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@confe-siones
@rodrigo_lopes_escritor
Há dores que não gritam, elas se assentam, ficam no corpo como um móvel antigo que ninguém lembra quando chegou, mas que range toda vez que a gente passa. São dores educadas, quase invisíveis, dessas que aprendem a conviver com o dia a dia, a trabalhar, a sorrir em fotos, a dormir do lado esquerdo para não incomodar o coração. E, ainda assim, seguem ali, cavando por dentro, como quem escreve seu nome devagar em uma parede de osso. A gente cresce acreditando que a cura é um gesto limpo, quase estético. Algo que chega com cheiro de erva fresca, luz entrando pela janela e uma música baixa ao fundo. Mas a verdade não costuma ser tão gentil. Nem toda cura é bonita, porque curar exige tocar no que apodreceu em silêncio, exige abrir feridas que o tempo ensinou a disfarçar. Há curas que doem mais do que a própria ferida original, porque pedem coragem onde antes só havia resistência. A dor, quando não escutada, vira linguagem, ela aprende a falar por meio do cansaço excessivo, do humor curto, do choro que vem sem aviso, da irritação com pequenas coisas. A dor é insistente, não por crueldade, mas por necessidade. Ela não quer destruir; quer ser reconhecida. Quer dizer “olha aqui, isso ainda sangra”, mesmo que o sangue já não seja vermelho, mas uma memória espessa, difícil de explicar. Se curar é aceitar que algo morreu dentro da gente, uma versão, um sonho, uma certeza, uma promessa que não se cumpriu. E luto não se faz em linha reta, ele tropeça, volta, se repete. Há dias em que a cicatriz parece firme e em outros ela arde como se tivesse acabado de nascer. Há dores que anunciam recomeços, mas raramente avisam quando estão chegando. Elas chegam quebrando, desmontando, bagunçando o que parecia minimamente organizado. Existe uma solidão particular na cura, porque enquanto o mundo cobra produtividade, respostas rápidas e sorrisos funcionais, a alma pede pausa. Se curar é um trabalho interno que ninguém vê e talvez por isso seja tão cansativo, não há aplauso, não há testemunha, não há garantia. Só um acordo íntimo entre você e aquilo que decidiu não fugir mais. E, ainda assim, algo muda. Devagar, quase imperceptível, um dia você percebe que aquela dor não manda mais em todas as decisões. Outro dia nota que consegue falar sobre o que aconteceu sem sentir o chão sumir. Em algum momento, você entende que a ferida não desapareceu, ela se transformou, virou margem, virou limite, virou aprendizado. Não é ausência de dor, é convivência consciente. A cura não apaga o passado, ela reorganiza, coloca cada coisa em seu lugar, mesmo que o lugar seja uma gaveta difícil de abrir. Se curar é aprender a viver sem negar o que foi vivido, é parar de exigir de si a força que você não tinha naquela época. É olhar para trás com menos julgamento e mais compaixão. No fim, a dor não é inimiga, ela é mensageira. Chega rude, chega torta, chega tarde, mas chega para dizer que algo precisa mudar. E quando a gente finalmente escuta, quando para de lutar contra o processo e aceita atravessar, entende que a cura não é um ponto de chegada. É um caminho irregular, cheio de tropeços e pausas, mas que, mesmo sangrando, segue adiante. Porque viver não é não doer, viver é continuar mesmo sabendo onde dói. E isso, por si só, já é uma forma profunda de cura.
— Diego em Relicário dos poetas.
entende ?
sacou?
Olá
Olaa
Você merece todo amor que tenta dar aos outros.
Hoje eu percebi que não penso mais nele quando deito na cama pra dormir, como era de costume.
Não porque deixou de significar. Mas porque a imagem que eu tinha dele se esfarelou nas minhas mãos.
Passei tanto tempo acreditando que conhecia alguém raro. Alguém que falava de profundidade como quem realmente entendia o peso de uma conexão. E talvez seja isso que mais dói: perceber que alguém pode falar tão bonito sobre sentir, sobre viver, escarnecer superficialidade e ainda assim não conseguir sustentar aquilo na própria vida.
Como alguém que preza tanto por conexão consegue atravessar pessoas diferentes tão rápido assim?
Talvez eu nunca tenha conhecido ele por inteiro. Talvez eu tenha conhecido só a versão dele que também queria acreditar naquele próprio discurso.
E pela primeira vez em muito tempo, isso não me deu saudade. Me deu tristeza.
Porque percebi que eu acreditei. Eu te amei. Mas no final talvez tenham sido só palavras bonitas, emoções elaboradas e cuidadosamente deixadas em mim para que eu continuasse rebobinando essa fita por muito tempo.
É até estranho não pensar em você a todo momento como antes. Meu corpo está ressignificando esse vazio já faz um tempo, na verdade.
Mas a sua incoerência me pegou de surpresa.
E talvez tenha sido justamente ela que finalmente me acordou da pessoa que eu achei que conhecia.
by cibele