Rei de paus.
É carta marcada: o convívio com as mais variadas formas de arte faz surgir uma distância estética. Creio até que há uma idade-limite para querermos ser exatamente como o aventureiro sem receios de On The Road ou o Batman. Mas, como toda norma, essa também tropeça: distância estética nenhuma jamais funcionou com os filmes de cassino – ou de roubo a banco. É batata: assim que acaba um eu me apanho vestindo a fantasia de recém milionário, comparando a malandragem das personagens com a minha. E a tese da idade-limite fica suspensa por algumas horas, até que um assunto sério acalme o córtex ou que eu comece a perder demais no poker.
Mas o tal até ainda não chegou, e o impulso de querer copiar com precisão alguém que atingiu o sucesso acordou comigo. E quem sofre é a rotina. Não pela visita matinal ao quarto que virou uma biblioteca, que esta se manteve. Mas o terceiro livro tirado ao acaso, esse abalou as estruturas mais estáveis de tempo: uma bendita biografia de João Ubaldo Ribeiro. Estavam lá, todos os passos esmiuçados para minha imediata aderência e consequente ascendência nos mais importantes círculos literários: acordar às quatro, escrever até às onze, dormir até às seis, ler até duas, dormir até quatro, reiniciar. Formidável, pensei. Simples. Questão de dedicação - com o bônus do reconhecimento social que não é tão instantâneo quando a escalada na fama vem de cassinos. É hoje que você cai, dona Rotina.
E lá fui eu: faltei aos compromissos, cancelei a assinatura da TV, chequei o estoque de macarrão instantâneo, tudo decidido em menos de meia hora em prol da ascese intelectual. Posicionei Viva o Povo Brasileiro em um canto da mesa; A Casa dos Budas Ditosos no lado oposto; e encarei o notebook. Nada. Aceitável, pensei. Comum. Não se passa de professor de cursinho para um talento nato em literatura assim, de supetão. Aposto que quem ganhou aquela mão de Black Jack começou na vida imitando algum mestre. Venha cá, Ubaldo: vou te imitar, só dessa vez. Mas sem descaração, é só para iniciar o livro de alguém que certamente apoiará muitos iniciantes quando chegar lá. Você me daria licença, de escrever exatamente como você, mudando local, época e adjetivos para que não percebam? Sério? Te devo essa!
E lá vou eu: primeiro parágrafo sobre um policial à paisana que morre de uma badogada na ocupação do Morro Dona Marta. Mas não fica bom. Apago com tensão. E se eu começar com o bilhete anônimo de um senhor ansioso por contar as peripécias de inconsciente sexual? E se o bilhete viesse de um perfil falso no facebook? Será que vai? Não foi. As rodadas se sucedem, até às duas da manhã, como programado. Até que ouço uma risada grossa, alta, vindo detrás da porta da rua. Suspeito da autoria, mas deito pensando em outra coisa: como conseguir um atestado e justificar a mensagem de demissão por uma febre quase mortal? A TV que eu não assino, de novo. Esses filmes ainda vão me fazer querer lutar com um urso. Adorada distância estética, contamina meus horários de diversão. Ou só na marra – e com muita grana perdida – eu vou descobrir que jogar com as fichas alheias não modificará a mão que o destino me pregou. Ou seja: que tentar escrever como João Ubaldo Ribeiro é, pra bom entendedor, praticamente perder no poker.
Crônica destinada ao selo João Ubaldo da Fundação Gregório de Matos (SSA-BA)
Pedro Oliveira,
10/02/2017













