma vergonha para seu cargo e para si mesmo, além de que ainda teria de se explicar sobre aquela confusão toda para a diretoria, e talvez ainda para seus pais. Só iria gerar mais problemas e odiava ter que pensar em algo para resolvê-los.
Antes mesmo que conseguisse dar um suspiro aliviado ao que finalmente haviam despistado os dois garotos e entrado em um lugar seguro, já ouvia a reclamação em seus ouvidos sobre o que tinha acontecido momentos antes. O moreno passou alguns segundos apenas respirando até recuperar o ar, havia se esforçado para ignorar a dor e correr, mas logo retomou à sua postura habitual, dirigindo-se ao outro já com certa autoridade na voz — Essa não é a primeira vez que me envolvo com caras assim. Eles se cansariam de mim em algum momento, mas agora não acho que vai acabar desse jeito — Os olhos tomaram direção ao outro como referência e assim que escutou seu comentário, levou os dedos imediatamente aos lábios para tocá-los, apenas para se certificar se estavam tão feios quanto havia falado. O resultado foi um breve estalar da língua e não esperou muito para segui-lo, dessa vez calado, até que chegassem em frente à porta.
Mesmo dizendo que não seria necessário tê-lo envolvido em uma briga dessas, a situação era aquela e não mudaria caso reclamasse ou não. E apesar de ter sido arrogante no começo, o garoto ainda o ajudara e estava fazendo o mesmo agora. Realmente, odiava se tornar um fardo para alguém, mas não podia ser ingrato ao que o chinês fizera para ajudá-lo, seria algo egoísta — Por que fez aquilo? — Perguntou, ao passo que o seguia para dentro do apartamento — Sabe que agora também está na mesma situação, não é?
“É claro que cansariam de você, estaria morto. Ninguém gosta de brincar com coisa morta, com a exceção de psicopatas.” Oh, não. Levaria alguma lição de moral pra dentro de sua casa? Qual é. Ele havia ajudado, já havia batido a meta de boa ação do dia. Por que ainda parecia insatisfeito e não grato? De qualquer forma, o caminho estava quase feito. Percebera que o moreno não era um cara de muitas palavras, já que basicamente só se ouvia falar. Deu espaço para que o mais alto entrasse, largando o suporte dos tacos ao lado do sofá azul petróleo grande. “Você não é de falar muito, né?” Perguntou, tentando levar o assunto à uma de suas primeiras constatações sobre o estudante. “Bem, talvez você seja apenas normal, desde que sempre dizem que eu falo demais. Eu acho que tenho que aprender que nem todo mundo é igual.” O chinês já agia como se nada houvesse acontecido. Wen sempre fora assim. Embora tivesse abraçado responsabilidades cedo, era de grande coração. Não guardaria rancor deles, e mesmo que o rapaz a sua frente rejeitasse sua ajuda ou tentasse de alguma forma corrigi-lo quanto a seu comportamento por meio de reclamações, depois do calor do momento, também não ficaria bravo. Foi até a geladeira passando pela cozinha conjunta, tirando duas cervejas do eletrodoméstico e também uma bolsa de gelo, como se fosse lhe dar mais tempo para responder uma pergunta tão complexa. Não tinha bem uma resposta. Em 40% dos casos, Wen não sabia muito bem o porquê de fazer certas coisas. Achara correto naquele momento evitar que algo pior do que umas pancadas acontecessem. Achara que poderia acontecer qualquer coisa que também o fizesse se sentir culpado por não ter intervido. Achara que não era justo, que as pessoas ultimamente estavam com os ânimos muito exaltados. Achara que aquele rapaz poderia ser qualquer um, e poderia ser qualquer um no lugar dele também. Youngshin, Yan, e até mesmo Yujia. Mas era difícil explicar isso para ele, ou para qualquer pessoa sem parecer suspeito. Por fim, decidiu que ignorar a pergunta dele e decidir que lhe alcançar a cerveja e o gelo encerraria a curiosidade alheia, porque passado era passado, mesmo que recente. “Eu? Eu sei me virar. Eu estou sempre com os caras do time também, esse tipo de lixo não mexe muito com os esportistas.” Deu de ombros, abrindo a própria lata. “Se a coisa feder pra você, não me importo de você me responsabilizar por uns babacas machucados, não tenho muito a perder aqui e o reitor tem que engolir as merdas que eu faço. Li Wen, prazer.” Riu, jogando-se no sofá enquanto percebia-o parado no hall que nem um dois de paus. “E ah, eu acho que conheço você. Você não é do conselho? Aqueles carinhas engomadinhos. Por isso não queria problema?”

















