MERCADORIAS
Wendell, 19, esquerda. Rodrigo, 19, hum talvez, direita. Pedro, 23, não... esquerda. Victor, 20, esquerda. Wender, 25, esquerda. Thiago, 18, direita, “It’s a match”. A mensagem aparece na tela, trazendo um sentimento de satisfação imediata. Satisfação por si só, pela combinação própria, muito maior do que a satisfação de ter alguém com quem falar ou um novo pretendente. Como ter vencido um jogo no qual os vencedores deveriam ser aqueles que conseguem beijos, sexo fácil ou um namorado, mas não são. Reconheço a falta de objetivo. Este prazer se esvai rápido, um suspiro, e nunca é suficiente. Nunca temos combinações o suficiente, precisamos de mais e mais e mais, num jogo sem objetivo que não acaba nunca. Algo que só parece trazer felicidade, quando na verdade traz consigo uma carga imensa de frustração e problemas de autoestima. Simplesmente não consigo parar, e continuo passando as fotos e seus formatos industriais para um lado ou outro. O soco que se leva quando um like não é correspondido, aquele sentimento de não retribuição, de inferioridade, aquilo não paga o prazer dos likes. É um sentimentos que lentamente consome e depois regurgita uma nova pessoa, uma pessoa fraca e sem confiança. No começo é quase imperceptível, começa pela ponta do pé e vai lentamente acabando com você. Diferente da satisfação do match, essa é uma dor que se acumula e te obriga a carrega-la consigo no próximo dia, semana, mês. É uma dor curiosa, motivada por imagem artificial e construída, por uma pessoa que nem se conhece. Fotos que valorizam, efeitos que escondem imperfeições, textos de descrição muito bem pensados. Mesmo quando se tenta ser honesto não se é. É impossível ser honesto com seis fotos e 499 caracteres, nenhum ser humano se resume a isso. Talvez o sentimento seja ainda pior por causa disso. O rejeitado não fui eu, que tenho várias falhas e reconheço. Quem foi rejeitado foi minha melhor versão possível. A versão mais bonita, mais simpática, mais bem considerada pela sociedade. Nem em meu auge absoluto sou o mínimo para a pessoa e isso dói. Tenta-se ignorar a dor, fingir que não sentimos, que se é mais forte. Mas é um chute na virilha. Por que continuar nesse jogo desonesto que só me arrasta para baixo? Não sei. Sempre parece que se sai no prejuízo apagando. Existe uma sensação viciante, e que em muito parece diversão, em julgar, que, admitindo ou não, todos ali o fazem. Julgar cada detalhe de uma foto, de uma descrição ou de uma pessoa. Existe uma sensação viciante, uma sensação consumista, de enxergar tudo como um produto a venda. Um produto que julgamos a qualidade baseados em sua aparência, em sua propaganda. Mais do que passear por um mercado e ver todos como produtos, nós nos colocamos nas prateleiras e trocemos para ser escolhidos, levados para casa. Talvez a necessidade de continuar seja a mesma que nos faz, muitas vezes, comprar o que não precisamos. Somos o reflexo da sociedade em que vivemos, uma sociedade do material e do descartável, e estar no tinder é quase como ir as compras, só que sem gastar nada.














