De um tempinho pra cĂĄ, eu percebi que mudei bastante. Sabe quando vocĂȘ para, pensa e percebe que nĂŁo Ă© aquela mesma pessoa de antes? Que era viciado em certas coisas que hoje em dia vocĂȘ nem liga mais? Que tipo, saiu de dentro da caixinha em que vivia? E que saiu dos seus limites, mesmo sem ter virado a vida de ponta cabeça. Ă meio complicado, mas pensa assim: VocĂȘ sempre gostou de azul, sempre foi sua cor favorita, e daĂ o vermelho do nada começa a chamar muito a sua atenção, sĂł que vocĂȘ Ă© muito apegado ao azul e nĂŁo quer abrir mĂŁo da cor. EntĂŁo vocĂȘ junta o azul com o vermelho e forma uma cor nova, e quando essa nova cor se forma vocĂȘ acaba percebendo que tambĂ©m gosta do roxo. E Ă© praticamente isso que vem acontecendo na minha vida, tudo que eu fui, sou, vou ser, estou sendo, estĂĄ tudo se misturando, formando que um ânovo velho euâ. Ăbvio que no começo eu estranhei essas mudanças, porque geralmente quando vocĂȘ encontra uma mudança em vocĂȘ mesmo, a tendĂȘncia Ă© estranhar e apontar aquilo como um erro. Mas com o tempo vocĂȘ vai se acostumando, e gostando da ideia de se renovar todo dia. AtĂ© porquĂȘ essa crise Ă© natural, e indica que vocĂȘ estĂĄ crescendo. Pense em vocĂȘ mesmo como uma esponjinha, que a cada segundo, dia ou ano vai absorvendo gotinha por gotinha. Seja a gotinha um amigo que vocĂȘ conheceu, um livro que vocĂȘ leu, uma sĂ©rie que mudou a sua vida, uma experiĂȘncia incrĂvel ou terrĂvel, enfim⊠VocĂȘ vai absorvendo tudo isso e somando com o que vocĂȘ jĂĄ Ă©, e o que vocĂȘ transmite para o mundo Ă© a mistura disso tudo, das experiĂȘncias que vocĂȘ jĂĄ viveu com a sua essĂȘncia, com aquilo que vocĂȘ jĂĄ era, que estava aĂ dentro de vocĂȘ o tempo todo. EntĂŁo essa mudança Ă© inevitĂĄvel, nĂŁo adianta vocĂȘ se culpar ou se sentir mal por nĂŁo ser mais a pessoa que era quando foi dormir ontem, porque algo que aconteceu hoje pode ter lhe alterado um pouquinho, e entĂŁo vocĂȘ mudou. Quero dizer que estĂĄ tudo bem em nĂŁo ser mais a pessoa que vocĂȘ era antes, que nĂŁo precisa se sentir mal por algo que vocĂȘ nĂŁo consegue controlar, e nem precisa continuar fazendo velhos hĂĄbitos que vocĂȘ nem gosta mais de fazer porque se sente pressionado pela sociedade, por seus amigos ou quem quer que seja. VocĂȘ nĂŁo precisa se sentir preso a ser quem era antes, sĂł precisa manter isso e somar com esse novo âvocĂȘâ, simplesmente vocĂȘ. O que importa Ă© manter sua essĂȘncia e ser honesto com vocĂȘ mesmo. O resto Ă© resto, vocĂȘ pode gostar, deixar de gostar, pode enjoar, pode nunca enjoar. Porque se antes eu gostava de cantar, hoje eu gosto de ouvir. Se ontem eu gostava de ouvir, hoje eu gosto de observar. Se antes eu gostava de observar, hoje eu gosto de sentir. Se ontem eu gostava de sentir, hoje eu jĂĄ nem me preocupo mais com o que eu gosto. AtĂ© porque eu nem sei mais direito quem eu sou hoje, e nem preciso saber. SĂł sei que sou eu, e isso jĂĄ Ă© o suficiente⊠Por enquanto.