What happened at the New Orleans? || River Storm
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Família é quem escolhemos para nós, eram as palavras do pai que guardara ainda criança. River nunca conheceu os avós, tampouco desejava fazê-lo, mas desde pequeno o velho fazia questão de lembrá-lo de que a casa era sempre cheia e bagunçada, de que o caminho pelas estradas era mais fácil, apenas por conta dos amigos que formavam aquele círculo maravilhoso. Protegendo uns aos outros, crescendo juntos e livrando-se de enrascadas. Era uma vida torta, mas era uma boa vida e de maneira alguma se sentia frustrado ou errado naquilo que aprendeu. E, justamente por isso, Elliot era tão importante. Ele era um irmão sem ser de sangue, o ombro amigo que lhe alentava o choro e dissolvia suas preocupações, a pessoa com quem gostava de implicar e que, por certas vezes, sonhava beijar. Ele era parte dele.
E se Elliot era parte dele, River também era parte de Elliot, por isso mesmo compreendia com perfeição o amargor e a pergunta. Não havia nada pelo que se culpasse mais do que por ter sido incapaz de não deixar quem amava para trás.
Fora sútil o arrepio sentido com o apelido que ninguém nunca havia usado com ele por ali que o fez sorrir, algo tão deles, tão simples, mas que significava demais. “Hot chocolate.” Ele respondeu de volta, a brincadeira no apelido que nunca mais repetira, talvez por ser tão tolo e até constrangedor, fazendo-o rir baixinho por entre o abraço e de alívio pelo carinho que sentiu no tom de Elliot. E bem, honestamente, River não era de chorar, nunca fora, mas isso não impediu que mais algumas lágrimas teimosas escorressem a face, principalmente por ouví-lo.
Contorceram-se em dor as linhas principais de seu rosto, o receio pelo que ele tivera de passar, o medo de não saber para onde seguia, a frustração que a situação empregava. O bartender se lembrava bem de quando chegara ali, tão extremamente perdido, sem saber para onde ir ou andar. O fato de ser um camaleão ajudou, é claro, mas todas as suas inseguranças e medos, eles ainda estavam ali e criar laços sinceros era a mais complicada das tarefas. “I’m so sorry, Eli, I’m so sorry.” Repetiu, dessa vez por não ter podido estar lá, para ajudá-lo no momento do embate, por não poder ter impedido a maldita organização de fazer quem ele tanto amava sofrer. E foi no deslizar de seu polegar pelos antebraços que ainda segurava que River viu-se medianamente desesperado pelo pesar no tom alheio, pela amargura a si direcionara e pelas inseguranças que provavelmente despertara no outro. Tudo mais sentiu do que ouviu, lendo o rosto tão conhecido e tão bem quisto como um livro aberto e já decorado. “Não foi de propósito, eu juro, não tem como… Não tem como se comunicar com ninguém daqui.” Ele explicou, o sorriso se fazendo triste ao que a canhota foi ao rosto, passando-a por sobre o mesmo sem cuidado ao que o emocional parecia, finalmente, voltar para as rédeas de seu controle de aço. “Bradcliff é uma cidade em isolamento total e todos aqui… Todos são como nós, todos são mutantes. Eu fui trazido direto pra cá depois do seu aniversário. Lembra? Do bar? Da confusão? Viram eu me transformando e quando eu fui tentar escapar, well, they got me, babe. They got me bad.” E num sussurro engoliu o bolo em sua garganta.
O cenho franziu-se,nas íris azuladas via-se cada pingo de emoção, tudo aquilo que todos os dias enclausurava para não sucumbir à saudade, suas mãos achando lugar nos ombros do maior, deslizando com lentidão até o pescoço ao que o suspiro escapou pesado, ainda mal acreditando. “There wasn’t one day that I… That I didn’t think about you, or my old folks. And just… Just everyone. I miss everyone. I missed you.” E num riso em sopro, quase choroso, River coçou o nariz olhando para os próprios pés, incapaz de deixar de tocá-lo naquele instante. O ar parecia, por algum motivo, faltar nos pulmões.
Ter Eli ali, era mais do que jamais esperara de sua vida.
Hot chocolate. Aquele apelido sempre o fazia rir, desde quando River começou a usá-lo como provocação depois que uma moça tentou dar em cima de Elliot sem sucesso. - Hey, don’t call me that in front of other people. - reagiu sem realmente se importar, era engraçado como a brincadeira foi se tornando algo entre eles, não mais daquela garota que sequer era lembrada na maioria das vezes. Fazia muito tempo que não ouvia, tempo demais. Ainda assim, parecia natural ouvir e responder àquilo, uma naturalidade que eles sempre tiveram e que com certeza mantinha-se intacta. Porém, uma coisa que Elliot não lembrava de ver com frequência era River chorando, ele sempre fora o mais teimoso em demonstrar emoções entre os dois, embora o moreno soubesse o turbilhão de sentimentos que o amigo carregava no peito desde sempre. Ambos estavam atordoados, em êxtase. Conheciam-se como ninguém mais e sentiam um pelo outro mais do que ninguém.
Em alguns instantes calado, Elliot ouviu as desculpas do amigo, ouviu sua história e sua justificativa. Lembrava muito bem daquela noite, pelo menos do que a bebida lhe permitia, e tudo fez sentido em sua cabeça. Bradcliff... essa cidade não era um lugar comum, deixavam que cada um que chegasse tomasse sua própria decisão de como encarar a sua estadia. Se ele estava perdido, River também estivera quando chegara ali. Diante dessa realização, a amargura que sentiu por tanto tempo foi dando lugar a um sentimento de culpa, se não tivesse bebido tanto, se não tivesse deixado River se afastar depois da transformação, se não tivesse dado atenção àquelas garotas que o rodeavam... Talvez não tivessem perdido tanto tempo. - I didn't know. I mean, we were at the party and I thought it was alright. I should... I should have stayed with you. - as desculpas não saíram, mas Elliot encolheu os ombros. Passara tanto tempo sozinho e depois desiludido que ficou difícil se pôr no lugar dos outros. Porém, agora ele via. Podia ver que River também passara por maus bocados e, no final das contas, tinha deixado para trás muito mais do que Elliot. Storm tinha família e outros amigos, já o moreno não sentia falta nem da cama em que dormia. - Hey, I got you. And you got me. Again. Let's keep it that way, alright, pretty boy? - sentenciou colocando a mão no ombro de River mais uma vez. Independente do que havia acontecido a eles durante o último ano, isso tinha que ficar para trás.









