Criadora de sentimentos complexos, na profundidade de uma colher de chá, que de tanto mergulhar na rasura das pessoas de cabeça, aprendeu a se virar com o dom de belas palavras. Dom de criar personagens, que se não seguissem seu roteiro previsto, a faziam mudar de cara, de gosto, estilo, nome, endereço. Não importa, ela se camufla, e manda bem no improviso, se expressa melhor com você textos, do que com a realidade dos sentimentos, de moldes de palavras, esconde, cria e vive seu mundo, que imagina, e mostra o vazio da alma que morre um pouquinho todo dia, quando acredita nas suas criações de sentimentos imaginários, de personagens que vivem dentro dela mesma, ela sabe que nada do que cria existe, se ilude no brilho dos outros, faz de covardes, leões, toma pra si sonhos que são dos outros, sonhos que não servem, mas passam a servir. Jogo de cintura ela tem, pra se adequar à qualquer papel que você imagine pra ela, mulher dos sonhos sem sonhos. Não tem cara, gosto, não tem vida, o que você quer? O que gosta? Ela sabe só de olhar e quase no automático vive para agradar os outros. Atriz da vida se esquece assim como cria, de qualquer personagem, seja dela, ou seu, ela esquece rápido. De tanto bater de testa no fundo do poço, entrou no coma da solidão, vazia, vazia, quem conhece? Ninguém, nem ela, nem deus. Ela deixou de existir, agora ela é um rosto bonito que se encaixa em qualquer grupo, se molda, e acredita na própria mentira, a ilusão. Gosta de pensar essa menina, como pensa, esses olhos tristes que sorriem pra todos, rosto que sabe que nunca foi tão só estar cercado por tantos. Um ótimo enfeite, que morreu faz tempo, como um troféu, só o mistério que esconde nos olhos cansados de ser belos, que a janela míope, já não diz. Atriz, automática, bonita, vazia, vazia, vazia. Mergulhou pra dentro de sí, não sei quando volta, é assim vai em frente, e não diz. Atriz, atriz.