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Memória
... quero uma água que transpasse os corpos mais duros que o vento do amor ainda não pode roçar uma água que não coubesse em si nem nos vasos infinitos e que não fosse só líquido e de passagem pelos acidentes naturais e que compusesse no ar algo que de tão gasoso desse corpo em mim a alma a almas invisíveis... quero uma água que não jorrasse do vazio do céu nem do jarro da terra e não alimentasse em vão a sede do vão das bocas mas vazasse a fome de um largo coração aos prantos que nunca sentiu por ela nada nem nadou ou bebeu dessa impossível água
Bené Fonteles
Vocês são os donos da veracidade de um todo, mas não se imêmore de julgar a própria solidão, ela sim é a maior virtude da multidão: No meio do bando abanar o isolamento, o respirar da única hipótese de si (...) Brotem os que acordam para o contemplar do sobre-viver.
There is a pleasure in the pathless woods, There is a rapture on the lonely shore, There is society, where none intrudes, By the deep sea, and music in its roar: I love not man the less, but Nature more, From these our interviews, in which I steal From all I may be, or have been before, To mingle with the Universe, and feel What I can ne'er express, yet cannot all conceal.
Lord Byron
Amor, então, também, acaba? Não, que eu saiba. O que eu sei é que se transforma numa matéria-prima que a vida se encarrega de transformar em raiva. Ou em rima.
Paulo Leminski
O trabalho poupa-nos de três grandes males: tédio, vício e necessidade.
Voltaire
Vinicius de Moraes
Que dança que não se dança? Que trança não se destrança? O grito que voou mais alto Foi um grito de criança Que canto que não se canta? Que reza que não se diz? Quem ganhou maior esmola Foi o mendigo aprendiz O céu estava na rua? A rua estava no céu? Mas o olhar mais azul Foi só ela quem me deu!
Mario Quintana
Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar... Viu uma lua no céu, Viu outra lua no mar. No sonho em que se perdeu, Banhou-se toda em luar... Queria subir ao céu, Queria descer ao mar... E, no desvario seu, Na torre pôs-se a cantar... Estava perto do céu, Estava longe do mar... E como um anjo pendeu As asas para voar... Queria a lua do céu, Queria a lua do mar... As asas que Deus lhe deu Ruflaram de par em par... Sua alma subiu ao céu, Seu corpo desceu ao mar...
Alphonsus de Guimarães
Quem dera eu achasse um jeito de fazer tudo perfeito, feito a coisa fosse o projeto e tudo já nascesse satisfeito. Quem dera eu visse o outro lado, o lado de lá, lado meio, onde o triângulo é quadrado e o torto parece direito. Quem dera um ângulo reto. Já começo a ficar cheio de não saber quando eu falto, de ser, mim, sujeito indireto.
Paulo Leminski; sujeito indireto
Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim! Ir em frente, ir a seguir A ausência de ter um fim, E da ânsia de o conseguir! Viajar assim é viagem. Mas faço-o sem ter de meu Mais que o sonho da passagem. O resto é só terra e céu.
Fernando Pessoa
... quero uma água que transpasse os corpos mais duros que o vento do amor ainda não pode roçar uma água que não coubesse em si nem nos vasos infinitos e que não fosse só líquido e de passagem pelos acidentes naturais e que compusesse no ar algo que de tão gasoso desse corpo em mim a alma a almas invisíveis... quero uma água que não jorrasse do vazio do céu nem do jarro da terra e não alimentasse em vão a sede do vão das bocas mas vazasse a fome de um largo coração aos prantos que nunca sentiu por ela nada nem nadou ou bebeu dessa impossível água
Bené Fonteles
Eduardo Galeano