❝ ☾ ✩ Como os dois acabaram naquela posição, Narcisa não saberia explicar direito. Num dia ela tinha certeza que odiava o noivo que haviam lhe arrumado, no outro ele a levou para aquele festival plebeu quando ela precisava urgentemente se afastar dali e agora lá estava ele: deitado com a cabeça em seu colo enquanto a protegida de Hela, cuja atenção estava quase inteiramente voltada para as páginas de seu livro, percorria os dedos por seus cabelos. Quase, pois, por mais que tentasse, a presença do rapaz se tornava cada vez mais difícil de ignorar. Como se algo bem no fundo de sua mente estivesse tentando lhe alertar para o quanto aquele ato de intimidade aparentemente inocente era perigoso. No entanto, ela continuava como se não percebesse o aviso, emaranhando seus dedos pelos cachos macios e ocasionalmente raspando as unhas pelo couro cabeludo — como já havia feito com tantos outros, só, bem, não nessa situação. " — Ei, Narcisa ", a voz dele cortou o silêncio, fazendo com que a garota desviasse o olhar de seu livro, apenas para encontrar as íris azuis focadas nela. O brilho curioso estampado em seu interior a fez arquear uma sobrancelha antes mesmo dele continuar. " — Você disse conseguia enxergar auras ". " — E daí..? ", diferente das últimas vezes, não havia ironia ou hostilidade em seu tom, só tentava enxergar onde aquilo iria chegar. " — Como é isso? ", Lincoln perguntou e ela apenas deu de ombros, já retornando para seu livro. " — Todos possuem uma alma e a aura de uma pessoa é a energia vital dessa alma ", a Gladhor explicou no tom mais acadêmico e desinteressado que tinha, " — No sentido mais básico, é como uma vela: a alma é a chama enquanto a aura é a luz emitida por ela. O que eu vejo, no caso, é a luz através da pessoa " " — Mas como é isso? " Narcisa piscou uma e então duas vezes ao escutá-lo repetir a pergunta, precisando de alguns segundos para que percebesse que ele queria saber o que ela achava sobre aquilo. Tal realização lhe pegou desprevenida, afinal, ninguém nunca havia se interessado em perguntar sua opinião antes — nem naquilo ou em qualquer assunto, para falar a verdade. Nem mesmo Dammion. Ela apenas despertou da surpresa ao ouvir um murmurio de insatisfação se formar na garganta de Lincoln quando ela parou o cafuné. Os olhos castanhos se desviaram pela paisagem ao seu redor, observando os demais estudantes seguindo suas vidas de forma distraída conforme pensava em uma resposta. " — É como ver um arco íris de diferentes texturas transparecendo em cada pessoa ", começou, " — Suas verdadeiras cores, se você for adepto a essa melosidade. Na Sexta Corte, não era tão evidente, talvez por sermos tão calmos e recompostos, mas aqui... " Cissa então se permitiu fitar o noivo por alguns segundos. Bem, não apenas fitar, mas realmente observá-lo. O olhar cristalino e expressivo dele ainda a estudava com curiosidade, só que não era nele que a princesa se focava, e sim no brilho colorido que transluzia em sua pele e que só era visível aos seus olhos. Poder ver auras trazia uma certa segurança para Narcisa uma vez que dificilmente alguém conseguia lhe pegar de surpresa — a maioria pensava que bastava controlar as emoções em sua face que estavam seguros, não imaginavam que haviam pessoas como ela que conseguiam ver mais a fundo de seu teatro. Contudo, nem sempre era algo certo e fácil de entender, as vezes as emoções se misturavam ou poderiam ser mal interpretadas. E, por Hela, a de Brain Freeze levava o troféu nessa categoria. Apesar de ter descrito sua visão como um arco íris, a maioria das pessoas costumava exibir uma ou duas cores por vez, mas a aura do protegido de Loki era realmente uma composição de tantas tonalidades e texturas diferentes que ela nem sabia como começar a catalogar. Em sua grande parte, era suave e brilhante, com cores que denotavam alegria, satisfação, curiosidade; no entanto, havia também trechos que se tornavam mais hesitantes e ásperos, pequenos pontos mais escuros e frios, que expressavam dúvidas, medo, impotência — talvez derivados do fato que o controle de sua corte poderia recair em suas mãos a qualquer momento, ela não saberia dizer. De certa forma era assustador, mas também muito bonito. Como uma obra de arte que apenas ela pudesse apreciar. Ponderou por alguns momentos em busca das palavras que poderiam descrever aquilo, todavia nem se ela tentasse recriar em uma pintura conseguiria fazer jus. Era o tipo de coisa que apenas se entendia vendo. E com esse pensamento, as sobrancelhas se ergueram suavemente. " — Levante-se e feche seus olhos ", mandou com firmeza, ainda que não estivesse muito certa se a ideia que tivera poderia dar certo. A auracinese não só lhe dava a habilidade de enxergar a aura das demais pessoas como também a capacidade de absorvê-las e, assim, ter acesso a sua energia, memórias e até mesmo seus poderes por um pequeno intervalo de tempo. Jamais havia tentado o caminho oposto — o de oferecer uma dose de seu próprio poder a alguém. Sabia que poderia ser um pouco perigoso, no entanto, aquilo parecia ser exatamente o tipo de coisa que o Seifreid iria gostar e, bem, a morena ainda se sentia em débito com ele por causa da ajuda no outro dia — e não havia nada que um Gladhor odiasse mais do que todo o espectro das emoções humanas dever algo a alguém. " — Por Hela, feche logo os olhos, não é como se eu fosse te morder ", ela então revirou os próprios olhos com irritação ao vê-lo parecer hesitante com sua ordem e acrescentou com um sorriso irônico: " — Acredite, não quando sei que você gostaria disso " Cissa respirou fundo quando ele a obedeceu. Precisava tomar cuidado; caso desse doses demais de sua aura, o corpo dele poderia perceber e tentar rejeitá-la, o que não seria muito bonito. Nenhum deles poderia ficar nervoso, do contrário acabaria errando. Foi nesse momento em que seus olhos caíram acidentalmente nos lábios cheios do rapaz e um sorriso logo cresceu nos seus. Que ficasse claro que ela não era nenhuma predadora tirando vantagem de um inocente coitado. Cada movimento seu foi feito com maestria e cuidadosamente planejado; do momento em que envolveu o rosto dele com suas mãos, da maneira mais delicada e suave que pôde, ao que uniu os seus lábios em um beijo quase inocente. Ela tentou não focar no quão macios e experientes os lábios dele eram ou em como aquele beijo logo ia ficando mais intenso, afinal, tinha um trabalho a fazer. Em sua cabeça, a atenção se concentrava quase toda em tentar mentalizar a imagem de um fio de lã até que sentisse a própria aura tomar a forma deste. Porém, ao invés de puxá-lo — como teria feito, caso fosse absorver a aura dele —, ela o empurrou em direção a Link, até que o fio penetrasse na aura dele completamente. As suas mãos não permaneceram muito tempo no rosto masculino, todavia, como havia sido dito, todos os movimentos haviam sido feitos com um objetivo. Ainda que pudesse ver a aura de uma pessoa, a manipulação ocorria melhor através do toque. Tudo bem, talvez a canhota tenha se afundado pelos cachos escuros apenas por instinto, contudo, quando a destra deslizou até o peito dele, foi para que dessa forma pudesse sentir melhor o ponto de sua alma que concentrava o poder dele — de modo que pudesse enxergá-lo conforme aquele fio de aura se enrolava nele até cobri-lo por completo. Nesse momento Cissa já poderia ter parado o beijo, o trabalho ali estava feito e pelo que parecia, não havia tido nenhum problema. Mas, por alguma razão que ela também não soube e nem tentou explicar, não sentia tanta pressa para se afastar do toque de Brain Freeze, ao invés disso, decidiu aproveitar um pouco. Agora, com ambas as mãos perdidas por entre seus cabelos, a garota o puxava para si, tentando assumir o controle do beijo e continuando-o até que o ar se tornasse escasso em seus pulmões. Sua mente parecia dolorosamente ciente do jeito como as mãos dele vagavam sobre suas costas e cintura, despertando uma ânsia deliciosa em seu estômago e a fazendo se questionar como seria senti-las diretamente em sua pele, em outros locais mais interessantes. Por Hela, ele era perigoso. " — Abra os olhos ", ela disse contra a boca dele, a voz soando sem fôlego. E, apesar do que havia dito antes, Cissa não resistiu e acabou mordiscando o lábio inferior do moreno de leve antes de se afastar completamente. " — Abra os olhos e veja por si mesmo "