sustentou o olhar, buscando qualquer falha, qualquer hesitação que desmentisse aquilo. mas não havia. por mais contraditório que fosse ao que o ministro havia dito antes, havia verdade. e isso o deixava ainda mais desarmado. ele sabia que era difícil de lidar, não precisava que darian o lembrasse disso. sabia que era temperamental, arrogante, cruel quando queria. mas o fato era: não queria que fosse fácil. não queria alguém que se apaixonasse por uma versão idealizada dele. queria ser amado não apesar das suas falhas, mas junto delas. queria que alguém conhecesse a sua pior versão e, mesmo assim, permanecesse. e darian conhecia as partes boas e ruins que coexistiam em laurent lefevre. o ministro conhecia mais do que qualquer outro, para ser sincero. sabia de suas fissuras, daquelas raras versões em que ele largava a coroa, o título, a frieza, e apenas… existia. talvez não fosse um homem bom — santos, não era —, mas darian tinha visto que dentro dele ainda restava algo que valia a pena. isso foi confirmado minutos depois quando ele disse que não tinha ido embora, o que fez laurent suspirar aliviado. ele queria que darian ficasse. queria desesperadamente. era justo que carregasse em sua pele as lágrimas que ele mesmo tinha provocado. o som da voz de darian, carregada de entrega, era a maior tortura que poderia receber. porque ali estava o que ele mais queria, e ao mesmo tempo, o que não podia ter. e talvez fosse esse o ponto em que ele estava chegando: conformar-se. não havia como se livrar de darian. não havia como arrancá-lo da mente ou do corpo. tudo o que podia fazer era aceitar que estaria preso a ele, de um jeito ou de outro. não disse mais nada, porque qualquer palavra seria menor do que o que estava sentindo.
estralou a língua no céu da boca, provocativo, e ergueu os olhos para darian com aquele meio sorriso que não chegava aos olhos. ‘ você é esperto, darian. você sabe. ’ parecia precipitado demais dizer “eu quero que você governe velraisse comigo. esse é o meu termo”. o sorriso que tentava manter se desfez quando darian voltou a falar. não o interrompeu, apenas ouviu. ouviu as palavras saírem aos borbotões, como se o ministro estivesse finalmente arrancando de dentro tudo o que escondia. sentiu os lábios ficarem secos enquanto um calor desconfortável subia pelo corpo. nunca na vida tinha se sentido tão exposto, tão encurralado, tão… vulnerável. era tudo que o lefevre queria ouvir, mas também tudo que ele temia. porque ouvir aquilo significava que agora não havia mais volta. como laurent poderia negar isso? como poderia dizer “não” quando ele mesmo desejava o mesmo? não só um desejo, uma necessidade. ele sabia que darian esperava uma resposta, que aquele silêncio era uma tortura. mas nenhuma palavra parecia suficiente. então ele simplesmente se moveu. levou as duas mãos ao rosto do ministro, segurando-o com firmeza, os polegares se encaixando logo abaixo dos olhos, e o beijou. não era como os outros beijos que havia dado. não tinha violência ou luxúria, era quente e profundo. era um beijo apaixonado, entregue, quase desesperado. o tipo de beijo que se dá quando não há mais nada a dizer. mas ele devia uma resposta para darian, então precisou se afastar. ‘ se não ficou claro… eu quero o mesmo. ’ as mãos dele ainda pairavam próximas ao rosto de darian, tentando ganhar tempo para organizar os pensamentos. ‘ eu sei o quanto a sua carreira importa para você. e você é bom no que faz, por mais que eu viva dizendo o contrário. então não, eu não quero te humilhar. ’ fechou os olhos por um instante, respirando fundo, como se engolisse o próprio orgulho antes de admitir aquilo. ‘ nunca pensei que você abriria mão do que construiu por mim… mas, porra, como eu implorei por isso. talvez até tenha rezado. ’ laurent riu baixo, incrédulo consigo mesmo, e logo passou a mão pelos cabelos, inquieto. ‘ eu quero você. eu quero! eu vou lutar por você. não consigo imaginar qualquer outra pessoa ao meu lado. mas você sabe… você sabe que não vai ser fácil. preciso que me dê tempo para ajeitar tudo. para te ter por completo. ’ era o que o ministro merecia, afinal. deu um passo para trás, coçando a têmpora, tentando aliviar o aperto que sentia na cabeça só de imaginar a reação do pai. antoine jamais aceitaria. era certo. mas, por mais difícil que fosse, aquilo não mudava nada: era darian que ele queria, e ninguém mais. villavencia existia apenas como um detalhe que já havia perdido toda relevância diante da presença do ministro. ela teria que aceitar também. balançou a cabeça, afastando todo tipo de pensamento sobre as decisões que teria que tomar. não precisava pensar naquilo agora. um sorriso mais leve surgiu, agora genuíno e travesso, quebrando a tensão do momento. ‘ darian lanier, você acabou de me pedir em casamento? ’ arqueou a sobrancelha, segurando o riso. sabia que não havia sido um pedido de fato, mas ainda era engraçado. ‘ acho que a aliança dela não vai caber no seu dedo. ’