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@desafogar-se
Autumn Treehouse
é que eu tô com medo
do meu último fio arrebentar.
Proteja sua paz.
Uma quinta-feira chuvosa.
Mais um dia de trabalho. O dia difícil deveria terminar com a serenidade que uma aula precisa ter.
Parada, esperando para atravessar, viu a festa de cores, luzes e sons da cidade. Um ciclista gritou com o motorista de um carro vermelho. Um senhor, do outro lado da rua, segurando uma sacola de farmácia e um jornal enrolado num saco plástico amarelo em baixo do braço, olhou assustado. Um morador de rua passou cantando uma música só dele e para ele. O vento cortante a lembrou da pele molhada, que doeu com o encontro. A mão trêmula e escorregadia, que já não conseguia segurar a mochila, a fez lembrar de andar. Ela! Minha aluna está me esperando. Uma gota gelada escorreu pelo rosto. A cada passo, o pulsar de uma angústia velha-amiga. A vontade de chorar trazia a dor inevitável de ser humana. O antigo casaco bege e manchado estava molhado e amassado, o tênis ensopado e as gotas insistentes que atravessavam o tecido do guarda-chuva quase todo quebrado traziam o charme do velho e conhecido fracasso. “Que vida de meu Deus” diria um saudoso professor de literatura. Interessante recordar dele num momento como esse. Ele, provavelmente, estaria em casa lendo e confortável. Quase sentiu raiva. Como pode alguém cantar as tristezas da vida tão lindamente sem nunca sentir o vazio do futuro?
A formação que ele prometeu ser linda.
A deriva de si mesmo.
Nada mais violento que a realidade.
Desafogar-se
A gente olha para si no reflexo de um espelho velho e acata o final ruim que nos acomete. A decepção é como a de uma família que se reúne para ver o grande final de uma novela e o protagonista morre. A protagonista da minha vida está aqui me olhando de volta. Seca e quebradiça. Tristeza, terror, decepção e um resquício de amor estão nos olhos dela. Os olhos marejados parecem reter toda água que restou. Um dia castanhos, hoje tão mais escuros. Talvez para combinar com os tons roxos que ficam abaixo deles. Ela enfim aceitou os textos de sintaxe travada e comedida cheios de períodos curtos como este que você lê. Ela vê, também, que o mundo perdeu a cor a cada dia. Não restando nada de vida, ele perdeu o branco. O cinza tem resistido bravamente, mas é um daqueles momentos que a gente sabe que o preto vai vencer e apagar tudo que restava de contraste. Sinceramente, ela espera por isso. A imensidão do escuro dá coragem de fazer aquilo que tanto sonha em fazer. Imagina a delícia de voar. Descansar. Finalmente.
“Preciso desse tempo longe. Eu estou exausto de todo mundo.”
— Gabito Nunes.
“Mágoa é algo que conheço muito bem, não é fácil se recuperar e algumas vezes você não se recupera.”
— Arrow.
George Marks. City street during snow storm. USA. 1950s
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