Claro que naquele jogo todo da maldição, Gancho não havia sido o único quem tirara boas cartas, mas oh se tinha umas muito úteis. Ainda sim, sua carta útil também podia ser bastante carente e, depois de algumas mensagens e ligações perdidas, a única forma decente de continuar se concentrando nos afazeres era desligar o maldito celular. Precisava dizer que muito embora o aparelho facilitasse inúmeras situações, ele sentia falta da calmaria que a falta de tecnologia trazia em outro mundo. Em sua defesa (se é que poderia existir tal coisa), seu plano inicial era somente finalizar os detalhes de um relatório antes de sair de seu escritório, o que não deveria ter demorado mais do que quinze minutos extras. Quando alguns imprevistos apareceram, os quinze se estenderam e se transformaram em quarenta minutos, que logo se tornava uma hora. E, quando finalmente finalizou os fazeres e ligou o celular outra vez, recordou-se do motivo de sua esposa incomodá-lo tanto com mensagens e lembretes: tinham compromisso aquela noite. Kartal suspirou, irritado por saber que teria de lidar com explicações e olhares tristes e desapontados. Também não era como se ele odiasse Perséfone. Verdade fosse dita, era uma mulher carinhosa e compreensiva, infinitamente mais do que Gancho poderia merecer mesmo se tentasse se redimir por anos a fio. Isso sem contar na beleza que justificava o encantamento do Deus do submundo. Quiçá, em um outro ponto de sua vida, ele até abriria o coração a alguém como ela. Mas há muito aquele órgão estava paralisado, apodrecido, e sua vingança ainda estava acima de tudo. Não havia espaço para nada além daquilo, o que era uma pena para Dakota, que definitivamente não merecia ser tratada de tal maneira. A mensagem enviada para a mulher foi breve, sequer se desculpando pelo atraso (poderia fazê-lo quando estivesse no lugar), apenas avisando que estava a caminho. E talvez ela não tivesse conseguido ler o texto, pois provavelmente não estaria dando liberdade a um idiota se soubesse que o marido estava chegando. Perto o suficiente, foi capaz de ouvir os últimos dizeres da mulher, e o rosto fechado já demonstrava a pouca paciência com a audácia do rapaz. Ora essa, não havia visto o anel da moça? “Preciso te fazer engolir a aliança para que possa percebê-la?” Direcionou, obviamente, a palavra ao homem (que no fim, não havia sido desrespeitoso em qualquer momento, mas para alguém que odiava perder, o ciúmes se tornava um defeito inevitável).
Assim que Dakota percebeu o marido entrar em seu campo de visão, o coração acelerou e o sorriso fora imediato, as bochechas se tornando rubras. Não importava que o conhecesse há muito tempo ou que fossem casados, seu corpo sempre reagiria como se o estivesse vendo pela primeira vez, como uma adolescente com sentimentos tímidos e platônicos. Ela não conseguia evitar, era de sua natureza apaixonada. Cada vez que o olhava, não se julgava merecedora de um homem como Kartal. “Meu amor, está tudo bem. Eu já o avisei de que sou comprometida.”, Dakota sorriu para o marido, lançando um rápido olhar para o outro homem. No entanto, este não pareceu se intimidar pelo anel de compromisso, tampouco pelo tamanho do pirata. “Não pode deixar uma mulher como essa sozinha por tanto tempo e esperar que nada aconteça.” Disse o desconhecido e nesse momento Dakota precisou conter uma risadinha, porque era bem verdade que Kartal estava atrasado, embora entendesse os motivos. Apenas magoava um pouco o fato dele estar sempre atrasado, sempre ocupado, com pouco tempo disponível para ela. Não que fosse uma pessoa carente (ok, talvez era um pouquinho), mas todos os instantes com o marido eram tão bons que Dakota apenas gostaria que se prolongassem um pouco mais. “Não é da sua conta se estou sozinha ou não. Estar sozinha não é um convite.” As palavras saíram antes mesmo que pensasse demais, pronunciando no momento em que percebeu que o comportamento alheio poderia ser um tanto irritante. Embora lisonjeada pelo elogio que fora deixado subentendido, possuía uma veia feminista que não deixava que ficasse calada diante de alguns comentários. Dakota simplesmente voltou-se para ele, ignorando o outro e abrindo o sorriso mais brilhante que conseguia. Estava tão feliz por vê-lo! “Não precisa ser ciumento.” A moça jogou os braços ao redor do homem, elevando os pés para tentar alcançar o pescoço, aonde passou suas mãos. A proximidade fez com que estivesse perto o suficiente do ouvido do marido para poder sussurrar. “Eu só tenho olhos para você. Não sabe que eu sou sua?” O tom, cheio de devoção, era completamente apaixonado.