Odiava o jeito metido Nikola. Não sabia o que era, mas qualquer expressão daquele garoto parecia lhe ferver o sangue. Cada deboche do mesmo fazia ele desenhar na cabeça um soco na bola dele.
As palavras do mesmo sobre o final do episódio passado, apenas contribuíram ainda mais para sua irritação. Cerrou os dentes e logo pressionou os lábios, aproximando-se do outro ao tempo que observava ele descascar o plástico do chiclete:
-Você teve sorte, Nikola. E eu tive dó de não acabar quebrando todos seus dentes. E quando eu relaxei, você aproveitou a oportunidade. - Suspirou -A inveja de eu ter uma família aqui é nítida… E não só de você, meu caro. - Deu dois leves tapinhas na bochecha direito do outro, arqueando ambas as sobrancelhas -Minha dó por você continua, Nikola.
TRATANDO-SE DO POTENCIAL DE DANO, seres humanos hão de equiparar-se a armas de fogo. Por conseguinte, todos são dotados de gatilhos, ainda que não se permitam disparar com facilidade; atrelando-se às travas de segurança por mor de obstar o desencadear de uma reação potencialmente fatal. No entanto, ditas travas são sujeitas a falhas, situações de exceção donde permitem que a pressão por sobre uma pequena fracção da estrutura total resulte na liberação de um projétil. E embora apático, Nikola era tão humano quanto os demais. A indiferença para e com quaisquer sucessos que não o envolvessem o haviam convertido em alguém capaz de tolerar demasiadas injúrias sem recorrer à hostilidade — embora não motivado pela moral, um conceito maleável ante a ótica do ucraniano. Não obstante, certos cenários ainda possuíam a capacidade de cargá-lo à retaliação sanguinária, caracterizada por um nível de emoção atípico em circunstâncias gerais. Como uma máquina, afinal, fora programado para responder a comandos essenciais. Comandos dos quais não poderia esquivar-se, ativados por ações provindas de outrem as quais era impassível de ignorar. Sendo excepcionalmente autocentrado, encontrava moléstia extrema em situações que pudessem daná-lo, bem como naquilo que considerava um ultraje a si. E a por modo de um gatilho, tinha seu rosto. Tratando-se da face, não tolerava qualquer contato que refletisse menoscabo. Nikola poderia relevar um chute na boca do estômago, ou até mesmo uma punhalada em espaldas. Mas não o feito por Lloyd.
Do apenas perceptível toque escarnoso é que fora oriunda a pressão necessária para o fogo. O colocar-se em pé sucedera em questão de segundos, bem como o neutralizar da expressão que fizera de acólito ao movimento combinado dos quadris e do braço direito, em um giro parcial para trás que visava a distância necessária para um relevante impacto. Toda a situação, quando testemunhada, parecia dotada de uma perturbadora graciosidade que não haveria de jazer na violência. O punho cerrado, então, fora impulsionado novamente para frente, topando-se com o nariz alheio em um beijo brutal, cujo estralo de impacto soara como música aos ouvidos do Zalachenko. E então, novamente, em um veloz ato sequencial. Compre um, leve dois. Em sestra, o martelo que sempre cargava consigo ainda era portado. ❝———Não, Lloyd. Eu sou bom. Essa é a diferença.❞ Enunciara, simplesmente, sem sequer elevar o tom. ‘Sorte’, pensara, ‘é o que você vai ter se sair daqui com todos os seus dentes’. Dando dois passos para trás prepara-se, investindo novamente contra o outro, energizado pela fúria cega que agora invadia o envenenado sangue das próprias veias.