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@consuma-me
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Amor, café e letras
Quando vocĂȘ me lĂȘ, vocĂȘ degusta as palavras? VĂȘ no S a curva do meu quadril e no M sua mĂŁo em mim?
Na cor da tinta impressa vĂȘ meus olhos ansiosos as voltas dos meus cabelos os elos entre cada letra na minha lĂngua quando te falo?
Quando vocĂȘ nĂŁo me lĂȘ⊠ainda estou em seus devaneios? Apareço na ponta da sua lĂngua quando acorda de sonhos de açĂșcar?
Quando meu nome dança na sua boca sente as cores se espalhando pelas suas papilas e em emergĂȘncia uma chama te atiça bem na aresta do V da vontade?
NĂŁo passe vontade⊠Comigo pode ficar Ă (a) vontadeâŠ
Nas voltas do S, no encontro do X Nos toques das nossas vozes silenciando tudo o que nossa boca diz.
Ter vocĂȘ sĂł para mim
Ter vocĂȘ sĂł para mim como a gota de uma chuva que nĂŁo cai ou na secreção de um segredo explĂcito em seus olhos Frases como facas cantando com um prego na garganta mas engulo o sangue e tem gosto de açĂșcar Ter vocĂȘ sĂł para mim como o azul da fumaça de cigarro se embrenhando em coqueiros Ă luz do sol As nuances de uma angĂșstia gotejando como gritos de desespero e desejo Em suas fugas vejo um fantasma luzindo como ouro, esparzindo esta tensĂŁo trĂȘmula como a ĂĄgua escondida nas nuvens Ter vocĂȘ sĂł para mim no silĂȘncio de uma tarde de ilusĂ”es Ă© o mais perto que posso chegar do cĂ©u.
Herz so schwer
A vida me transformou em uma obcecada pela solidão Um coração pesado manteve meus dois pés bem presos ao chão Cada vez que ele se parte, vejo fantasmas brotarem como fumaça Cada vez que partem, me convenço de que não importa o que eu faça o fim é sempre o mesmo e aprendo mais uma vez a conviver com o peso dos ecos da minha própria voz.
Febre lunar
A lua nascendo nos seus olhos como uma cicatriz rubra no horizonte profetizando noites interminåveis e coraçÔes partidos
Sangro do céu como estrelas mortas Uma luz mortiça vagando fantasmal Seu perfume inunda o segredo Ao céu eu cedo ao sonhar com seu mal
Dorme na minha voz, acorda no escuro afundo os pĂ©s em rios rubros Te torturo, pois Ă© o Ășnico jeito de domar minha febre lunar.
Back to my old ways again
Acho que se sentir inteira Ă© uma falĂĄcia. NĂŁo sou inteira. Sou recortada, mĂșltipla, um fractal agridoce, reverberando ansioso pelas esquinas da minha moral. Tenho tantas faces, que mal cabem em mim, e quero explorĂĄ-las, nĂŁo contĂȘ-las, devorĂĄ-las, dar a elas vida. Tentei caminhar por caminhos retos e poĂ©ticos, tudo para entender que sou errada, errante, torta. Minha franqueza com o espelho me pĂ”e tĂŁo acima de qualquer receio. Hoje troquei aforismos absolutos por certezas passageiras. Sou alguĂ©m que aceita os desejos sem consumir os outros nesse desespero. Hoje aceito os defeitos que me fazem multifacetada, tĂŁo humana, tĂŁo real. Hoje troquei a cerveja ocasional como via para um fim lascĂvo pelo entorpecimento transcendental da solitude. Hoje troquei a verborragia incongruente pelos silĂȘncios honestos. Hoje eu te diria sim mil vezes antes de o sol nascer. Sou um constante se tornar. Entendendo a vida como um eterno presente. Hoje sou errada, sou errante. Um pouco de tudo que sempre quis ser. Totalmente quebrada, mas sempre tĂŁo completa. Num pedestal que hĂĄ vinte anos eu adoraria me ver. A nostalgia dos amantes nunca vai me deixar abandonar os fantasmas do passado. Mas sĂł os resgato para ver o quĂŁo longe cheguei, o quĂŁo distante vim parar, o quĂŁo alta Ă© a velocidade com que avanço.
Em quantas faces me desdobro ao ser tudo que sou.
Sol de primavera
Presa novamente em um turbilhĂŁo EmoçÔes como bolhas, vazias e amplas o sol coruscando em sua casca formando arco-Ăris
A paleta da minha carne arde Pior que sentir demais Ă© sentir tanto por nada NĂŁo hĂĄ nada
NĂŁo hĂĄ nada
NĂŁo hĂĄ nada para esperar Nada para sofrer
Na raiz do desejo eu te quero com a voragem da carne pela carne só preciso de uma fuga das palavras e da fundição do corpo pelo corpo
Eu sĂł preciso mergulhar no Ăntimo do seu silĂȘncio te devastar e ser absorvida por vocĂȘ sorvida pelas suas teias e consumida por um dia
Um desejo feito borboleta livre demais para durar.
The Seven Sorrows of Mary by Robin Isely
âDonât let my silence wound you. I'm just tired of words.â
â Manuel Bandeira, from âThis Earth, That Sky.â
Espiral
NĂŁo tem como aproveitar um Ășltimo cigarro. NĂŁo tem como se contentar com um Ășltimo toque. Talvez seja melhor que as coisas evanesçam sem percebermos do que nos enganar com uma pretendida satisfação da âĂșltima vezâ. NĂŁo hĂĄ satisfação em imaginar o resto da vida sem aquilo que naquele mesmo instante oferece prazer. Ă uma ilusĂŁo. Uma Ășltima vez sĂł intensifica a vontade de uma prĂłxima vez. Uma Ășltima vez encadeia outra Ășltima vez. NĂŁo tem como se entregar ao prazer fugaz ao sabĂȘ-lo derradeiro; ao saber que ele toma a oportunidade de prazeres vindouros. Ă tudo um engano, uma autotortura. Uma vida de privaçÔes Ă© insĂpida. A vida foi feita para ser uma espiral. Ascendendo, evoluindo, mas ainda em cĂrculos.
Enrico Butti The Dream of Death (1890)
"I don't want your love unless you know I am repulsive, and love me even as you know it."
April 26, 1931 Journals of Anais Nin 1927-1931 Â [volume 4]
Rio
Um olhar que se arrasta um segundo a mais sobre a presa Sobra a pressa e o desejo por mais um segundo O mundo em chamas estou tocada vocĂȘ clama ligaçÔes Ă meia-noite uma mĂșsica nova retorna em um olhar Tardes que nĂŁo acabam como se pudĂ©ssemos nos liquefazer e nos fundir num rio infinito que suspira coletivamente por todos os amores Datas marcadas em um calendĂĄrio sĂł o que sobra no leito seco Ă© a eterna vontade de que tivesse durado um segundo ou um sĂ©culo a mais.