Certeza de que escrevo isso para o nada e para o ninguém. Primeiro porque escrever para o nada imputa no descaso com o que virá depois: o próprio nada, o buraco negro que só existe porque alguém sentenciou a palavra e o verbo - talvez Deus, no começo da criação? Segundo porque mesmo que este texto seja para alguém muito especial, deixo claro que o meu alguém especial não é o teu e isto pode ter efeito reverso: atingir ninguém.
Hoje é dia 29 de julho, fiz 20 anos há 3 dias atrás. Tô feliz para caralho - e isso é uma paráfrase do cazuza. Tô feliz e quando ando pela cidade me vem muitos pensamentos que já foram e voltam. Não sei qual foi o momento exato que me percebi do mundo, que me percebi pertinente à vida e pertenço às ruas e a tudo que me queimava a pele; só sei que, agora, encontro-me em erupção: tenho vontade - louca, insana, demasiada - de rodar pela avenida paulista à lá Elena (o filme) e me contorcer em poesia feinha, que ninguém avista se não afrouxar os punhos e cerrar os olhos. Precisa-se, antes de mais nada, abaixar-se e estar-se atento e há tempo pelos chãos, lixos, sujos, valas e bueiros da cidade para perceber que a miudeza e a boniteza existem e estão ali. Quando digo que me sinto feliz há um estranhamento, um medinho bobo, retaliado e amaldiçoado pelo padrão social de que preciso, precisamos sofrer e sentir dor. A vida é tão maravilhosa quando percebo que o clichê não é errado nem cômico: é factual. Necessário. Tão bonito quanto o desconhecido, o incomum, o diferente (??????) Aqui proponho um outro pensamento: quando diz-se “clichê”, quem estabelece a relação aceitável versus não aceitável? Tô num estado completamente comum: o estado de quem encontra-se feliz. Porque banalizaram a felicidade e colocaram-na em nossa garganta pois era-nos obrigação. E obrigação é ruim por demais. Não é chique. Não é moderno. Não é legal. (….) Quando digo que sinto felicidade - perceba a esquisitice e a antítese - falo também de sentir o que todos sentem. O que é bom, já que transcendo o meu lugar comum de achar que possuo uma glória por ser distinto dos outros (e não sou, não somos. afinal, sentir demais ou sentir distinto, não é premissa de que você foi agraciado com uma bênção divina ou que colocaram sobre sua cabeça um manto sagrado no qual você sentencia sua vivencia) e chego até à simplicidade do que toca sem pedir permissão nenhuma: mendigos na rua, cobradores de ônibus que olham para o fardo da solidão e choram, quando chove e a água leva muito mais do que a dignidade de quem mora no chão.
A felicidade tem me mostrado um outro lado: o lado de quem não pode e não tem quem esperar absolutamente nada para apenas se permitir feliz. E permitir-se feliz também traz muitas indagações. Estava lendo um livro numa livraria estes dias enquanto perguntava-me se duraria muito tempo. Precisa durar? Vem com um rótulo, uma validade e umas dicas instrutivas sobre como não perdê-la na esquina da Augusta com a Frein Caneca? Só sei que chove e percebo-me ainda mais clichê. Clichêzaço. Clichê para caralha. E não me culpo por isso. Na verdade, fico agraciado de ser contemplado com a graça de quem varre a casa às 19 da noite e encontra-se maravilhado com o fato da vida acordar. Estou acordando, sem datas de validade e retiros espirituais - ainda não precisei de um.