Dos lugares mais undergrounds de uma cidade, considero este um reduto especial. Aqui há de todos os tipos: surfistas indo para a praia, velhinhos vindo do interior visitar seus filhos. Não passam de um bando de desconhecidos querendo chegar a algum lugar. Abastados e miseráveis se cruzam nos corredores desta – e de todas – as rodoviárias. Taxistas atrás de clientes, faxineiras querendo férias, catadores de latas de alumínio vasculhando em cada lixeira um pouco de dinheiro. O banheiro, um lugar insólito. Nas portas há frases obscenas, desenhos de sodomia com convites para boquetes gratuitos. Manchas de sêmen nos azulejos. As pessoas mais estranhas passam por aqui. Outro dia um fiel da igreja Bola de Neve pregava completamente chapado. Crianças esquartejadas são deixadas em malas de viagem; parentes que visitam parentes, despedidas. Definitivamente este é um espaço de todas as gentes.
Estou aqui sentado, em uma dessas cadeiras duras de plástico, olhando para uma velha casa amarela. A parede desnudada pelo reboco caído em grandes pedaços, cheia de anúncios de desaparecidos. É uma casa feia – típica repartição pública – com suas vísceras expostas. Ao meu lado, um grupo de pessoas em silêncio. Ninguém parece feliz. Escondidos no final da rodoviária, o clima aqui é mais deprimente. Uma porta é aberta de tempo em tempo e uma senhora de óculos na ponta do nariz chama o escolhido:
- Wiliam! – diz a voz sem remorso.
Do meu lado, levanta-se um jovem sem esperanças nos olhos, calças velhas e chinelos nos pés. Entram os dois e somem atrás da vidraça espelhada. Os escolhidos têm muitos nomes: Willian – com ene mesmo –, Simone, Adriano, Dirceleyne – mas são completamente desconhecidos. Sentado aqui, observo um deles sentado ao meu lado, calças escuras, uma blusa de lã rasgada no pescoço, com uma mala grande próxima aos pés. É uma moça que aparenta pouco mais de 20 anos. Do outro lado, um rapaz de boné, calças jeans e uma pequena bolsa ao lado no banco. Parece humilde, sim, mas não está mal vestido, diferente do outro ao seu lado, com quem conversa. Aquele está de chinelos, calças velhas e uma camisa cheia de pequenos rasgos. A barba por fazer e os cabelos compridos lhe dão um aspecto de sujeira. Aqui, o que tem em comum é a espera. Tampouco lhes percebo pressa. Rostos sofridos, a maioria deles quer ir embora daqui a todo custo. Willian é o único aventureiro entre eles. Baiano, de vinte e poucos anos, saiu de Salvador para rodar um pouco: Conhecer as coisas por aí! – segundo ele. Tentou a sorte em São Paulo, mas agora abomina tudo e todos que são de lá. Disse que as coisas não deram certo, não conseguiu trabalho, e que a cidade está infestada de “capetinhas”. Conto-lhe sobre meu irmão, que trabalha no metrô e consegue sobreviver, e ele responde: “Ah, bom, mas aí trabalhar com carteira assinada é outra coisa. Com carteira assinada você tá tranquilo. Aí você pertence à sociedade!”
Ele está certo, vivemos em mundo onde o sol do trabalho assalariado – e de carteira assinada – brilha para poucos. Dirceleyne está cansada. Tentou trabalho há três anos aqui em Curitiba e nada deu certo. Agora espera sua vez para ser atendida, aqui na Casa da Acolhida e do Regresso – simpático nome para o serviço de assistência social da rodoviária, parte da Fundação de Ação Social (FAS) de Curitiba – e voltar para Palmas, no interior do Paraná, de onde veio. Diz ela que não aguenta mais: Tá tudo muito difícil aqui!
Entre os objetivos da entidade, está o serviço de assistência aos migrantes que vêm à Curitiba tentar a vida. Mas não é de todo uma verdade, pelo menos, a olhar para Wiliam, que veio à cidade em busca de emprego.
- E aí, conseguiu? – pergunta-lhe Dirceleyne após o atendimento.
- Consegui porra nenhuma! Isto aqui não vai me ajudar em nada!
Recebe um aviso – que mais parece um ultimato – de que tem três dias para achar um emprego. Se não, tem de voltar à Casa para receber uma passagem de volta. Nada de emprego, só a garantia de três noites no albergue da Conselheiro Laurindo. E isso que era o único daquela fila querendo ficar. Quem vai arranjar emprego para esse cara? Tento dizer-lhe, estupidamente, que esta é a época de contratos temporários, que pode ser que ele ache alguma coisa: “É, aí tenho que fazer a barba, comprar uma camisa nova, é o jeito!” Seus últimos trabalhos foram de “biscates”, nas palavras dele, como auxiliar de pedreiro, ou serviços gerais. Contou que, antes de chegar a Curitiba, estava em uma cidadezinha do interior de São Paulo. E, querendo ajuda para uma passagem, o serviço de assistência social da cidade lhe sugeriu sair a pé. Até a rodovia principal, onde poderia conseguir carona, teria que andar cerca de 200 quilômetros. Pergunta-me se há como voltar para a Bahia sem passar por São Paulo:
- Até tem – digo eu –, mas a volta é maior!
- E lá onde vivem aqueles deputados... como é que é...
- Brasília! – eu disse.
- É, Brasília, não dá para chegar lá? Não tem como eu passar por Santa Catarina até chegar lá?
Digo que não, que ele vai se afastar ainda mais de casa. Ele para, põe a autorização de pernoite na boca e reflete. Seus pensamentos devem estar em Salvador, no calor, na praia e nas mulheres. Não consigo entender sua ingenuidade. Por poucos segundos me senti como eles. Meus pais foram pobres durante boa parte da infância, tenho no sangue um pouco do sofrimento nordestino e a determinação dos gaúchos, mas não posso me colocar onde eles estão agora. Esta noite eles estarão em um albergue municipal, misturados aos mais insanos tipos, e eu estarei em casa, no aconchego da minha cama, ao lado da minha mulher. Este mundo é escroto com boa parte dos que vieram para cá. É uma vida filha da puta esta, e esta gente carrega no rosto todo esse sofrimento.
Volta a menina de Palmas:
- E aí, conseguiu? – pergunto a ela.
- Consegui, mas o ônibus só sai às dez. Vou até o albergue para jantar! – diz com um leve sorriso de satisfação no rosto, os dentes estragados a mostra.
Chega mais um. Este, de Maringá, irritado com certa experiência na Lapa, diz não ver a hora de voltar para casa. Ficou três meses tratando a tuberculose – não tinha vaga no hospital de Maringá – e disse que aquilo lá é o fim de mundo:
- Só em setembro morreram cinco. Duas mulheres e três homens. – diz ele.
Wilian se afasta, brinca perguntando-lhe se já está curado, e o tipo saca um cigarro do bolso e afirma que sim. A dele não foi da “braba”. Disse que no fundo do hospital, tem um cemitério cheio de cruzes. Eles cobram cinco mil para levar os corpos de volta para as cidades de onde vieram, mas a maioria não tem dinheiro, e eles ficam enterrados lá mesmo, é o que diz. Olhos azuis, de cabelos compridos, leva uma faixa na testa, vestindo uma calça suja de graxa, um colete sobre a camiseta surrada e duas sacolas com os pertences. Lá de dentro tira um emaranhado de papéis cobertos por um saco plástico. Cédula de identidade, carteira de trabalho, e mais alguns documentos. Apresenta-se no guichê da Casa e é chamado alguns minutos depois. Quem lê as informações sobre o serviço da instituição, parece acreditar em mundo diferente: “Além do acompanhamento, a equipe da FAS verifica se a pessoa conseguiu alcançar a estabilidade e emprego”. Não é o que parece. Menos de cinco minutos depois, a porta abre, e a atendente parece estar expulsando o “ex-tuberculoso”:
- O senhor vai em frente, até a praça, depois dobra a direita. É bem perto daqui! – grita de dentro da sala, em pé, esperando pelo homem que sai lá do fundo, com as sacolas em uma mão e a autorização de pernoite na outra.
Sai de cabeça baixa, quieto, e senta-se novamente no banco ao nosso lado:
- Consegui uma passagem de volta, mas só para amanhã! Queria uma passagem até o albergue, mas ela disse que é perto. Não sei se é perto, não sou daqui, não quero me perder.
Fico olhando para os três ao meu lado. Já conseguiram suas autorizações, Wiliam não sabe o que fazer, a menina de Palmas, quieta, também não se mexe. O terceiro arruma as sacolas, mas não se levanta. Acho que no fundo eles não sabem o que fazer. Suas vidas passam vazias. É uma vida sem futuro, sem esperanças. Acho que Wiliam está certo. Essas pessoas da assistência social [e toda a sociedade] não querem ajudar. Só querem se livrar deles. Essa gente que perambula pelas ruas vive esquecida, e o mundo é injusto. Não há espaço para eles.
Senti-me um merda. Queria lhes dar os quinze reais que carregava na carteira, oferecer-lhes carona, mas e daí? Vai mudar o quê na vida dessa gente? Em nenhum momento tive a coragem de tirar o bloco de anotações do bolso. Achei que isso seria uma violação. Disse-lhes que estava ali só de passagem, sem nada para fazer, quando me perguntaram se queria uma passagem ou emprego. Menti sobre o que fazia de verdade. Queria voltar para casa de vergonha, por não ter lhes dito a verdade e por não poder ajudar. O mundo é escroto, é no que consigo pensar. Essa gente vai parar onde? Eu vou para casa, digitar este texto, garantir uma boa nota, talvez. Sei que para o trabalho que escolhi as coisas vão ser sempre difíceis. E terei de me acostumar.
Não quis saber o outro lado da história desta vez, descumprindo parte da tarefa. Mas já sei o que os assistentes me diriam. “Tem muita gente oportunista, que abandona a família, e sai a vagar por aí” poderia ser uma resposta. Ou, “Tentamos ajudar, mas muitos não querem ajuda. Há quem goste de viver na rua”, me diriam. Pode ser verdade, eu sei. Mais verdadeiro que isso é que nos acostumamos com um mundo cão, seja sofrendo nele ou vendo os outros sofrerem. Nosso sangue esfria com o passar dos anos, e nos acostumamos a gostar dos que estão próximos, apenas. Todo o resto não importa, cada um que se vire com seus problemas, pensamos todos os dias em frente à televisão, de barriga cheia. E o mundo continua, excluindo e dizimando todos aqueles que nele não conseguem sobreviver.