E teve uma época que eu fingi que era feliz. Fingi porque simplesmente não queria mais estar triste. Estava cansado desse fardo e resolvi sorrir. Me comprometi a sorrir. Me esforcei para estar feliz. Eu fingi tanto que todo mundo que me cercava no trabalho, amigos, na rua, todos se convenceram, ou foram convencidos, de que eu era feliz. Eu fingi tanto que consegui enganar até a mim mesmo. Esqueci que estava fingindo. Poucas coisas podiam denunciar minha infelicidade camuflada: Meus olhos, (a janela da alma, certo?), minha mãe, a quantidade de álcool que eu consumia nessa época, talvez um psicólogo, se eu tivesse feito análise em algum momento.
Neste estado de fingimento se acaba por tornar-se bom ator. Afinal, o que é atuar senão fingir muito bem. Interpretava meu papel com maestria. Tinha para mim que estamos todos interpretando, fingindo saber o que estamos fazendo. Encenando uma segurança inexistente, diante da necessidade de se reafirmar uma convicção para não se perder nas trevas de um niilismo existencialista. Enfim, fui um ótimo ator e as vezes uma pessoa encantadora. Se a solidão não me tivesse abraçado como uma dama de ferro, talvez eu ainda estivesse interpretando este papel.
Não sei se foi bem a solidão ou o suicídio. Não o meu suicídio porque ainda estou vivo e as vezes lúcido. Mas a felicidade do outro (mesmo a fingida) incomoda. Principalmente se constante. Ora, uma pessoa alegre o tempo todo merece um belo soco no meio da cara. Principalmente para quem está olhando ao redor. Um imbecil não pode sorrir o tempo todo com tanta gente fudida nesse mundo, certo? Certo? Não sei. Mas fiquei tocado certo dia.
Deixe-me explicar o que aconteceu. Certo dia, indo a lugares costumeiros, encontrei com pessoas costumeiras, fazendo aquilo que fazem de costume. Mas a rotina de uma dessas pessoas tinha sido quebrada por alguma desgraça. A vida sempre tem desgraças acontecendo. Mesmo se você é neta de militar e nasceu com a vida feita, sem precisar fazer nada e morar no Leblon, pertinho da praia. É. Acredite. As vezes, alguém assim se mata. Por que? Não sei. Não compreendo bem essas questões suicidas. Mas acontece que o acontecido aconteceu. E cheguei eu na minha felicidade, real ou fingida, vai-se saber. Nessa época eu estava fingindo tanto tempo que sequer sabia o que estava realmente sentindo.
Cheguei eu todo feliz e antes de saber o que estava acontecendo, fui acusado de fingimento porque ninguém podia ser feliz o tempo todo (certíssimo), fui acusado de ser tóxico (positividade tóxica) porque ao projetar a felicidade e buscar me agarrar nessa positividade, não estava sendo empático. Afinal, alguém tinha metido uma bala no meio da cabeça, mesmo tendo tudo o que alguém poderia ter. Mas, porra, eu estava realmente precisando daquele sorriso para não enlouquecer.
Diante daquele embate, decidi parar de fingir. Abracei minha tristeza. Fui pro fundo do Lago, cercado pela minha própria escuridão. Ninguém me acusou de fingir tristeza. Nem disse que minha tristeza era tóxica. A miséria do outro deixa nossa vida mais colorida. E foi ali, quando decidi parar de fingir que fui pouco a pouco enxergando o que fui e o que sou. O que preciso mudar e não consigo, o que consigo e não preciso mudar. Foi ali, me percebendo e, principalmente, percebendo o mundo que me cercava que fui pouco a pouco perdendo minha lucidez. Me importando cada vez menos com a vida. Caminhando para a afasia.