Daeneris entrou no tĂĄxi, mas manteve os olhos colados na janela atĂ© que a paisagem do acampamento sumisse completamente. Sentiu que algumas lĂĄgrimas escorreram pelo seu rosto mas nĂŁo conseguiu fazer mais nada senĂŁo encarar a janela com uma paisagem desconhecida. Seu coração se apertava sĂł de saber que talvez nĂŁo voltasse para lĂĄ no ano que vem. Tantas coisas tinham acontecido naquele acampamento, e a maioria delas tinha sido incrivelmente boas. Tentou pensar no lado bom: iria voltar para casa, sua cama estava lĂĄ esperando e sua caneca de cafĂ© tambĂ©m. Seria seu Ășltimo ano na escola e ela precisava fazer algumas decisĂ”es, nĂŁo que isso fosse um problema. Mudou a direção do olhar para o retrovisor do carro e flagrou o taxista a encarando. Olhou para o outro lado e limpou as lĂĄgrimas com a manga do casaco que estava carregando.Â
Chegaram ao aeroporto mais rĂĄpido do que Dae esperava, eles desembarcaram e a garota colocou tudo no carrinho menos seu casaco e sua bolsa, mas sua mente estava em outro lugar e ela sĂł prestou atenção ao que estava acontecendo ao seu redor quando escutou a voz de Dan, estavam parados na frente da porta, mas ela nĂŁo estava com a mĂnima vontade de entrar. âEuâŠ" começou a dizer, mas nĂŁo pode continuar porque seu celular começou a tocar. "SĂł um segundo" pediu, se virando para o lado enquanto atendia a chamada. "Dae!" era Bobby, ou Birdy. "B, jĂĄ estou no aeroporto. VocĂȘs estĂŁoâŠ" "Estamos sentadas no banco perto da sala de embarque dos vĂŽos internacionais, na verdade, eu estou. Birdy estĂĄ conversando com um menino por aiâ. âAh" ela nĂŁo tinha muita certeza do que Bobby queria dizer com o verbo conversar, mas ignorou isso. "Ok, chego ai rapidinho, beâŠ" "SĂł uma coisa" a voz de Bobby surgiu antes que ela pudesse desligar a chamada "Finalmente vou conhecer o seu namorado?" Dae revirou os olhos e desligou a chamada. "Vamos?" se virou para Daniel e tentou dar um sorriso convincente. Â
NĂŁo foi tĂŁo fĂĄcil assim achar o lugar que Bobby tinha mencionado, o aeroporto era simplesmente gigante e eles acabaram dando vĂĄrias voltas atĂ© encontrĂĄ-las. Mas quando eles encontraram o banco, nĂŁo foi muito difĂcil de identificĂĄ-la: cabelo marrom e comprido como o de Daeneris, sĂł que com pontas roxas, rosas e azuis. âDaeneris! Isso Ă© o seu rapidinho? Pelo amor de Deus!" Bobby quase pulou em cima dela, Dae riu e a abraçou se perdendo no meio do cabelo colorido, sua irmĂŁ era no mĂnimo um palmo maior que ela. "Bobby! VocĂȘ estĂĄ maior do que da Ășltima vez, que mundo injusto" comentou rindo e se afastando um pouco da irmĂŁ. Graças aos cĂ©us, ela estava de calça. Um calça muito colada, mas ainda sim era uma calça. E tambĂ©m usava uma camiseta escrita Turn my swag on que era um pouco - na verdade bastante- maior que ela. âCadĂȘ a Birdy?" perguntou procurando algum cabelo colorido ao redor. Bobby riu "Eu nĂŁo faço a menor ideia, mas ela deve voltar logo, eu achoâ. Dae deu ombros e sorriu âComo foi o B-people?â, Bobby sorriu âMaravilhosamente Ăłtimo, mas entĂŁo⊠NĂŁo vai me apresentar o seu boy?â. Dae queria dizer que tinha se esquecido completamente de apresentĂĄ-lo, mas na verdade, estava tentando enrolar ao mĂĄximo para evitar aquele momento constrangedor. âBom, esse Ă© o Daniel, meu namorado" apresentou pegando na mĂŁo dele e puxando-o para frente. Bobby se aproximou e colocou a mĂŁo no peito dele "Hm, atĂ© que a minha irmĂŁ tem bom gosto.â ela sorriu colocando o cabelo para o lado, âSabe, Daniel, atĂ© que eu gosto de americanos. VocĂȘ faz o que? Dança, canta, joga tĂȘnis?â. Dae olhou para o outro lado, jĂĄ estava acostumada com o jeito da irmĂŁ. âEle Ă© mĂșsico" respondeu automaticamente, reparando que a mĂŁo dela estava descendo do peito para outros lugares. "EntĂŁoâŠ" Dae entrou no meio deles do jeito mais discreto possĂvel, separando os dois, sĂł pra garantir. "EntĂŁo o que irmĂŁzinha? SĂł estava testando" Bobby encarou Dan e sorriu "NĂŁo me julgue, tenho que garantir que vocĂȘ nĂŁo vai fazer o mesmo que o outro. NĂŁo sei porque minha irmĂŁ insiste em arranjar relacionamentos fixos, sĂŁo tĂŁo complicados. Mas pense duas vezes antes de magoĂĄ-la, eu nĂŁo puxei o lado pacĂfico e paciente da famĂliaâ. O sorriso de Dae sumiu por um instante âB, nĂŁo precisa ameaçar as pessoas" pediu, ainda sem sair do meio dos dois. "SĂł avisando" Bobby ergueu as mĂŁos como se estivesse se rendendo e sorriu como se tudo aquilo fosse muito divertido "Ah, veja quem resolveu aparecerâ.
Dae demorou um segundo para identificar a outra irmĂŁ, o mesmo cabelo colorido, mas com uma blusa do Guns NâRoses. SĂł que essa, infelizmente, nĂŁo estava de calça, estava com uma saia de cintura alta preta, ou melhor, com uma mini-saia de cintura alta preta. Dae sorriu ao ser sufocada em outro abraço âPosso saber porque vocĂȘ nĂŁo estava aqui pra receber a sua irmĂŁ linda e maravilhosa?" ela sentiu a irmĂŁ rir "Tive que resolver umas coisas por aiâ. âUmas coisas?" perguntou se separando do abraço. "Ă. Homens sĂŁo um problema" ela revirou os olhos "Tive que dar um fora no menino de ontem. Odeio fazer isso, Ă© extremamente desgastante" ela suspirou e deu um sorriso "E quem Ă© esse belo rapaz?â. Bobby deu um risinho do lado dela, enquanto a irmĂŁ se aproximava dele. Dae respirou fundo, nĂŁo adiantava tentar impedir. âDaniel, Birdy. Birdy, Daniel" apresentou novamente e se virou para Bobby. "Esperava te ver mais animada, D" disse sem parecer preocupada de verdade. "VocĂȘ sabe, eu nĂŁo gosto muito de despedidasâ, âE vocĂȘ sabe que eu odeio ter que comprar sorvete pra vocĂȘ quando as coisas dĂŁo errado. VocĂȘ sabe mesmo aonde estĂĄ se metendo dessa vez?â. âEu espero que simâ. Bobby riu âPelo menos alguĂ©m tem esperanças nessa famĂlia. Eu perdi a minha completamente desde que a mamĂŁe mandou tirar a porta do banheiroâ. Dae encarou Bobby horrorizada âNĂŁo. Ela nĂŁo fez issoâ. Bobby arqueou as sobrancelhas âAh, ela fez sim" e riu. Dae deu ombros, iria aprender a sobreviver sem portas no banheiro uma hora ou outra. Olhou para Birdy que parecia estar mantendo um Ăłtimo papo com Daniel "Esse sotaque americano me mata! De que estado vocĂȘ Ă© mesmo, Dan?â. Ela riu, atĂ© que gostava das suas irmĂŁs.
Assim que Daeneris saĂra de seu aparente devaneio e finalmente virara-se para responder a pergunta que Daniel fizera, pedira licença para atender o celular. Pelas resposta que ouvira a namorada dar durante a chamada, tivera quase certeza que se tratava de uma de suas irmĂŁs do outro lado da linha. âSuas irmĂŁs?â perguntara o rapaz apĂłs vĂȘ-la revirar os olhos e tentar dar um sorriso que na realidade, nĂŁo conseguia convencer ninguĂ©m.
Depois de terem se perdido ao menos umas duas vezes, finalmente o casal encontrara o local pelo qual procuravam: a ala dos voos internacionais. Ver aquele nome escrito em uma placa era um tapa na cara do garoto, um lembrete dos tempos difĂceis que estavam por vir âComo se ele precisasse de algum lembrete...â pensara. Assim que a morena fora atacada por uma garota mais alta e com os cabelos coloridos, o mĂșsico exibira um pequeno sorriso em seu rosto. A felicidade daquele momento ofuscara por um instante a iminente despedida. Daniel ficara um pouco para trĂĄs enquanto as duas irmĂŁs se reencontravam, quando se dera conta, jĂĄ estava sendo apresentado Ă famosa Bobby. âĂ um prazer conhecĂȘ-laâ dissera sorrindo ao segurar a mĂŁo da namorada. âHm, atĂ© que a minha irmĂŁ tem bom gosto.â Quando ouvira essas palavras, Dan arqueara as sobrancelhas. âEr...Obrigado?â perguntara incerto olhando para Daeneris com uma expressĂŁo confusa. A breve confusĂŁo logo fora substituĂda por uma alta gargalhada. NĂŁo conseguia acreditar que a cunhada estava flertando abertamente com ele. Sentira a mĂŁo da garota descer pelo seu peito e rira ainda mais com a pequena demonstração de ciĂșmes. âDesses trĂȘs que vocĂȘ mencionou, sĂł canto mesmo.â Respondera em tom de brincadeira. âE como disse sua irmĂŁ, sou mĂșsico.â Afirmara levando a mĂŁo da namorada atĂ© seus lĂĄbios e dando um pequeno beijo nas costas, mostrando que nĂŁo se importara com a cena que acabara de ocorrer.
â(...)tenho que garantir que vocĂȘ nĂŁo vai fazer o mesmo que o outro.â Essa frase fora quase um tapa na cara, mas entendera o lado da garota. âNĂŁo se preocupe, isso nĂŁo acontecerĂĄ.â Falara firmemente. Virando-se para a namorada com um sorriso brincalhĂŁo no rosto dissera âE existe um lado pacĂfico e paciente nessa famĂlia?â rira âE Dae, nĂŁo tem problema. Entendo completamente o porquĂȘ de estar sendo ameaçado e, cĂĄ entre nĂłs, nĂŁo foi a primeira vez, nĂŁo Ă©? Lembra da Diamond?â perguntara num tom ameno.
Daniel nĂŁo fazia ideia do porquĂȘ ter se chocado com a roupa utilizada pela outra gĂȘmea. Apenas pela roupa escolhida por Daeneris para a Ășltima festa do acampamento, jĂĄ era previsĂvel o estilo de se vestir de suas irmĂŁs. Claro, que elas era uma versĂŁo bem mais exagerada, mas ainda assim, havia uma certa semelhança. O moreno franzira a testa ao escutar as poucas palavras trocadas apĂłs a chegada de Birdy. Contudo, nĂŁo tivera nem o tempo necessĂĄrio para ficar confuso. Quando se dera conta, a outra garota de cabelos coloridos jĂĄ estava flertando com ele. âPrazer, Birdy.â Rira. âDae? SĂł uma pergunta: Elas sĂŁo sempre assim?â indagara um tanto incrĂ©dulo com a situação em que se encontrava. O rapaz resolvera entrar na brincadeira e respondera acentuando ainda mais o seu sotaque sulista. âGeĂłrgia, jĂĄ ouviu falar? Aquele estado onde fica o museu da Coca-Cola?â
Antes que pudesse obter uma resposta, sua atenção fora desviada devido a um som que escutara. Um que realmente nĂŁo gostaria de ter ouvido: A primeira chamada para o voo da Dae. Seu coração afundara no momento em que a voz anunciara a partida prestes a acontecer. Sem perceber, acabara apertando com força a mĂŁo na da namorada, como se daquela forma, pudesse impedir que ela fosse embora. O olhar triste voltara a seu rosto e o clima de brincadeira logo desaparecera afinal, sĂł possuĂam mais alguns minutos juntos. Em algumas horas, estariam separados por mais de meio-mundo.