uma lista de possíveis profissões se forma pela mente de lena, e a pergunta chega a tocar a ponta de sua lingua, mas ela não a deixa escapar. porque, no fim, o atrativo daquela conversa é justamente não saberem os detalhes mais reveladores. ❛ é uma pena. você tem um riso gostoso de escutar. ❜ a morena responde, então, sem rodeios. apesar de seu sorriso charmoso, não é bem um flerte, apenas um fato que repara. por um instante, seja a bebida ou a saudade que aperta-lhe o peito, o som até soa com a de emir, e ela não sabe dizer se é a saudade que aperta fundo, a bebida em seu sistema ou mesmo a magia da tenda que lhe faz escutar o que quer, mas não importa. elena somente fecha os olhos para focar a atenção nele, quase como se pudesse engarrafá-lo e ter sempre consigo. e é só por estar tão concentrada que não perde o comentário dele, só que este ainda assim parece tão repentino, tão estranho, que é a sua vez de se surpreender. ❛ existe isso? ❜ a risada que ecoa é pura descrença ao que observa o homem-abóbora demonstrar como. ❛ ok, ok. a sua irmã é bem mais esperta do que as minhas! ❜ não que as elas pudessem ter mais experiência na época, dada o quão protegidas pelos empregados todas eram, mas lena também não descarta a possibilidade de tina ter inventado aquilo só para brincar com a sua cara. ❛ hmmm, decepcionante é uma boa descrição. se bem que, dependendo a quem pergunte, também encaixaria bem pros caras com quem eu tendo a me envolver. então não sei se dá pra culpar só o beijo. ❜ dependendo, encaixaria bem para ela própria até. ao menos, pode confiar que seu segurança seria mais colorido em suas observações, fosse sobre quem fosse —— afinal, mathias foi promovido ao cargo bem na época de seu término com emir, então praticamente assistiu de camarote todos os tapa buracos questionáveis que a bourbon encontrava.
só que isso não importa agora —— da mesma forma como quase nunca importaram. elena segue deitada sobre seu lado, a cabeça repousada preguiçosa em uma das mãos ao que continua a brincar com o outro. tão alheia que sequer nota ele esticar a mão para tocar em sua fantasia. mas, esta sim. no instante em que os dedos dele roçam a corrente, a luz reage como se ganhasse vida: um piscar suave vibra por toda a extensão, acendendo e apagando em ondas, de novo e de novo, num tilintar alegre. como se a própria energia reconhecesse instintivamente aquilo o que a própria princesa ainda não consegue perceber. o aperto que tinha sobre ela durante a noite se desmancha numa sensação estranha sensação segurança que chama a atenção dela, que naquele momento ria do comentário dele. as íris negras crescem em surpresa ao notar a corrente deslizar alguns centímetros pelos lençóis, escorrendo em direção a ele, atraída pelo toque que lhe despertou tal resposta. ❛ engraçado, eu não sabia que ela fazia isso. ❜ a azul comenta, o tom leve entre confusão e humor. a verdade é que já nem tenta mais entender aquela fantasia, pois cada observação parece acabar em mais perguntas do que respostas. no fim, somente dá de ombros, ❛ acho que ela gostou de você. você deve ser bem popular. ❜ não é uma pergunta; por tudo o que ele ofereceu até então, sem tentar forçar nada com ela naquele estado, e pelo jeito com o que fala da mulher que ama, lena tem certeza que qualquer um teria sorte de gostar dele!
e por falar na outra mulher, ela não se apressa a responder. apenas se acomoda mais sobre o travesseiro que abraça, admirando o jeito como o sentimento escapa do outro, como se faz presente entre os traços esculpidos —— até mesmo os buracos ocos que ele tem no lugar dos olhos pareciam brilhar. ❛ não há porque colocar. ser diferente não significa ser um empecilho. ❜ talvez, em seu caso fosse, no entanto, não quer pensar nisso no momento. não, ela só quer fazer esse estranho querido ser feliz, para que assim pudesse ao menos viver essa felicidade através dele nem que por um momento. talvez assim pudesse se enganar fingindo que assim tivesse uma salvação para a sua própria história. ❛ acho que é até melhor quando temos alguém que nos influencia ou nos complementa. do tipo que te muda de um jeito que você nem sabia que precisava... eu, por exemplo, sou uma pessoa que tem a cabeça na lua. ❜ é inevitavel que uma risadinha escape diante do quão real é aquilo. ❛ e já namorei alguém que era exatamente igual a mim. de um jeito que me convenci que só poderia ser a minha alma gêmea. e, bem, foi um verdadeiro desastre! houve tantas coisas que eu me forcei a aceitar só porque parecia certo. ❜ e isso se repetiu inúmeras vezes ao longo dos anos, tão desesperada para ser amada, para que alguém olhasse pra ela e enxergasse alguém suficiente... ❛ no final, a única vez em que realmente senti isso foi com alguém que tinha os dois pés firmes no chão. e não me leve a mal, isso me deixava lou-ca no inicio. mas depois? depois meio que cresceu em mim. ❜ o riso que acompanha a confissão é quente, desmanchando-se num carinho que surge sem dificuldade, um encantamento quase pueril até. ❛ talvez não tanto quanto deveria, mas.. eu não sei, é como não importa o quão longe eu voasse, ele ainda me mantivesse conectada a terra. ❜ será que o havia dito o quanto gostava disso —— o quão importante era sentir isso —— ou era mais uma coisa em que falhou?
❛ meu. ❜ repete simplesmente, sem deixar se levar pela dor do próprio pensamento anterior. ainda há aquela leveza no tom, no jeito como remexe os ombros. ❛ meu amor, meu cielo, meu one and only, meu tudo... as reticencias estão ai por um motivo, cariño. qualquer palavra que você associar, ele provavelmente é. ❜ meu emirin. o apelido quase lhe escapa sem querer querendo, afinal, não há outra forma melhor de descrever tudo o que karam é. ele é... ele. tão simples e tão complicado quanto quanto deveria ser. a azul não sabe se a magia da festa o impediria de entender o nome, mas também não quer arriscar. ainda que não tivesse dito nada comprometedor ou mesmo que não pudesse ser reconhecida, a possibilidade de causar alguma complicação para ele a deixa mais cautelosa do que costuma ser normalmente. também motivo pelo qual tem mantido sua distância desde o dia das passagens secretas. felizmente, o comentário do cavaleiro rouba sua atenção, lhe afastando do pesar com uma gargalhada gostosa. ❛ é claro que é! ❜ a resposta é na hora, abordando a questão sobre o anonimato primeiro. ❛ é por isso que você vê donos de destilarias mais ricos do que psicologos. é realmente mais fácil colocar para fora quando nos achamos inatingíveis. que nada poderá retornar para nós de alguma forma. ❜ pontua a bservação com outro dar de ombros. para a questão anterior, elena se deixa considerar por mais alguns momentos, mas no final, pode apenas responder: ❛ e talvez eu não saiba muito, mas, se quer mesmo saber, acho que nada disso importa tanto quanto o que você está disposto a fazer por ela. ❜ pode ser uma visão mais simplista sua, contudo, não parece ser tão difícil assim...
mais uma vez, não pode fazer outra coisa diante à pontuação alheia, senão rir. e ela não reclama —— as coisas ao menos parecem menos pesada quando pode rir. ❛ há quem diga que é quase um talento. ❜ a morena tomba a cabeça, até encostar a bochecha no ombro, em charme. ❛ ai você está já sabe mais do que eu. eu disse que já não me lembro tanto assim. talvez devessemos reasssitir juntos... ❜ será que iria contra o fundamento de anonimato que parece solidificar aquela estranha amizade? elena não sabe dizer, mas também não gostaria que essa fosse a única vez que fala com ele. ❛ eu sou do time que adoraria pegar uma vilã. mas ser uma? não sei, não acho que alguém me veja assim. talvez uma filha da puta, as vezes, mas acho que só me acham mais a uma bagunça, mesmo. ❜ ela diz, sem tentar disfarçar ou fugir. parece um detalhe idiota de mentir quando há inúmeras manchetes que confirmam a tese. e embora a grande maioria tenha sido destruída antes mesmo de atingir os holofotes, graças aos cofres da coroa castellana, os borburinhos continuam —— a princesa festeira, o espírito indomavel, incapaz de conseguir o que quer sem o nome do papai... e de novo, é o outro que a salva de cair muito fundo nos pensamentos. ❛ pois eu gosto. me faz sentir desejada. necessária. ❜ não é de todo uma mentira, no entanto, também só há uma pessoa que ela gosta de provocar os ciúmes.
❛ e isso é bom ou ruim? ❜ elena indaga, as sobrancelhas ligeiramente arqueadas ao notá-lo lhe encarando, enquanto o tom segue humorado diante a informação de que o lembra alguém. esta nada mais é uma tentativa de manter o foco nele, mesmo que somente por mais alguns míseros segundos. ❛ como eu disse, é complicado. ❜ a leveza vacila com um suspiro pesado demais para conter. cada observação que ele ofereceu antes, sobre seu relacionamento, afundarem em seu interior com um peso inescapável. a anil sente a garganta contrair e finge que isso não ecoa na própria voz. ❛ eu o machuquei e não sei como consertar... não sei nem se tem como... ❜ por um instante, lena hesita. não quer falar demais, não quer revirar tudo aquilo de novo, mas no fim, o outro está certo: é mais fácil se abrir para alguém que não te conhece. e com uma coroa em sua cabeça, não são muitas as chances que tem de ser irreconhecível. ❛ a verdade é que estarmos juntos de verdade, como eu quero, significa que teríamos que abrir mão de muita coisa. ele machucaria a familia dele, largaria tudo o que ele conhece... e pelo quê? eu não valho um sacrifício desses. ❜ as palavras escapam cada vez mais embargadas, contudo, isso não é rompante emotivo como os que costuma ter. no fundo da dor, há apenas cansaço —— um cansaço desesperado, de quem viveu aquilo vezes o suficiente para saber exatamente como acaba. ❛ eu já vi esse cenário antes —— bem, não tão drástico assim, mas é pior, não? ❜ bourbon se força a encará-lo, o único brilho em seu olhar é aquele das lágrimas que se acumulam ali. e antes que o cavaleiro possa responder, continua: ❛ é pior porque, se eu consegui estragar relações que tinham tudo —— tudo —— pra dar certo, o que garante que eu não vou estragar essa também? mesmo que ele aceitasse.. um dia ele vai acabar se dando conta do quão difícil eu sou, do quão difícil me amar realmente é. e ai vai ser tarde demais... ❜ talvez não fosse o final mais digno, todavia, assim, ao menos, as lembranças deles ainda estariam seguras. assim, eles permaneceriam como algo bonito —— algo que só não deu certo, porque o mundo não deixou. não por causa deles...
entre as dores do coração e da própria alma, é como se um maremoto se rebelasse dentro dela, erguendo apenas caos e destroços. ❛ eu só tô tão cansada de me sentir assim. ❜ ela esfrega as palmas das mãos pelo rosto com força, como se além das lágrimas, tentasse espantar também aquela maldita sensação. e, quando não dá certo, é finalmente então que se levanta da cama e caminha até a figura alheia em passos mais fortes do que realmente sente —— sempre fingindo até alcançar. seu rosto, todavia, ostenta uma transparência involuntária que revela que as palavras dele ecoam tão fundo quando as dela própria. e talvez por isso, talvez pela estranheza segura daquele momento, pelo fato de o mundo inteiro parecer tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante entre aquelas quatro paredes, com aquele estranho que entende aquela dor… fato é elena se permite, pela primeira vez em muito tempo, acreditar que não está sozinha. seus passos chegam ao fim quando alcança o lado dele, e aí, simplesmente desaba no chão, junto a ele. seu corpo encontra o dele, numa intimidade que até então só dividiram em palavras e revelações; o calor que emana dele a atinge como uma bóia e meio as ondas, e ela se agarra, sem pensar duas vezes. seus braços se cruzam sobre o peito largo num gesto quase infantil, quase desesperado, enquanto apoia a cabeça sobre eles. os olhos, escuros como uma noite sem entrelas, se curiosos para a abóbora —— há algo perdido entre as feições entalhadas que remexe em algo dentro de si. algo que não é inteiramente familiar, só que também não desconhecido, como uma memória antiga demais para ter forma, mas que aidna deixa a sensação. ❛ eu posso tocar? ❜ a pergunta sai baixa, dotada de uma curiosidade tímida. só que antes que ele possa lhe dar um “sim” ou um “não”, elena já estica a mão. as pontas dos dedos tocam a superfície da abóbora com cuidado, deslizando devagar pela superfície, sentindo sua textura firme. um sopro de riso corta, confuso pela boca,. ❛ eu não wje o que estava esperando, mas é até bem... aboboresco. ❜